Criada no Ceará, uma tecnologia inédita no mundo promete enfrentar um dos maiores desafios da educação inclusiva: a exclusão das pessoas cegas do processo pleno de alfabetização e formação. Desenvolvido pelo professor do A
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Anaxágoras Maia Girão, o Notebraille funciona como uma plataforma de educação voltada a pessoas cegas, aliando o sistema braille a recursos tecnológicos digitais.
O projeto, apoiado com recursos federais, consiste em um caderno de notas digital que possibilita às pessoas cegas escrever em braille e fazer o upload dos textos para um computador ou smartphone. O dispositivo embarcado foi projetado para ser utilizado nos processos de alfabetização, ensino regular e atividades laborais por pessoas cegas.
A pesquisa recebeu investimentos totais de R$ 798 mil, incluindo recursos não reembolsáveis da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), e se integra a outros dispositivos desenvolvidos no Ceará, indo além da lógica tradicional da tecnologia assistiva.
“Não existe nenhuma tecnologia parecida com a plataforma que a gente fez. Tem muita gente que faz um produto de tecnologia assistiva, e isso já é revolucionário. Mas quando você junta equipamentos, faz uma sílaba, junta 10 e faz uma palavra, isso é o que faz a educação de uma pessoa cega funcionar”, explica Anaxágoras em entrevista ao videocast Opinião Tech, do Opinião CE.
Esta temporada do Opinião Tech tem o apoio institucional da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). Ao longo de 8 episódios, o videocast aborda temas como mercado de trabalho e IA; cases de sucesso no Estado; e financiamento para inovação no Nordeste.

Braille, exclusão e desbrailização
Durante a entrevista ao Opinião Tech, Anaxágoras faz uma crítica direta ao modelo atual de uso do braille no Brasil. Segundo ele, da forma como o sistema é aplicado hoje, acaba produzindo isolamento, o que contribui para um fenômeno conhecido como desbrailização – o abandono gradual do braille pelas pessoas cegas.
“Da forma como o braille funciona hoje, ele é excludente. Se ninguém pode ler aquilo que eu estou escrevendo, eu só vou escrever para mim mesmo. Aquilo fica em guetos, e isso leva à desbrailização”, afirma.
Segundo o idealizador do Notebraille, o avanço das tecnologias baseadas em áudio, toque e interfaces digitais tornou-se mais atraente para pessoas cegas não por rejeição ao braille, mas por falta de condições práticas de uso no cotidiano. “As pessoas cegas adoram o braille, mas infelizmente não podem usar. As tecnologias de áudio e touch são muito mais acessíveis hoje”, completa.
Políticas públicas e o papel do Estado
Outro ponto central abordado na entrevista é a dependência de políticas públicas para que tecnologias assistivas consigam escalar e chegar às salas de aula. Para Anaxágoras, a lógica de mercado, sozinha, não sustenta soluções voltadas para públicos menores.
“Em grupos pequenos, como são dos cegos, você precisa de políticas públicas e da ajuda do governo, inclusive para a produção de equipamentos. As grandes empresas vão se interessar por produtos que vendem milhões de unidades. Tecnologia assistiva vende pouco, então acaba ficando cara”, explica.

Segundo ele, a ausência de investimentos estruturantes contribui diretamente para a falta de tecnologia nas escolas e reforça o ciclo de exclusão educacional. Anaxágoras aponta que a tecnologia desenvolvida no Ceará é mais acessível financeiramente, com o kit completo disponível na Sala Braille, presente em Fortaleza, custando menos que uma única impressora braille, importada dos EUA, na faixa de R$ 100 mil.
Investimento e apoio institucional
O desenvolvimento do Notebraille contou com apoio da Embrapii. O projeto recebeu R$ 798 mil em investimentos, somando recursos não reembolsáveis da Embrapii e aportes realizados pela Unidade Embrapii e empresas parceiras. A tecnologia cearense surge como uma resposta concreta a um problema estrutural da educação inclusiva no Brasil, conectando braille, tecnologia digital e educação a distância em uma mesma solução.
Ao integrar inovação, política pública e inclusão, o Notebraille coloca o Ceará no centro de um debate global sobre como a tecnologia pode, de fato, ampliar direitos e reduzir desigualdades no acesso à educação.
A Sala Braille, o Notebraille e outros produtos de tecnologia assistiva desenvolvidos no Ceará estão sendo utilizados no Instituto dos Cegos do Antônio Bezerra, em Fortaleza, e serão implantados no primeiro Centro de Acesso e Pesquisa em Tecnologia Assistiva (Capta) do Instituto Benjamin Constant, localizado no Rio de Janeiro.
