Na Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Maria Ângela da Silveira Borges, em Fortaleza, 20 alunos participam atualmente do projeto de bordado. São dois encontros a cada semana, às terças e sextas-feiras, sempre no horário do almoço.
A atividade, profundamente ligada à identidade cultural e à expressão artística do povo nordestino, vem sendo promovida em unidades de ensino da rede pública estadual cearense e tem demonstrado impactos positivos na rotina dos estudantes que dela participam.
Heloísa Fernandes, de 16 anos, faz a 1ª série do curso técnico em Portos na escola. A jovem, que já sabia fazer tricô há algum tempo, revela sempre ter tido interesse em aprender a bordar, e por isso aderiu à iniciativa em março passado. A partir de então, ela conta que percebeu mudanças na própria maneira de pensar e de agir.
“O bordado me ajudou com o foco e a concentração. Ele me tirou o tempo de tela. Eu tenho problema de ansiedade, por conta do vício no celular. Então, minha psicóloga havia recomendado que eu fizesse trabalhos manuais. Tenho um casaco da escola em que treino constantemente. E também bordei o presente de aniversário de 80 anos da minha avó”, narra Heloísa.
Enquanto bordam, os alunos exercitam o foco e a atenção, trabalham a resolução de problemas, estimulam a percepção espacial e aprendem a organizar etapas, planejando início, meio e fim. Além disso, desenvolvem a paciência, ao aceitar processos lentos e evolutivos.
EXPRESSÃO TERAPÊUTICA
No Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) Monsenhor Hélio Campos, situado na capital cearense, as oficinas de bordado existem há dois anos, sob a orientação da professora Franci Guedes. As aulas ocorrem às segundas-feiras.
Em 2025, os professores organizadores tiveram a ideia de lançar um projeto especial, denominado “Nas Linhas da Arte”, que começou em agosto passado e será concluído no próximo dia 3 de dezembro, com uma exposição aberta ao público das obras feitas pelas 17 alunas participantes. O evento será realizado na própria escola, das 9h às 21h.

Ângela Maria da Costa, de 53 anos, aluna da EJA – Ensino Médio no Ceja Monsenhor Hélio Campos, retornou aos estudos entre 2023 e 2024, inicialmente motivado pelo acompanhamento do filho autista. Ela ingressou na EJA e em abril de 2024, iniciou a participação no projeto de bordado. Até então, não tinha experiência com a técnica, mas o interesse foi crescendo à medida que ouvia os relatos das colegas e via os trabalhos expostos em eventos.
“A experiência do bordado tem sido para mim uma válvula de escape. Passo a semana toda esperando chegar a segunda-feira. Quando chego aqui, é como se estivesse numa terapia. Aqui não é só o bordado que a gente aprende. Aprendemos a regular os nossos sentimentos e anseios. Tenho conseguido acompanhar melhor os conteúdos e feito as provas com mais tranquilidade”, detalha.
AGENTES CRIATIVAS
O professor Daniel Vieira, auxiliar das oficinas e coordenador do “Nas Linhas da Arte”, explica que, ao usar o bordado como ponto de partida, valoriza-se a habilidade das alunas, que se veem como agentes criativas, capazes de reinterpretar e dialogar com o patrimônio cultural da humanidade.
“Acreditamos que, ao explorar grandes obras e movimentos artísticos, as alunas não apenas expandirão seu repertório cultural, mas também desenvolverão uma nova perspectiva sobre sua própria prática. O projeto busca, portanto, ir além da técnica, promovendo uma reflexão crítica e humanizadora, na qual a arte é vista como uma ferramenta de empoderamento e expressão individual”, ressalta.
INCLUSÃO
Na Escola de Ensino Médio (EEM) Ubirajara Índio do Ceará, também em Fortaleza, os alunos acolhidos pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE) recebem apoio complementar ou suplementar incluiu a prática de bordado, pintura, crochê e desenho entre as atividades ofertadas. Apenas no bordado, há atualmente 13 alunos participando.

A psicopedagoga Lucineide Melo, responsável por acompanhar os estudantes no AEE, lembra que resolveu utilizar a arte terapia em sala de aula a partir dos conhecimentos e habilidades que já tinha em crochê, bordado e costura.
“Nesses trabalhos manuais é associado o ensino da matemática, da história, da geografia, da filosofia, da arte, da escuta, do acolhimento, de valores e princípios. Reconhecendo as potencialidades e as limitações dos estudantes, vai-se fazendo um processo educacional motivador, prazeroso, alegre e acolhedor“, considera.
A educadora entende que a escola precisa, mais do que transmitir conteúdos, contribuir para a construção da cidadania, da autonomia e da liberdade dos alunos.
