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Ofensiva dos EUA na Venezuela expõe disputa por poder e petróleo

Após meses de especulações e de operações marítimas nas proximidades da costa venezuelana, os Estados Unidos realizaram neste sábado (3) ataques a diversos pontos de Caracas e capturaram o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua esposa. A ação marca o ápice de uma escalada política, econômica e militar que vinha sendo construída por Washington sob o discurso de combate ao narcotráfico e de enfrentamento a supostas rotas de drogas associadas a grupos criminosos ligados ao país sul-americano.

O governo norte-americano também descreve Maduro como líder de um regime corrupto e sustenta que as ações pretendem garantir a segurança regional. Nos últimos meses, autoridades dos EUA ampliaram sanções, aplicaram medidas diretamente a familiares do presidente venezuelano e impuseram um bloqueio total a navios petroleiros ligados à Venezuela, além de promover a apreensão de embarcações. As medidas aprofundaram a pressão política e econômica sobre Caracas.

Em resposta, Maduro vinha classificando as ações como uma tentativa de golpe e uma ameaça direta à soberania nacional. O presidente acusava Washington de “roubo descarado” e “pirataria naval criminosa”, afirmando que o combate às drogas era utilizado como pretexto para forçar sua saída do poder.

Por trás da ofensiva, no entanto, está um fator estratégico central: o petróleo. A Venezuela concentra a maior reserva comprovada de petróleo do planeta, com cerca de 303 bilhões de barris – aproximadamente 17% do volume mundial conhecido. O número supera, com ampla margem, países como Arábia Saudita e Irã. Grande parte desse petróleo é extra-pesado, o que exige tecnologia avançada e investimentos elevados, tornando seu potencial amplamente subaproveitado em razão da infraestrutura precária e das sanções internacionais.

Nesse contexto, o interesse dos Estados Unidos se torna evidente. Dados do próprio governo norte-americano indicam que o petróleo pesado venezuelano é especialmente adequado às refinarias dos EUA, em particular às localizadas ao longo da Costa do Golfo. A importância da commodity para a estratégia americana também foi destacada pela imprensa dos Estados Unidos, que aponta o petróleo como prioridade nas investidas contra o governo de Maduro e revela a existência de negociações secretas entre Washington e Caracas com foco no setor energético.

“Forte envolvimento” na indústria petrolífera venezuelana

O próprio Trump revelou isso após operação na Venezuela. O presidente dos Estados Unidos disse, no sábado, em entrevista à Fox News, que o país estará “muito fortemente envolvido” na indústria petrolífera da Venezuela. Segundo Trump, o objetivo do governo americano é inserir grandes empresas de petróleo dos EUA no setor energético venezuelano. O presidente destacou que o país concentra algumas das maiores companhias do ramo no mundo e que elas terão participação direta nas atividades relacionadas ao petróleo na Venezuela.

A manifestação ocorre em meio a um cenário de incertezas sobre o futuro da PDVSA, estatal petrolífera venezuelana. Antes da incursão militar, os Estados Unidos já haviam imposto, em dezembro, um bloqueio ao petróleo do país, medida que reduziu as exportações venezuelanas pela metade em relação ao mês anterior. O sistema administrativo da PDVSA também enfrenta dificuldades adicionais para se restabelecer após um ataque cibernético ocorrido no fim do ano passado, o que agrava o quadro de instabilidade da estatal em meio ao novo contexto político e militar.

Ao pressionar a produção e as exportações de petróleo da Venezuela, os EUA atingem um dos pilares centrais da economia do país e da sustentação política do governo Maduro, ao mesmo tempo em que buscam favorecer interesses econômicos internos.

Relação com a China

Outro elemento sensível é a relação da Venezuela com a China. Antes das sanções impostas em 2019, os Estados Unidos eram os maiores importadores do petróleo venezuelano. Com o bloqueio, as exportações passaram a ocorrer, em grande parte, por meio de acordos de petróleo em troca de empréstimos, utilizados para o pagamento de dívidas externas. Nesse cenário, a China ampliou de forma significativa sua participação e passou a ocupar posição estratégica no setor energético venezuelano.

Neste domingo, o Ministério das Relações Exteriores da China cobrou a libertação imediata do presidente da Venezuela e de sua esposa. Para o governo chinês, um dos principais parceiros políticos e econômicos da Venezuela, a operação conduzida pelos Estados Unidos configura violação clara do Direito Internacional, das normas básicas das relações entre países e dos princípios estabelecidos pela Carta da Organização das Nações Unidas (ONU).

Abertura de mercados

A ofensiva norte-americana também está inserida em uma estratégia mais ampla de abertura de mercados para empresas dos EUA na América do Sul. Em seu segundo mandato, Donald Trump tem reforçado políticas voltadas à ampliação das exportações norte-americanas e ao acesso de companhias do país a mercados internacionais, incluindo setores como energia e tecnologia.

A captura de Maduro e o ataque direto à Venezuela, portanto, vão além do discurso de segurança e combate ao narcotráfico. O episódio expõe uma disputa geopolítica em torno de recursos estratégicos, influência regional e reposicionamento econômico em um país-chave da América do Sul.