A chegada de mega data centers ao Ceará, como o do TikTok, anunciado na última semana e com investimento estimado em mais de R$ 200 bilhões, reacende uma discussão que, embora pareça técnica, se torna cada vez mais estratégica: o Brasil está preparado para depender apenas de estruturas digitais estrangeiras?
Para o presidente do Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec), Acrísio Sena (PT), a resposta é clara: depender apenas não é mais suficiente. A análise foi feita em entrevista exclusiva ao Opinião CE. Ele revelou, ainda, que o Ceará estuda incluir IA como disciplina obrigatória na rede pública estadual.
Mini data centers, segundo ele, representam armazenamento em nuvem nacional, mais seguro; independência para instituições públicas e de pesquisa; proteção de dados de Estado; menor impacto ambiental; infraestrutura distribuída, próxima das cidades e da academia.
Para ele, o avanço do Ceará como polo de tecnologia e conectividade coloca o Estado diante de um novo desafio, não apenas hospedar infraestrutura global, mas desenvolver a sua.
“Já chegou a hora, pela nossa expertise, pela inteligência que o Brasil tem, principalmente nas universidades, de termos nossos próprios mini data centers. Não precisamos repetir o modelo gigantesco. Podemos construir unidades menores, com nossa nuvem, com a preservação dos nossos dados”, defende.
Sustentabilidade e segurança hídrica: o alerta antes da comemoração
Acrísio reconhece os benefícios da chegada de grandes players, mas aponta que há uma variável que o poder público não pode ignorar: água.
“O Data Center mexe com algo muito caro para todos nós, que é a questão da água. O importante é que consigam trabalhar com reúso de águas cinzas, de banho, de lavagem de roupa, sem comprometer o que já é escasso para o uso humano.”
Segundo ele, o governador Elmano de Freitas (PT) tem sido cauteloso ao avaliar demandas do projeto, especialmente no que diz respeito aos impactos ambientais e hídricos. Para o presidente do Centec, a segurança técnica existe, mas o cuidado tem de ser permanente.
Acrísio não fala em ruptura nem hostilidade à tecnologia estrangeira. Ao contrário, ele defende cooperação e intercâmbio, mas reforça o ponto central. “Não se trata de deixar de fazer parceria com multinacionais. Vamos continuar fazendo. Mas o data center não é nosso. Está na hora de termos também os nossos.”
Mineração estratégica: o componente esquecido na discussão
Outro ponto levantado pelo presidente do Centec diz respeito às terras raras. “Outra condição que nós temos são os minérios preciosos, as terras raras. Isso é a bateria do carro elétrico, é o dispositivo aeroespacial, é chip. É disso que estamos falando.”
O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, insumo crítico para semicondutores, inteligência artificial, telecomunicação, mobilidade elétrica e defesa. Para Acrísio, discutir data center sem discutir cadeia tecnológica completa é perder parte do jogo.
