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Diferente de outros biomas brasileiros, a caatinga registrou aumento de desmatamento

Os dados consolidados do sistema de Monitoramento Anual da Supressão de Vegetação Nativa (Prodes) do ano de 2024, desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), mostram que caatinga é um dos únicos biomas que apresentaram crescimento no desmatamento. O pantanal é outro que que sofre com o avanço da supressão da vegetação nativa.

A caatinga teve um aumento de 9,93% de supressão vegetal nativa em relação a 2023. As análises são feitas a partir de imagens de satélites das áreas com supressão, identificadas automaticamente e classificadas a partir dos índices de vegetação. Depois passam por interpretação visual. A situação mais crítica é do pantanal, que apresentou um crescimento 16,5%.

De acordo com o Inpe, somente é considerada supressão a remoção da cobertura da vegetação nativa, independentemente das características da vegetação e da futura utilização da área.

O analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Marcos Vinícius Furtado, enxerga com preocupação os dados apresentados pelo Inpe.

“Além de baixos investimentos para conservação da caatinga em relação a outros biomas, o avanço do agronegócio, a especulação imobiliária e o avanço desordenado do uso e ocupação do solo são fatores que interferem na devastação e desmatamento do bioma”, acredita.

Marcos faz ainda um alerta de que áreas semiáridas da caatinga estão transitando para regiões áridas, se transformando em desertos. “O avanço da monocultura da soja tem contribuído bastante para que os índices de desmatamento permaneçam altos”, completa.

O biólogo e professor Márcio Holanda compartilha da mesma preocupação. “O desmatamento na caatinga acontece pelo acúmulo de várias pressões ao longo do tempo. Ele está ligado à expansão da agropecuária, ao uso intensivo da lenha e do carvão como fonte de energia, às queimadas e à abertura de áreas para grandes plantações e obras”, analisa.

O Ceará é o único estado do Brasil em que a caatinga é predominante em todos os municípios. No total, o bioma está presente em uma área de 862.652 quilômetros quadrados (km²), cobrindo 10% do território nacional.

Além de ser exclusivamente brasileiro, a caatinga tem 4.974 espécies registradas de fauna e flora, sendo muitas delas encontradas apenas neste bioma. “A caatinga é um bioma muito subestimado e de suma importância na manutenção climática. Pesquisas indicam que ela tem uma alta eficiência no sequestro de carbono da atmosfera superando muitos biomas de florestas tropicais”, lembra Marcos.

“A caatinga é um bioma rico, diverso e fundamental para a vida no semiárido”, diz o biólogo Márcio Holanda. (Foto: Antonio Rodrigues)

O analista ambiental acredita que o bioma ainda é muito “estigmatizado” devido a sua característica de baixa pluviosidade e seca. “Muitos ainda acreditam que não há biodiversidade na caatinga, o que é uma falácia comprovada cientificamente”, protestou.

“Tudo isso é agravado por um preconceito antigo contra a caatinga, vista muitas vezes como uma vegetação ‘seca’ e sem valor, o que faz com que ela seja menos protegida, mesmo sendo um bioma rico, diverso e fundamental para a vida no semiárido”, completou o biólogo Márcio Holanda.

Para Marcos, a melhor forma de barrar o avanço da supressão é investir na manutenção e conservação das áreas nativas de caatinga ainda existentes, mas também na recuperação de regiões degradadas e no desenvolvimento de políticas públicas para agricultura sustentável.

Outros biomas tiveram queda

O crescimento do desmatamento na caatinga e no pantanal é diferente da tendência de outros biomas brasileiros, que apresentaram redução no período analisado. A Mata Atlântica lidera a redução com 37,89%, seguido por Amazônia (28,09%), Cerrado (25,76%), Pampa (20,08%) e Área não florestal na Amazônia: (5,27%).

Na avaliação da vice-coordenadora do Programa do Inpe BiomasBR, Silvana Amaral, a queda no desmatamento na maioria dos biomas brasileiros entre 2023 e 2024 corrobora a efetividade e a importância de políticas públicas de comando e controle, bem como de mecanismos regulatórios como acordos e termos de conduta firmados entre sociedade civil e setores de comércio e exportação de produtos agropecuários.