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Pequeno Coral do Crato tem trajetória resgatada em livro que homenageia maestrina Divani Cabral

O lançamento do livro que resgata a trajetória do Pequeno Coral do Crato e da Sociedade de Cultura Artística do Crato (SCAC) acontece nesta sexta-feira (26) e vai além de um evento editorial. Trata-se de um reencontro de gerações, de um resgate da memória cultural do Cariri e de uma homenagem em vida à maestrina Divani Cabral, personagem central da formação artística de centenas de crianças, jovens e adultos ao longo de décadas.

O projeto foi idealizado e coordenado por Diana Feitosa, ex-aluna da Sociedade de Cultura Artística do Crato e do Pequeno Coral. A ideia nasceu a partir de uma experiência anterior de resgate da memória cultural, mas ganhou um sentido ainda mais profundo ao voltar-se para a história do coral e da SCAC.

“Desde o ano passado, quando fiz um livro com o pessoal da Academia de Dança, Coordenação e Ritmo, lembrei muito da Sociedade de Cultura Artística do Crato e do Pequeno Coral. Era impossível não fazer essa associação, porque ali também era um espaço de formação, de encontros e de fortalecimento humano por meio da arte”, relata Diana.

Fundado em 1967, o Pequeno Coral do Crato tornou-se uma das mais importantes referências culturais do Interior do Ceará. Sob a regência de Divani Cabral, o projeto ultrapassou o ensino musical e passou a funcionar como um espaço de convivência diária, aprendizado coletivo e construção de identidade cultural.

“A Sociedade de Cultura Artística do Crato era uma extensão da nossa casa. A gente chegava no fim da tarde para os ensaios do coral. Em outros dias tinha aula de piano, flauta, teatro, pintura. Eu estava lá todos os dias. Era um espaço acolhedor, caloroso, com pessoas maravilhosas, que nos ensinavam não só arte, mas segurança, convivência, autoconhecimento e a enfrentar o palco e o público”, recorda Diana.

O prédio da SCAC tornou-se um símbolo de acolhimento para várias gerações. Crianças e adolescentes passavam horas no local e muitos pais acabavam se envolvendo nos projetos, formando uma rede de participação comunitária pouco comum. Esse elo fez com que toda a cidade não só admirasse, como participasse direta ou indiretamente daquele lugar de arte e construção de memórias.

O Pequeno Coral do Crato foi fundado em 1967 e se tornou uma referência cultural no Interior do Ceará. Foto: Divulgação

O livro

Inicialmente pensado como um projeto restrito a um grupo de amigos contemporâneos, o livro ganhou grandes proporções. Ex-alunos começaram a convidar outros colegas, de diferentes gerações, até que o grupo ultrapassou a marca de 100 participantes. Diante disso, foi necessário estabelecer critérios editoriais.

“Chegou um momento em que tivemos que limitar, porque não dava para todo mundo escrever. Precisamos definir critérios, número de laudas e quantidade de fotos. Ao final, conseguimos reunir 63 colaboradores”, explica Diana.

A obra reúne relatos de ex-alunos do Pequeno Coral e da Sociedade de Cultura Artística do Crato, além de textos históricos e institucionais. O historiador Armando Rafael assina o resgate histórico da SCAC, e Fabiana Vieira, secretária de Cultura do Crato, faz a apresentação do livro. Também há registros e textos do acervo pessoal da própria Divani Cabral e de integrantes da família Cabral, tradicionalmente ligada à vida cultural cratense.

Apresentação de ex-alunos

Além do livro, a homenagem inclui uma apresentação musical especial, construída a partir de ensaios realizados nos últimos meses. Parte dos ex-alunos ensaiou em Fortaleza, em um grupo liderado por Diana Feitosa e pela musicista Aparecida Silvino.

A homenagem inclui uma apresentação musical construída a partir de ensaios realizados nos últimos meses. Foto: Divulgação

A maior parte, no entanto, ensaiou no próprio Crato, sob a coordenação de Leninha Linard, cantora e compositora reconhecida no cenário cultural, que abraçou a missão de liderar os ensaios locais, acompanhada pelos violonistas Álvaro Holanda, José Matos, Pedro Paulo Chagas e Cleudo Soares, além do baterista Wilton.

Para Leninha Linard, reger o coral é atravessar o tempo e reconhecer a permanência do legado deixado por Divani Cabral.

“O movimento, o tempo, as crianças que fomos e os adultos que somos passaram por esse mundo musical, entre ritmos, sons, emoções e encantamentos. Reger o Pequeno Coral não é substituir ou representar Divani, mas perceber que existe em cada um de nós um pouco dela. Que sigamos regendo, cantando e tocando cada coração com a nossa música”, afirma.

Encontro de emoções

Durante todo o processo, os encontros foram marcados por emoção e reencontros de pessoas queridas, que reviveram juntas uma geração ou até várias gerações do Pequeno Coral.

Para Candice Cardoso, ex-aluna, participar da homenagem é revisitar uma infância marcante. “Na época, eu não tinha consciência da potência do que vivíamos. Era um espaço que não era nem casa, nem escola, mas que acabou sendo uma grande escola de sensibilidade, convivência e coragem. Cantar no palco exigiu confiança. Se eu estava ali, alguém tinha visto em mim algo que eu ainda não conseguia enxergar. Isso me formou.”

Allan Bastos, fotógrafo e coordenador do Centro Cultural do Cariri, destaca que o coral foi determinante na formação cultural e humana das crianças e adolescentes que passaram pelo projeto ao longo dos anos. “Quem passou pelo Pequeno Coral teve acesso a um repertório musical único, a compositores e músicas que só existiam ali. Também foi um primeiro contato com outras línguas e, sobretudo, com uma disciplina conduzida com carinho e respeito. Divani Cabral era maestra da música, mas também do comportamento. Isso, definitivamente, marcou gerações”, afirma.

A força do projeto ultrapassa o tempo e a distância física, mobilizando ex-alunos que hoje vivem fora do País. Morando no Canadá, Eugênia Engel acompanha tudo. “Fiz parte do Pequeno Coral no início da década de 1980, e aquele espaço era como uma extensão da nossa própria casa. Ali nos socializávamos, brincávamos e cantávamos juntos. O que aprendemos levamos para o resto da vida, mesmo sem seguir carreira musical. Reviver isso hoje, especialmente com a escola fechada, é trazer de volta algo que precisa ser plantado novamente, sobretudo em tempos tão dominados pelos eletrônicos”, destaca.

A obra reúne relatos de ex-alunos do Pequeno Coral e da Sociedade de Cultura Artística do Crato. Foto: Divulgação

Repertório

O repertório da apresentação reúne canções emblemáticas da história do Pequeno Coral do Crato, unânimes entre diferentes gerações de ex-alunos. Estão no programa músicas como O Trenzinho, O Circo e Boca de Forno, além de canções em outras línguas, como Ben, Edelweiss e O Mio Papà, que remetem à memória de um coral poliglota. Nos ensaios, chama atenção a força da memória dos ex-alunos, que entregam letras, melodias e a forma de cantar com impressionante naturalidade, como se o tempo não tivesse passado.

O lançamento ganha ainda mais significado pelo estado de saúde de Divani Cabral. Mesmo com a memória comprometida, esse momento deve aflorar lembranças afetivas e despertar felicidade. Dar esse retorno em vida é uma forma de gratidão, de reconhecimento e de dizer obrigada por uma missão cumprida.

O lançamento do livro e a apresentação acontecem nesta sexta-feira (26), no auditório da Universidade Regional do Cariri (Urca), no Crato, reunindo ex-alunos, familiares, artistas e representantes da cultura regional. Mais do que um evento literário e musical, será um encontro marcado pela emoção, pela memória e pela celebração de um legado que ajudou a construir a identidade cultural do Cariri e do Ceará.