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Do calor sufocante aos alagamentos: como o clima extremo desafia o Ceará

A temperatura média global já aumentou cerca de 1,5°C nos últimos anos, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). No Ceará, 2026 começou com registros de temperaturas até 3°C acima da média histórica, podendo alcançar 39°C em determinadas cidades. Diante desse cenário e com a proximidade do período chuvoso, especialistas alertam que a estrutura urbana do Estado precisa estar preparada para lidar com realidades climáticas cada vez mais extremas.

Em entrevista ao Opinião CE, o professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e especialista em climatologia urbana, Antonio Júnior, explicou que a localização do Ceará em uma área de clima semiárido, associada ao bioma Caatinga, amplia os fatores que agravam a sensação térmica.

“Naturalmente, já temos temperaturas elevadas, baixa variabilidade de precipitação e outras características geoambientais que contribuem para o agravamento das sensações térmicas, do sentir a temperatura”, afirmou.

Segundo o especialista, há medidas que podem ser adotadas pelo poder público para reduzir os impactos desse cenário sobre a população. Ele destaca que não se trata de “soluções mirabolantes”, mas de ações simples, viáveis e já amparadas pela legislação.

Conservação ambiental e planejamento urbano

A principal frente apontada por Antonio Júnior é a conservação dos ambientes naturais, uma vez que a degradação ambiental está entre as principais causas da crise climática global. A proteção da Caatinga, dos ambientes serranos e da zona costeira é fundamental para manter o equilíbrio climático no Estado. Para isso, o governo precisa investir em ações de mitigação e adaptação aos efeitos adversos do clima. “Conservar esses ambientes naturais e minimizar o processo de antropização é fundamental para combater o aumento das temperaturas”, ressaltou.

Além da preservação ambiental, o professor defende estratégias mais eficientes de planejamento urbano, com a adoção de medidas que superem modelos tradicionais e tragam soluções inovadoras para mitigar, de forma direta, os impactos climáticos.

O Parque do Cocó é o maior parque natural em área urbana do Norte e Nordeste e o quarto da América Latina. Ele é fundamental para redução das temperaturas em Fortaleza. Foto: Divulgação/Governo do Ceará

Resposta aos desafios

Também em entrevista ao Opinião CE, o presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan), Artur Bruno, afirmou que a Prefeitura de Fortaleza vem estruturando ações de curto, médio e longo prazo para enfrentar os desafios climáticos.

A Capital conta com o Sistema Urbano Integrado de Gestão de Riscos e Desastres, que orienta o planejamento urbano para a próxima década. A estratégia envolve o uso de inteligência de dados para subsidiar políticas públicas e ações mais assertivas, por meio de estações meteorológicas e do Observatório de Riscos Climáticos.

Lançado pelo Ipplan em parceria com a Defesa Civil de Fortaleza, o Observatório é considerado um pilar estratégico para a tomada de decisões em situações de crise e para a formulação de políticas públicas voltadas à resiliência urbana. Segundo Bruno, a ferramenta permite compreender com maior precisão a dinâmica climática da cidade e atuar de forma direcionada no enfrentamento de eventos extremos.

Altas temperaturas e ilhas de calor

Antonio Júnior também destacou que, dentro de uma mesma cidade, há variações significativas de temperatura. Bairros distintos sentem de forma desigual os efeitos de ondas de calor, ilhas de calor, inundações e alagamentos. Áreas com maior arborização, menor impermeabilização do solo e espaçamento entre edificações tendem a registrar temperaturas mais amenas.

“Superfícies intertravadas e permeáveis permitem a passagem de energia e água. Onde o lote não é totalmente construído e há maior espaçamento entre edificações, ocorre uma amenização das ilhas de calor e do calor extremo naquele contexto espacial”, explicou.

O Ipplan tem realizado levantamentos de dados primários sobre a distribuição das temperaturas em Fortaleza, com o objetivo de compreender melhor o fenômeno das ilhas de calor urbano. Reconhecer que o calor se distribui de forma desigual no território é essencial para orientar políticas públicas mais justas e eficazes, priorizando as áreas e populações mais vulneráveis.

Esse monitoramento é feito por meio de estações meteorológicas operadas pela Defesa Civil em parceria com o Ipplan. Artur Bruno informou que o sistema ainda está em fase de testes, mas já se mostra fundamental para subsidiar ações municipais nas áreas ambiental e urbana, fortalecendo a adaptação da cidade às mudanças climáticas.

Calor extremo pode causar consequências sérias à saúde. Foto: Natinho Rodrigues/Arquivo Opinião CE

Clima e desigualdade social

Para o professor Antonio Júnior, a questão climática não pode ser dissociada do contexto social. Moradores de bairros com melhores condições socioeconômicas tendem a ter maior acesso a ar-condicionado, veículos e ambientes climatizados, enquanto a população das periferias sente os efeitos do calor de forma mais intensa.

“Essas pessoas chegam aos seus trabalhos em ambientes climatizados. Já quem mora na periferia, muitas vezes, não tem sequer um ventilador para passar a noite”, afirmou.

Em setembro de 2025, a Prefeitura de Fortaleza instalou, em pontos estratégicos da cidade, 10 estações meteorológicas do tipo all in one. O objetivo é monitorar a temperatura urbana, identificar as ilhas de calor e registrar a pluviometria. O objetivo é realizar o acompanhamento dos dados para executar políticas direcionadas e de forma mais assertiva. O Observatório foi lançado pela gestão municipal em 2025, durante a COP30, em Belém (PA).

Em entrevista ao Opinião CE, na ocasião, a gerente de Planejamento do Ipplan, Dalila Menezes, revelou que quase metade da população fortalezense vive em áreas de risco. Segundo ela, 42% da população fortalezense vive em assentamentos precários. “É pra essas pessoas que a gente precisa trabalhar”, destacou Dalila Menezes, reforçando que o maior desafio é fazer com que o planejamento urbano e as políticas de mitigação do clima estejam conectados à realidade das comunidades mais afetadas por alagamentos, calor extremo e falta de infraestrutura.

Antonio Júnior corrobora com a análise. Segundo ele, as desigualdades sociais e espaciais influenciam diretamente a forma como cada região da cidade enfrenta os impactos dos fenômenos climáticos extremos. Além disso, há diferenças significativas entre faixas etárias. Crianças, bebês e idosos estão entre os grupos mais vulneráveis às altas temperaturas.

A aposentada Sandra Maciel, de 70 anos, relatou ao Opinião CE as dificuldades enfrentadas durante os períodos de calor extremo. Segundo ela, o desconforto afeta não apenas o corpo, mas também a saúde mental, gerando ansiedade, estresse e irritabilidade. “Nesse calor que está hoje, dentro de casa, o ventilador é quente. Tudo é quente. A gente fica em risco de passar mal. O calor está matando a gente, principalmente os idosos e as crianças”, desabafou.

Período chuvoso, alagamentos e alívio térmico

Além do calor extremo, temporais são outro problema enfrentado pelos grandes centros urbanos, incluindo Fortaleza. Em fevereiro de 2024, por exemplo, a capital cearense registrou pelo menos 215 milímetros de chuva entre um intervalo de apenas 24h – foi a segunda maior chuva de Fortaleza em 50 anos. A precipitação gerou uma série de transtorno, com ruas e avenidas alagadas, casas danificadas, queda de energia e semáforos apagados.

Em fevereiro de 2024, Fortaleza registrou a segunda maior chuva em 50 anos. Foto: Divulgação/Defesa Civil

Isso mostra que o desafio é histórico e complexo. Para enfrentá-lo, a cidade instituiu, no final de 2025, o Sistema Urbano Integrado de Gestão de Riscos e Desastres, previsto no Plano Diretor Participativo e Sustentável. O instrumento incorpora, de forma inédita, os eventos climáticos extremos ao planejamento urbano.

O tenente-coronel Haroldo Gondim, da Defesa Civil, explicou ao Opinião CE que a gestão prioriza a mitigação dos impactos das chuvas por meio do Comitê Integrado da Quadra Chuvosa, fortalecendo o Sistema Municipal de Proteção e Defesa Civil com estratégias integradas entre diferentes secretarias. Segundo ele, apenas em 2025 foram realizadas intervenções em 164 canais e 72 lagoas, com mais de 280 ações de desobstrução e desassoreamento, resultando na remoção de cerca de 120 mil toneladas de resíduos.

“Essas ações ampliam a capacidade de drenagem e reduzem significativamente os riscos de alagamentos e inundações”, afirmou.

Para a quadra chuvosa deste ano (fevereiro a maio), a ideia foi acompanhar mais de perto a situação de áreas vulneráveis. Artur Bruno aponta que a gestão mantém ações contínuas, como o funcionamento do Comitê Integrado da Quadra Chuvosa, além de serviços de desobstrução e desassoreamento de canais e lagoas. “Esse período chuvoso faz parte da nossa variabilidade climática e é um importante amenizador do desconforto térmico humano nas cidades”, afirmou.

Da Capital ao Interior

Além dos impactos no meio urbano da Capital, as ações precisam chegar aos municípios do Interior do Estado – que vêm crescendo em população e estatura. De acordo com Antonio Júnior, os efeitos do clima extremo são sempre mais intensos em áreas urbanas, tanto na Capital quanto no Interior.

Fortaleza, por ser mais densa, apresenta maior impermeabilização do solo, consequência da concentração populacional e do adensamento construtivo. No Interior, os impactos costumam estar associados à ocupação de áreas próximas a rios. “No Interior, os eventos extremos são mais sentidos quando há ocupação irregular de áreas suscetíveis, como margens de rios. Isso intensifica os efeitos tanto do calor quanto das chuvas”, explicou.

Enquanto na Capital predominam alagamentos relacionados à deficiência de drenagem urbana, no Interior são mais comuns as inundações causadas pelo transbordamento dos rios. Em ambos os casos, o uso e a ocupação do solo são fatores determinantes para a intensidade dos impactos sobre a população. O especialista conclui ressaltando que, mesmo nas cidades do Interior, as áreas urbanas mais densas tendem a sofrer mais com o calor e as chuvas intensas. “Onde há mais pessoas concentradas, os efeitos climáticos extremos são sentidos de forma mais acentuada”, finaliza.