A história do Açude Orós começa muito antes de sua inauguração oficial, em 11 de janeiro de 1961 – completando 65 anos neste domingo –, e está diretamente ligada às tentativas do poder público de enfrentar os efeitos das secas no Vale do Jaguaribe. Entre 1916 e 1920, o reservatório apareceu nos relatórios oficiais da então Inspetoria de Obras Contra as Secas (IOCS) apenas como indicação técnica. Sua existência foi registrada na seção de estudos, em 1917, e na de construção de novos açudes, em 1920.
Em 1918, o engenheiro Patrick O’Meara publicou, na Revista do Instituto do Ceará, um estudo sobre a irrigação no Vale do Jaguaribe, no qual descreveu a irregularidade hídrica da região.
“O Jaguaribe seca inteiramente durante oito ou nove meses, todos os anos, e as chuvas são incertas demais para que a agricultura seja tentada sem algum auxílio artificial. Se houvesse um regular suprimento de água ao longo deste vale, podia-se convertê-lo rapidamente em um centro de produção”, relatou.
Nesse contexto, o Orós surgiu justamente como esse “auxílio artificial”: uma intervenção técnica necessária para viabilizar a irrigação em uma região onde o rio seca durante mais da metade do ano. A decisão pela construção do açude foi tomada em meio a uma forte seca no Ceará, entre 1951 e 1953, quando o governo optou por erguer o reservatório como solução para a regularização do rio Jaguaribe e o abastecimento humano.
Além da função hídrica, o açude passou a desempenhar papel relevante na economia regional, ao viabilizar cerca de 900 hectares irrigados, sustentar a piscicultura, assegurar água para a manutenção do rebanho leiteiro e apoiar diversas atividades produtivas do vale.
Primeira sangria antes mesmo da inauguração
Antes mesmo de ser inaugurado, o Açude Orós enfrentou um dos episódios mais dramáticos de sua história. Aos 17 minutos do dia 26 de março de 1960, as águas decorrentes de chuvas torrenciais extravasaram a parede do açude ainda em construção. O volume de água lavou o maciço da barragem e, sem resistência suficiente ao impacto, provocou a destruição parcial da estrutura.
As águas subsequentes causaram uma violenta enxurrada, que levou grande parte da parede e consumou uma tragédia que só não foi maior devido ao trabalho dos técnicos e operários, além do alerta emitido pelas emissoras de rádio que acompanhavam a situação e avisaram sobre a iminência do desastre.
Dados do período indicam que cerca de 170 mil pessoas foram diretamente afetadas. O evento destruiu plantações, casas, fábricas, estradas e pontes em diversas localidades do Vale do Jaguaribe.
Três dias após a tragédia, o então presidente Juscelino Kubitschek esteve no Ceará para visitar as vítimas das inundações. Ao retornar a Brasília, autorizou a reconstrução imediata da barragem e o pagamento de indenizações pelos prejuízos causados. Em 11 de janeiro de 1961, o Açude Orós foi oficialmente inaugurado, com a presença de Juscelino Kubitschek, marcando o início de uma nova fase na história hídrica do Ceará. As informações são do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs).
