Com estreia mundial no último dia 18 de dezembro, “Avatar: Fogo & Cinzas” (Avatar: Fire and Ash, 2025), a superprodução de James Cameron segue impressionando com seu visual assombrosamente realista, e uma história que mescla ação e emoção. Um verdadeiro espetáculo visual, o que prova que Cameron segue imbatível em ornar experiências cinematográficas. Sim, o terceiro “Avatar” é mais uma oportunidade imperdível e prazerosa de conferir um grande filme – literalmente – no cinema.
E como bem ressaltou James Cameron, o teor emocional é bem explorado no terceiro filme. Mas, para além do valor sentimental da família Sully, a grande figura motivadora de emoções vem de uma vilanesca Oona Chaplin na pele de Varang. Ela pode ser a chefe da tribo do Povo das Cinzas, mas na tela e na história sua presença é carregada de altíssima combustão, carregando o fogo em si.
Em aspectos de reconhecimento e diferente dos seus antecessores, o primeiro venceu o Globo de Ouro de melhor filme (drama) e o segundo concorreu ao prêmio de filme do ano, “Fogo & Cinzas” recebeu apenas duas indicações ao Globo de Ouro de 2026: Melhor Canção Original (“Dream As One”, de Miley Cyrus) e Melhor Filme – Experiência Cinematográfica e Bilheteria, desde já um reconhecimento ao enorme sucesso projetado de uma franquia que já arrecadou mais de 5,3 bilhões de dólares ao redor do mundo.
No encontro virtual com a imprensa, o cineasta vencedor do Oscar por “Titanic”, e criador do universo cinematográfico de “Avatar”, James Cameron, falou sobre a importância de construir uma história que vem crescendo dramaticamente desde o primeiro filme, e que é importante ver “Avatar” além do visual, além dos seus efeitos e produção, pois acredita no poder emocional da sua história.
O cineasta falou também sobre a pressão do sucesso comercial e sobre o que faz o público sair de casa para ao cinema, e, mesmo com tanta tecnologia e muita I.A propagada, para Cameron, nada substitui um ser humano por trás da criação.
Entrevista com James Cameron
OPINIÃO CE: Você acredita que o terceiro Avatar é seu filme mais emocionante? O que o desafiou e o inspirou para a história desse capítulo?
James Cameron: Acho que vínhamos preparando o terreno para essa história há algum tempo. No primeiro filme, estabelecemos um mundo e uma história de amor relativamente simples, porque nosso foco estava em tudo ao nosso redor e nas novas criaturas. E era algo chocantemente novo. Ninguém tinha visto nada parecido antes. Eu nunca tinha feito nada assim.

No segundo filme, levamos você a diferentes partes desse mundo e começamos a tornar a trama mais complexa e a apresentar novos personagens, incluindo os Tulkun, o povo dos Recifes.
Então chegamos à “Fogo & Cinzas”, e elevamos a complexidade emocional ao introduzir o Povo das Cinzas. Mas também porque tivemos esse evento trágico no segundo filme, a morte do filho mais velho. Achei muito importante ancorar o filme emocionalmente, porque ele é visualmente fantástico. Quero dizer, fantástico no sentido de fantasia.
OPINIÃO CE: Muitas falam que a franquia Avatar é ancorado no visual, na superprodução…
James Cameron: Mas é importante ressaltar que ancoramos o filme em respostas humanas autênticas a coisas como trauma, perda, luto e assim por diante.
Porque acho que o cinema comercial tende a ignorar essas coisas (o sentimento). Normalmente, quando alguém morre em um filme, a esposa morre, o marido sai matando todo mundo. Daí todos nós celebramos essa violência pelas próximas duas horas. Não acho que o cinema comercial lide com isso de forma honesta e autêntica. E eu tive muitas perdas na minha vida pessoal nos últimos 10 anos. E o luto não acaba assim, de repente. Sabe, e não é um gatilho para simplesmente ir embora.
OPINIÃO CE: Você já mencionou que os filmes de Avatar custam muito dinheiro. Supostamente, os quatro filmes que vocês vão fazer provavelmente ultrapassarão US$ 1 bilhão em custos de produção. Sob os aspectos financeiros, o terceiro filme é, certamente uma produção muito cara. Você pode falar um pouco sobre isso?
James Cameron: Não vou citar os números, mas posso dizer que investimos muito para ganhar muito, e tudo se resume à margem de lucro, certo? E é por isso que tenho dito a todos que seguiremos em frente com o projeto se acreditarmos que o mercado ainda é o mesmo de quando Avatar foi lançado em 2009.
O mundo mudou, e nem estou falando da mudança nos gostos do público em si. Estou falando do mercado, de como ele funciona e de todos esses outros sistemas de distribuição de mídia.
OPINIÃO CE: Porque existe uma impressão, em particular, de que as pessoas não estão indo ao cinema como antes…
James Cameron: Então, se as pessoas vão ao cinema hoje em dia, elas querem ver algo especial. Elas não querem apenas um filme. Elas querem uma experiência, certo? Porque você vai com seus amigos, sua família, seus filhos ou quem quer que seja, e você decide: “Esse é o filme que eu quero ver. Quero ver “Fórmula 1”, “Zootopia 2”, “Wicked”… Esses são filmes suntuosos, certo? São ricos. São banquetes para os olhos. Alguns funcionam melhor do que outros, obviamente, mas esses são os filmes que as pessoas estão escolhendo. Então, Avatar se encaixa perfeitamente nessa categoria.
Todos que trabalham na minha equipe buscam a excelência. Não nos contentamos com o segundo lugar. Não é para isso que eles estão lá. Os atores se dedicam de corpo e alma a este filme, e todos que trabalham com eles também se dedicam de corpo e alma para honrar as performances que eles fizeram e honrar a visão do filme. Então, quando você fala sobre coisas como a relevância emocional do filme e como ele aborda todos esses problemas humanos complexos através dessa lente alegórica, estamos cientes disso.
Sabemos o que estamos tentando fazer aqui. Estamos tentando alcançar pessoas ao redor do mundo com algo positivo, algo que dê esperança, sabe, algo que diga: você tem valor. Mesmo que as pessoas ainda não te vejam, elas podem, sabe, e exaltar certas virtudes, como o senso de dever, o senso de dever para com a família. Sabe, muita gente não gosta da família em que nasceu, mas essa família (de Avatar) é o seu santuário. É o seu porto seguro, para a maioria das pessoas.
OPINIÃO CE: Em que aspectos os próximos capítulos de Avatar podem se beneficiar da IA? Ou você também tem preocupações do tipo “o gênio saiu da lâmpada”?
James Cameron: Sem dúvida uma grande questão. Então, todo mundo está falando sobre IA, obviamente. E só para esclarecer meu ponto de vista sobre isso, existem dois tipos de IA. Existe uma IA pequena e existe uma IA grande. A IA grande é uma superinteligência artificial que as pessoas dizem que está chegando, talvez em alguns anos, talvez em 10 anos. Não sabemos exatamente quando. Acho que esse é um grande problema para a civilização humana. Pessoalmente, acredito que isso poderia trazer enormes benefícios, mas também acarreta enormes riscos.
“Ah, você estava nos alertando sobre IA com o Exterminador do Futuro.” Sim, a grande IA, Skynet, certo? Ok, assunto à parte. Agora, falando sobre a indústria do entretenimento, que é uma indústria artística, eu trabalho com artistas. Eu sou um artista. Eu me considero um artista.
Agora temos IA generativa, certo?, que pode usar modelos de texto para vídeo e outros, treinados com todas as imagens que os seres humanos já consideraram relevantes, que foram colocadas em algum tipo de banco de dados e usadas para treinar esses modelos. E eles conseguem criar vídeos com aparência bastante realista. Não me interessa. Não acho que seja uma forma de fazer filmes. E tenho um motivo muito específico, e adoraria que alguém me convencesse do contrário e me mostrasse as vantagens. Mas se você pegar tudo o que já foi feito, misturar tudo e obter um resultado que sintetiza uma nova imagem, uma imagem inédita, certo? Assim você só atingira a média.
OPINIÃO CE: Emoções reais, pessoas reais…
JAMES CAMERON: O que quero dizer é que não se trata da visão peculiar e única de um artista individual e sua experiência de vida singular. Quero ler um roteiro de alguém que tenha vivenciado experiências pessoais. Não apenas algo mediano, certo? Não vejo como isso não leva à mediocridade. Funciona? Sim. Funciona. Isso é assustador. Então, não é assim que quero gerar imagens. E certamente não quero substituir atores. Aliás, esse é outro motivo pelo qual estou me manifestando. Nosso processo, nos filmes de Avatar, sempre foi centrado no ator.
Nós celebramos o ator e consideramos esse o momento sagrado da criação. A IA generativa é exatamente o oposto. Podemos ter uma geração mais jovem de cineastas surgindo que dirá: “Eu não preciso de atores. Posso levar minha ideia brilhante para a tela sem nem mesmo lidar com atores. Posso criar personagens, certo?” Bem, nós, roteiristas, meio que fazemos isso, não é? Nós meio que incorporamos todos os nossos personagens enquanto criamos a história. Mas chega um ponto em que você passa o bastão, você escala o elenco e passa o bastão daquele personagem para um ator, e então ele interpreta a versão única daquele personagem. A IA generativa não faz isso, certo?
