Uma pesquisa inédita realizada por pesquisadores brasileiros e portugueses no litoral cearense revelou um dado preocupante: o Estado possui densidade média de microplásticos superior à registrada em áreas costeiras da Espanha e do Vietnã, dois países que já são referência em estudos sobre poluição marinha. O levantamento contabilizou 23.159 partículas ao longo de 12 meses de monitoramento.
O estudo avaliou dois pontos com realidades opostas. De um lado, o Parque Nacional de Jericoacoara, área protegida e com grande movimentação turística. Do outro, a praia do Mucuripe, em Fortaleza, uma das regiões mais urbanizadas da Capital.
A diferença no volume de microplásticos foi expressiva: o Mucuripe apresentou concentração três vezes maior do que Jeri, mostrando como a pressão urbana interfere diretamente na qualidade ambiental do litoral.
A densidade média encontrada (0,47 partículas por metro quadrado) supera resultados obtidos em pesquisas internacionais conduzidas em zonas costeiras europeias e asiáticas. O dado reforça o alerta sobre a necessidade de políticas públicas mais robustas para conter o descarte irregular de resíduos e o aporte de lixo ao mar.
Tipo de poluição
Os tipos de microplásticos predominantes também ajudam a explicar as origens da poluição. Fibras representaram 54,3% das partículas encontradas, geralmente associadas ao desprendimento de materiais têxteis durante lavagens de roupas ou descarte inadequado. Já os fragmentos (35,4%) indicam a quebra de plásticos maiores, como embalagens e utensílios descartáveis.
Entre os polímeros mais comuns estão polietileno (36%) e polipropileno (29%), dois materiais amplamente utilizados no cotidiano e conhecidos por sua baixa densidade, característica que facilita a flutuação e disseminação desses resíduos sobre a superfície do mar.
Os resultados acendem um alerta para o impacto da urbanização, da gestão de resíduos e do consumo de plástico no Ceará. A comparação com países como Espanha e Vietnã reforça que a poluição marinha já é um problema global e que o litoral cearense está longe de escapar dessa tendência.
Método inovador
A pesquisa mostrou que é possível monitorar microplásticos no mar usando um método sustentável, econômico e integrado à comunidade local: canoas havaianas do tipo Va’a, tradicionalmente usadas em esportes aquáticos. A técnica foi aplicada por pesquisadores brasileiros e portugueses, que identificaram os principais fatores ambientais que influenciam a distribuição desses resíduos no litoral cearense.

O estudo integra a dissertação de mestrado de Alexandre Dantas e foi conduzido pelo professor Tommaso Giarrizzo, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar/UFC). A equipe substituiu embarcações motorizadas, que são comuns em pesquisas desse tipo, por canoas movidas a remo, reduzindo custos, emissões de carbono e aproximando a pesquisa da comunidade esportiva.
Publicado na revista internacional Marine Pollution Bulletin, o trabalho revelou que a velocidade do vento é o fator que mais influencia a densidade de microplásticos na superfície da água. Em seguida aparecem o grau de urbanização da região e o volume de chuvas.
