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Em Altaneira, crianças se tornam pequenos escritores e criam mais de 200 livros

“Era uma vez um garoto diferente. Você sabe por quê? Vou lhe contar! Seu nome é Bernardo e ele, logo cedo, foi diagnosticado com transtorno do espectro autista. Ao longo do tempo, ele enfrentou, junto à sua família, vários desafios, como a comunicação oral, deslocamentos para terapias em outras cidades, enfim…”

Esse trecho que você acabou de ler foi escrito pelo próprio Bernardo Oliveira, de apenas 8 anos, que deu vida ao seu primeiro livro “Bernardo e suas aventuras mágicas no Sítio Encantado”.

A publicação narra um pouco de sua história, em especial os obstáculos que uma criança autista pode enfrentar, como o período de comunicação não verbal e a dificuldade de socialização. Por outro lado, emociona ao mostrar como o contato com a natureza, a partir do “sítio do Bernardo”, foi importante para superar tudo isso.

Seu livro é uma das 228 publicações, desenvolvidas pelos estudantes da Escola Municipal de Ensino Fundamental em Tempo Integral Joaquim Soares da Silva, do município de Altaneira, cidade de pouco mais de 6 mil habitantes, que fica na região do Cariri.

Noite de autógrafos reuniu familiares e a comunidade escolar.

Esse trabalho foi possível a partir da plataforma Estante Mágica, um projeto educacional e social que transforma alunos em autores de seus próprios livros, usando tecnologia para incentivar a leitura e escrita de forma lúdica e criativa.

Mas para que isso aconteça é necessário o empenho do corpo docente para auxiliar e estimular os jovens escritores, seja na criatividade, no processo de escrita ou na produção de desenhos que ilustram os livros.

A ideia de trabalhar com a plataforma, inclusive, nasceu dos próprios professores. De imediato, o núcleo gestor acolheu a proposta, ainda no primeiro semestre de 2025. Os docentes levaram para a sala de aula e apresentaram os alunos, que se entusiasmaram e escolheram as temáticas a serem desenvolvidas.

“O aluno escrevia o texto e, logo após, ia retratar por meio de desenho”, detalha Marcelo Oliveira, diretor da Escola Joaquim Soares da Silva. Os professores, ao lado dos alunos, auxiliavam para estruturar a ideia e a escrita, afinal, o projeto envolveu crianças do 3º ao 5º ano do Ensino Fundamental.

A pequena Yslaine Ribeiro, do 5º ano, deu vida à personagem Hanna e trouxe em seu livro, por exemplo, o enfrentamento ao bullying na escola. O detalhe é que a pequena escritora chama a atenção para notificação da família e da escola como forma de enfrentamento a esse tipo de violência. Já Layz Karolinne, de 9 anos, criou sua própria aventura dentro do Sítio do Picapau Amarelo, um clássico de Monteiro Lobato.

“Os textos, todos eles, foram construídos aos poucos. O professor, com todo aquele olhar sensível, auxiliava e fazia correção gramatical. A plataforma também revisa. Depois disso, são escaneadas as imagens de cada criança. Então, é um trabalho bem complexo, bem árduo mesmo e só foi desenvolvido graças às habilidades dos nossos professores”, completa Marcelo.

“Tivemos alunos atípicos que eram desafiados, que não escreviam, mas verbalizavam, ilustravam”, completa o secretário de Educação de Altaneira, o professor Adeilton Silva. Sua pasta apoiou o trabalho desenvolvido pelos alunos, que culminaria num grande evento de lançamento com direito à noite de autógrafos, ocorrido no último dia 11 de dezembro, e que contou até com a presença da prefeita do Município, Késia Alcântara.

A plataforma oferece o livro gratuitamente em PDF, mas a família pode optar pela versão impressa, mediante o pagamento de uma taxa. A maioria dos pais adquiriu. Aqueles que não tinham condições de bancar foram contemplados com uma campanha de apadrinhamento, que conseguiu o recurso a partir de doações de parceiros. No final, todos os estudantes estavam com seus trabalhos em mãos.

“Sem dúvida, foi um momento que ficou para a história do município de Altaneira, como um dos pontos mais significativos relativos à educação desse município. E, se Deus quiser, vamos novamente dar continuidade a esse trabalho tão magnífico”, garantiu Marcelo.

Apesar de reconhecer um trabalho árduo por parte dos professores e de toda a escola, pois não é fácil orientar mais de 200 alunos a construir os seus livros, o diretor sente que foi gratificante. “Você percebe o protagonismo infantil, o protagonismo de nossas crianças, as crianças sendo autoras de suas próprias histórias, colocando sua imaginação”, enxerga o gestor da escola.

Adeilton reconhece o sucesso do trabalho desenvolvido e garantiu que o Município vai apoiar, em 2026, as confecções dos livros. “Isso contribuiu muito para o protagonismo das crianças e dos professores. Foram crianças de 8 a 10 anos, idades propícias para descobrir talentos. E descobrimos alunos com muito potencial para a literatura”, comemora o secretário.