A mobilidade urbana tem a oportunidade de uma nova virada tecnológica, tendo o protagonismo dos municípios. Em entrevista ao Opinião Tech, com o jornalista Rodrigo Rodrigues, Rayane Feitosa, CEO da 704 Apps, defendeu que cidades brasileiras têm condições reais de desenvolver seus próprios aplicativos de transporte.
Segundo ela, a oportunidade tem o potencial de reduzir a dependência de gigantes como Uber e 99Pop e abrir caminho para modelos mais transparentes, lucrativos e conectados às necessidades locais.
Segundo a empreendedora, a possibilidade não é apenas viável: ela é estratégica. “Quando você tem um aplicativo do seu município, ele tem um poder de controle muito mais abrangente”, afirma.
Ao adotar uma plataforma própria, a Prefeitura passa a recolher impostos diretamente na fonte, monitorar fluxos de mobilidade em tempo real e acessar dados essenciais sobre segurança, turismo e demandas de transporte. “Em julho, a Beira-Mar [em Fortaleza] é lotada de turistas. Imagina quanto o turismo deixa para a Uber só naquele eixo. A Prefeitura não tem esse recolhimento. Ela tem uma ideia, mas não tem o dado”, exemplifica Rayane.
Para a CEO, um aplicativo municipal permitiria que cidades tivessem inteligência própria sobre deslocamentos, contribuindo para políticas públicas mais precisas, desde o reforço da segurança em determinados horários até ações de ordenamento urbano e estratégias de turismo.
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Aplicativos regionais já remuneram melhor que multinacionais
Conforme Rayane, a 704 Apps opera plataformas de transporte em vários municípios e os resultados reforçam a tese de que modelos regionais oferecem melhores condições aos motoristas.
“Hoje, os nossos motoristas recebem, em média, R$ 4.600. Bem mais do que as multinacionais”, explica. Ela destaca que o modelo de gestão local permite ajustar tarifas e repasses para garantir maior qualidade de vida aos profissionais.
A empresa realiza um ranking anual para medir a eficiência dessa política. “Tem um aplicativo que vem ganhando há três anos seguidos, o Karango”, conta. O aplicativo de mobilidade urbana nasceu em Sidrolândia, no Mato Grosso do Sul, pensado para facilitar a vida dos motoristas e gerar mais economia aos passageiros. “Ele chega a pagar ao motorista R$ 17 mil, R$ 18 mil. Imagina o motorista ganhar R$ 17 mil?”.

A flexibilidade, afirma, só é possível porque os aplicativos regionais conseguem equilibrar operação, custos e repasses com maior proximidade da realidade local, algo inviável para plataformas globais. “A gente consegue gerir isso”, resume.
Mobilidade como política pública, e não apenas serviço privado
Durante a entrevista, Rayane reforça que mobilidade urbana é um tema central para gestão das cidades, e não apenas uma operação comercial. Por isso, defende que municípios ampliem o olhar sobre o potencial desses dados. Um app municipal poderia mapear:
- horários e zonas de maior risco;
- circulação de turistas em diferentes regiões;
- gargalos de trânsito e deslocamento;
- demandas emergenciais de transporte;
- áreas onde os motoristas enfrentam baixa oferta ou riscos.
“Quando a Prefeitura tem esses dados, ela entende a cidade de forma muito mais profunda”, afirma.
O futuro da mobilidade pode ser local
A CEO avalia que, em poucos anos, mais prefeituras adotarão seus próprios aplicativos, integrando transporte por app, táxis e até sistemas de segurança urbana. A 704 Apps se posiciona como uma das empresas brasileiras mais avançadas nesse movimento de descentralização. “A mobilidade urbana da cidade pode ser mapeada com muito mais precisão quando o aplicativo é regional”, reforça Rayane.
Na entrevista, ela também detalhou outras inovações da 704 Apps, como a Zafira IA, sistema de inteligência artificial preditiva que registra movimentos e voz dentro do veículo para antecipar situações de risco e aumentar a segurança de motoristas e passageiros.
