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Mercado exigente, público em transformação: como a Bellucci consolidou o gelato artesanal em Fortaleza

Foto: Opinião CE

Há 12 anos, quando a Bellucci Gelateria abriu suas portas na capital cearense, o mercado local ainda não falava, ao menos não com naturalidade, sobre “gelato artesanal”, produtos sem glúten, opções veganas ou alimentos livres de alergênicos. Muito menos existia uma compreensão clara sobre o que diferenciava o gelato italiano de um sorvete tradicional.po

Esse foi o primeiro desafio de incrementar esse mercado no Estado, lembra a fundadora da Bellucci, Afra Colodette, em entrevista ao podcast Mesa de Negócios, do Opinião CE.

Por tradição, o gelato artesanal italiano é menos gorduroso, menos açucarado, e não leva corantes, conservantes ou aromatizantes. Sua base parte de ingredientes frescos e de alta procedência, como leite, creme de leite, frutas, pistache, amêndoas e nozes. E foi justamente nesse padrão que a Bellucci decidiu entrar – antes mesmo de o consumidor local saber o que significava rejeitar industrializados.

“O nosso primeiro desafio foi conseguir educar o nosso público sobre a nossa proposta”, conta Afra. “Há 12 anos, ninguém sabia o que era um glúten, um produto vegano ou alergênicos. Muitos clientes chegavam pedindo leite Ninho, KitKat, Oreo. O primeiro desafio foi explicar que a gente não trabalhava com nada industrializado”.

Um dos desafios foi educar o público para o novo tipo de produto. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Pesquisa, formação técnica e decisão estratégica: por que o Nordeste venceu?

A história da Bellucci não nasce apenas de um desejo gastronômico, mas de uma decisão empresarial guiada por estudo e estratégia. Afra e o sócio e seu esposo, André Bellucci, investiram um ano contínuo em formação técnica e análise de mercado. Enquanto ele frequentava a Universidade do Gelato, na Itália, ela fazia o caminho de volta ao Brasil para entender o comportamento do consumidor e o melhor ponto para iniciar o negócio.

O plano inicial incluía a possibilidade de empreender em outros estados, inclusive no Sul do País. No entanto, foi olhando para o mapa econômico do Brasil que o Nordeste ganhou destaque.

“A gente entendeu que o Nordeste, especificamente Fortaleza, tinha muito a ser trabalhado”, explica. “Conseguimos enxergar uma abertura empresarial aqui. Quando encontrei o ponto, falei: ‘Pode vir que vamos dar o start'”, conta Afra, que tem raízes cearenses.

Foi assim que surgiu a Bellucci, em um ponto estratégico na avenida Frederico Borges, no Meireles, onde permanece até hoje.

Do estranhamento à demanda: quando o consumidor muda o mercado

Se o desafio inicial foi educar um público, o movimento dos últimos anos mostra que o consumidor se transformou, e rápido. O que antes era resistência, virou busca. Hoje, o gelato artesanal ocupa nichos de alimentação saudável, alta gastronomia, turismo e consumo de experiência. O aprendizado, afirma Afra, não foi apenas sobre paladar. Foi sobre inclusão, um valor que entrou no negócio desde o primeiro dia:

“A gente sempre teve uma preocupação muito grande com inclusão ao falar de produto e proposta de marca”, resume.

A leitura, coerente com tendências globais, colocou a Bellucci entre as referências do segmento em Fortaleza, agora com clientes que pedem pistache com autonomia, e não como curiosidade.

Afra não esconde que a decisão de empreender no Brasil envolvia riscos, profissionais e pessoais. Enquanto André deixava um caminho promissor no mercado financeiro, ela deixava uma marca própria para começar do zero. Para a empreendedora, foi a convergência do desejo de construir algo relevante com o entendimento de que o Ceará era, sim, terreno fértil.

O tempo mostrou que o mercado estava pronto para amadurecer, e a Bellucci se tornou parte desse processo.