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Especialista defende difusão dos primeiros socorros e alerta para falhas na educação preventiva no Brasil

Julyana Freitas destaca a importância de disseminar o conhecimento sobre primeiros socorros. Foto: Opinião CE

A falta de uma cultura consolidada de ensino em primeiros socorros para a população leiga ainda é um dos principais desafios para a prevenção de mortes evitáveis no Brasil. A avaliação é da emergencista de Enfermagem Julyana Freitas, em entrevista ao programa Entre Assuntos, do jornal Opinião CE, com a jornalista Elba Aquino. Freitas destaca que ações simples, quando feitas corretamente e no tempo certo, podem salvar vidas e reduzir sequelas até a chegada do atendimento especializado.

O tema se torna ainda mais relevante em período de férias escolares, quando as crianças, maior parte das vítimas, juntamente com idosos, estão mais tempo em casa.

Segundo a profissional, os protocolos de atendimento de emergência já reconhecem que o primeiro socorro, na maioria das vezes, acontece longe dos hospitais e das equipes de saúde. “Quando acontece, acontece do lado do leigo, não é da enfermeira, não é do médico. Esse atendimento inicial faz toda a diferença”, afirma Julyana, ao defender a necessidade de compartilhar conhecimentos básicos com a população em geral.

Ela cita casos recorrentes em que policiais, babás, pais ou vizinhos conseguem salvar vidas ao aplicar corretamente manobras aprendidas em campanhas educativas ou vídeos informativos. “Quando você vê uma criança sendo desengasgada por um policial ou por um pai, isso é reflexo direto de educação. A única forma de prevenção é ensinar, é compartilhar esses saberes com o leigo”, reforça.

Julyana relata um atendimento recente que a marcou profissionalmente. Um homem chegou a uma unidade de saúde com obstrução parcial das vias aéreas após engasgar, mas evitou evoluir para uma parada respiratória porque o vizinho realizou corretamente a manobra de desengasgo. “Ele disse que lembrou de um vídeo educativo do Samu. Na hora, conseguiu fazer. Isso mostra como a informação salva vidas”, destaca.

Manobras simples podem ajudar a salvar vidas. Foto: Opinião CE

Lei Lucas e a lacuna na fiscalização

Durante a entrevista, a emergencista também chamou atenção para a importância da Lei Lucas, sancionada após a morte do menino Lucas, que se engasgou durante um passeio escolar sem que ninguém soubesse prestar os primeiros socorros. A legislação determina a capacitação de professores e funcionários de escolas públicas e privadas em noções básicas de primeiros socorros.

“A Lei Lucas nasceu da dor de uma mãe que não quis que outras mães passassem pelo que ela passou. Hoje, a lei existe em todo o Brasil, mas ainda não há fiscalização efetiva”, avalia Julyana. Segundo ela, embora a legislação determine a capacitação, não define com clareza a carga horária nem estabelece mecanismos de controle, o que acaba tornando a aplicação irregular.

Para a profissional, a cobrança das famílias é um fator decisivo para que as escolas cumpram a norma. “Quando o pai pergunta se a escola tem esse treinamento, se os profissionais estão capacitados, isso pressiona. Informação também é um instrumento de fiscalização”, pontua.

Julyana Freitas defende que a educação em primeiros socorros seja encarada como política pública contínua, e não apenas como resposta a tragédias. Para ela, ampliar o acesso à informação e estimular a formação básica da população é um passo fundamental para construir uma sociedade mais preparada para agir diante de emergências, reduzindo mortes evitáveis e protegendo vidas antes mesmo da chegada do socorro especializado.