Escrito a partir de uma cena comum dentro de casa – uma menina, um tablet e o alerta bem-humorado de uma avó -, A Menina da Cabeça Quadrada é um livro que convida adultos e crianças a desacelerar, observar e conversar. Em um tempo marcado pelas telas, a obra de Emília Nuñez propõe equilíbrio, presença e uma infância que segue sendo redonda. Publicado em 2016, o livro nasceu em um momento recente, quando as telas ainda não ocupavam o espaço avassalador que têm hoje, mas já estavam fortemente presentes no cotidiano das crianças.
Tablets e celulares faziam parte da rotina familiar e começavam a despertar inquietações sobre infância, tempo e presença.
A inspiração da história veio de dentro de casa. A menina da cabeça quadrada existe, sim – e se chama Cecília, irmã mais nova da autora. Aos seis anos, Cecília ganhou um tablet e passava longos períodos diante da tela. Quem intervinha era a avó, com humor e afeto. “Menina, você vai acabar ficando com a cabeça quadrada.”
Dessa cena cotidiana nasceu uma metáfora poderosa. Emília Nuñez transformou a observação familiar em literatura infantil – não para demonizar a tecnologia, mas para abrir uma conversa amorosa e necessária sobre equilíbrio, presença e infância.
O tema é destaque na edição de janeiro do Opinião Criança. Com o tema Brincar, ler e usar a tela. Com equilíbrio, dá para aproveitar o melhor de cada mundo, o caderno mostra como a infância precisa ter seu próprio espaço para o completo desenvolvimento da criança. A edição pode ser conferida aqui.
Tempo recente, preocupação evidente
Em 2016, os filhos de Emília ainda eram pequenos e tinham pouco acesso às telas. Ainda assim, ela pressentia que aquele seria um tema incontornável. “Eu via isso nas famílias, via nos meus irmãos mais novos, via que era uma preocupação coletiva”, relata. A questão, segundo a autora, não era apenas quanto tempo as crianças passavam diante das telas, mas como isso impactava a infância. “Hoje não existe mais separação entre mundo virtual e mundo real”, reflete.
“Tudo faz parte da nossa subjetividade: o que vemos, o que vivemos, o que postamos e o que recebemos como informação.”
Por isso, Emília defende que educar crianças para usar a tecnologia com sabedoria é uma tarefa compartilhada entre família, escola e sociedade – assim como pensar que tipo de conteúdo está sendo oferecido a elas. A história, para ela, precisava ser lúdica, divertida e respeitosa com a criança, mas também honesta. “Queria uma narrativa amorosa, que não ameaçasse, mas que provocasse reflexão.”

Sintoma e espelho
A menina da cabeça quadrada é criativa, alegre e imaginativa. Ao mesmo tempo, é uma criança exposta em excesso às telas. Para Emília, a personagem não acusa – revela. “Ela é um sintoma, mas também um espelho”, afirma. O problema, insiste a autora, não é a tecnologia. O tablet pode ser espaço de criação, desenho e invenção. O risco está no uso desorganizado, sem mediação adulta, que empurra a criança para conteúdos rápidos e repetitivos, sem elaboração subjetiva.
“Quando isso acontece, algo muito precioso é tirado da criança: a própria infância.” Brincar com o corpo, cantar, ouvir histórias, interagir e sentir o tempo passar exigem presença – algo que, muitas vezes, a tela rouba da relação com o outro.
Essa visão aparece também no próprio livro. No final da história, a avó – figura de cuidado e mediação – utiliza o tablet sem que isso represente rigidez ou ameaça. A mensagem é clara: a tecnologia faz parte da vida, mas precisa de lugar, tempo e intenção.
Ler é oferecer presença
Para Emília Nuñez, escrever para crianças é um gesto profundamente afetivo. “É uma declaração de amor”, define. Amor entendido como presença inteira, não fragmentada. Ler junto significa parar, olhar para o mesmo lugar e compartilhar um tempo comum. A autora lembra a reflexão da educadora e escritora Yolanda Reis sobre o “triângulo amoroso do livro”: criança, mediador e história, juntos, desvendando um universo. “É uma presença sólida, real. Algo raro hoje.”
Essa compreensão também orienta sua relação com a responsabilidade da literatura infantil. Para Emília, o compromisso do escritor é com a história – não com a lição.
“Quando eu sou verdadeira com a história, a reflexão vem. Não preciso impor uma moral.”
Infância redonda, vida redonda
A própria infância da autora atravessa o livro: uma infância brincante, marcada pela presença dos avós e pelo tempo sem pressa. Não por acaso, a figura da avó ocupa um lugar central na narrativa. “O que mais me importa é garantir uma infância com espaço para brincar”, destaca. Hoje, a menina real que inspirou a história cresceu.

A Cecília de seis anos é agora uma adolescente de 17, descrita pela autora como aberta à vida, curiosa e longe da dependência das telas. É assim que Emília imagina a menina da cabeça quadrada adulta: alguém que sente o sol na pele, mergulha no mar e vive com intensidade. Uma vida redondinha.
O que fica quando o livro se fecha
Ao terminar a leitura, Emília espera algo simples e profundo: vontade de brincar. Que a criança cante uma brincadeira de roda, pegue uma bola e invente jogos. Que, se lido antes de dormir, o livro gere sonhos redondos – e que, ao acordar, a primeira escolha não seja ligar a tela, mas viver o dia com o corpo e com o outro. Para a autora, a literatura infantil não precisa fechar sentidos nem entregar respostas prontas.
“Quando o livro termina, algo se abre.”
Pode ser uma conversa, um silêncio fértil, um incômodo ou uma alegria. O importante é que a história crie espaço — para pensar, sentir ou simplesmente estar junto. “A Menina da Cabeça Quadrada” não oferece receitas. Oferece presença. “A tecnologia não é vilã”, reforça Emília. “Estamos aprendendo juntos. O nosso papel é garantir uma infância com espaço para tudo – mas, principalmente, para brincar.”
No fim, talvez a maior força da história esteja aí: lembrar que crescer não precisa significar endurecer. E que, mesmo em um mundo acelerado, ainda é possível manter a imaginação redonda.
Ficha técnica
Título: A Menina da Cabeça Quadrada
- Autora: Emília Nuñez
- Ilustrações: Bruna Cedes Brasil
- Editora: Tibi
- Ano de lançamento: 2016
Por que ler este livro?
-Porque fala sobre telas sem demonizar a tecnologia
-Porque propõe diálogo, não ameaça
-Porque valoriza o brincar como linguagem essencial da infância
-Porque convida adultos e crianças a desacelerar juntos
