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Tecnologia cearense inédita no mundo combate a “desbrailização” e amplia acesso de pessoas cegas

Foto: Vitória Galdencio/Opinião CE

Criada no Ceará, uma tecnologia inédita no mundo promete enfrentar um dos maiores desafios da educação inclusiva: a exclusão das pessoas cegas do processo pleno de alfabetização e formação. Desenvolvido pelo professor do A
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Anaxágoras Maia Girão, o Notebraille funciona como uma plataforma de educação voltada a pessoas cegas, aliando o sistema braille a recursos tecnológicos digitais.

O projeto, apoiado com recursos federais, consiste em um caderno de notas digital que possibilita às pessoas cegas escrever em braille e fazer o upload dos textos para um computador ou smartphone. O dispositivo embarcado foi projetado para ser utilizado nos processos de alfabetização, ensino regular e atividades laborais por pessoas cegas.

A pesquisa recebeu investimentos totais de R$ 798 mil, incluindo recursos não reembolsáveis da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), e se integra a outros dispositivos desenvolvidos no Ceará, indo além da lógica tradicional da tecnologia assistiva.

“Não existe nenhuma tecnologia parecida com a plataforma que a gente fez. Tem muita gente que faz um produto de tecnologia assistiva, e isso já é revolucionário. Mas quando você junta equipamentos, faz uma sílaba, junta 10 e faz uma palavra, isso é o que faz a educação de uma pessoa cega funcionar”, explica Anaxágoras em entrevista ao videocast Opinião Tech, do Opinião CE.

Esta temporada do Opinião Tech tem o apoio institucional da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). Ao longo de 8 episódios, o videocast aborda temas como mercado de trabalho e IA; cases de sucesso no Estado; e financiamento para inovação no Nordeste.

Anágoras Girão aponta a importância de investimento em tecnologias assistivas. Foto: Vitória Galdencio/Opinião CE

Braille, exclusão e desbrailização

Durante a entrevista ao Opinião Tech, Anaxágoras faz uma crítica direta ao modelo atual de uso do braille no Brasil. Segundo ele, da forma como o sistema é aplicado hoje, acaba produzindo isolamento, o que contribui para um fenômeno conhecido como desbrailização – o abandono gradual do braille pelas pessoas cegas.

Da forma como o braille funciona hoje, ele é excludente. Se ninguém pode ler aquilo que eu estou escrevendo, eu só vou escrever para mim mesmo. Aquilo fica em guetos, e isso leva à desbrailização”, afirma.

Segundo o idealizador do Notebraille, o avanço das tecnologias baseadas em áudio, toque e interfaces digitais tornou-se mais atraente para pessoas cegas não por rejeição ao braille, mas por falta de condições práticas de uso no cotidiano. “As pessoas cegas adoram o braille, mas infelizmente não podem usar. As tecnologias de áudio e touch são muito mais acessíveis hoje”, completa.

Políticas públicas e o papel do Estado

Outro ponto central abordado na entrevista é a dependência de políticas públicas para que tecnologias assistivas consigam escalar e chegar às salas de aula. Para Anaxágoras, a lógica de mercado, sozinha, não sustenta soluções voltadas para públicos menores.

“Em grupos pequenos, como são dos cegos, você precisa de políticas públicas e da ajuda do governo, inclusive para a produção de equipamentos. As grandes empresas vão se interessar por produtos que vendem milhões de unidades. Tecnologia assistiva vende pouco, então acaba ficando cara”, explica.

Ele participou de entrevista ao Opinião Tech. Foto: Vitória Galdencio/Opinião CE

Segundo ele, a ausência de investimentos estruturantes contribui diretamente para a falta de tecnologia nas escolas e reforça o ciclo de exclusão educacional. Anaxágoras aponta que a tecnologia desenvolvida no Ceará é mais acessível financeiramente, com o kit completo disponível na Sala Braille, presente em Fortaleza, custando menos que uma única impressora braille, importada dos EUA, na faixa de R$ 100 mil.

Investimento e apoio institucional

O desenvolvimento do Notebraille contou com apoio da Embrapii. O projeto recebeu R$ 798 mil em investimentos, somando recursos não reembolsáveis da Embrapii e aportes realizados pela Unidade Embrapii e empresas parceiras. A tecnologia cearense surge como uma resposta concreta a um problema estrutural da educação inclusiva no Brasil, conectando braille, tecnologia digital e educação a distância em uma mesma solução.

Ao integrar inovação, política pública e inclusão, o Notebraille coloca o Ceará no centro de um debate global sobre como a tecnologia pode, de fato, ampliar direitos e reduzir desigualdades no acesso à educação.

A Sala Braille, o Notebraille e outros produtos de tecnologia assistiva desenvolvidos no Ceará estão sendo utilizados no Instituto dos Cegos do Antônio Bezerra, em Fortaleza, e serão implantados no primeiro Centro de Acesso e Pesquisa em Tecnologia Assistiva (Capta) do Instituto Benjamin Constant, localizado no Rio de Janeiro.