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Cordel em reconstrução: como a poesia popular sobrevive e se reinventa no século XXI

A professora de espanhol Maria Inês, possui uma cordelteca com obras valiosas. Foto: Murilo Oliveira

A Literatura de Cordel é um estilo literário que prevaleceu por décadas. O gênero se popularizou no Ceará e no Nordeste a partir da segunda metade do século XIX. Diante de tantos anos fica o questionamento sobre se o tempo foi operando mudanças em sua forma e em seus temas.

A professora do curso de Letras Espanhol da Universidade Federal do Ceará (UFC), Maria Inês, possui uma cordelteca com obras valiosas. Ela relata que, nos primórdios do cordel nordestino, sua função principal era voltada ao entretenimento. “Quando se declamava um Cordel, aqueles que estavam em volta escutando eram pessoas que tinham naquilo ali uma atividade, a única, talvez, atividade de diversão”, pontua.

Para celebrar essa importante demonstração cultural cearense, o Opinião CE traz a série de matérias especiais Cordel Nordestino: a tradição que superou gerações”, mostrando a prevalência da escrita e do consumo de cordel no Ceará.

Na primeira reportagem, o Opinião CE conta a história de Seu Evaristo, um cearense que viaja o Brasil e mantém viva a Literatura de Cordel. Por meio da série de reportagens, também é possível conhecer a história de Arlene Holanda, que produz seus poemas influenciados por uma tradição passada de geração para geração.

Em uma época sem televisão e outras formas de entretenimento, a recitação de cordel era a diversão na zona rural nordestina. A variedade de temas com histórias de vaqueiros e até mesmo de crimes hediondos era o que atraía o público. Além do entretenimento, a literatura possuía um caráter acessível, pois o formato dos folhetos era mais barato e tinha um estilo que “cabia no bolso”.

“Essas pessoas que queriam usufruir daquele poema não tinham condições de comprar um livro, que era um objeto relativamente caro. O Cordel era uma solução também, em termos materiais, para caber no bolso daquele público”, explica a professora.

Conforme Inês, o marco característico dos cordelistas da época era a declamação. Os cordéis eram escritos, com métricas, versos e rimas que facilitavam a memorização para serem declamados ao público. Isso transformou o estilo de escrita do cordel nordestino em algo muito característico.

A professora observa que, atualmente, o cordel perdeu, de certa forma, seu objetivo de entreter. Os autores escrevem mais para manter a tradição e o gênero vivo. Segundo ela, dificilmente se vê declamadores de cordéis no interior nordestino, já que os folhetos foram substituídos por televisões, novas tecnologias e novas formas de entretenimento.

“O Cordel perde um pouco essa dimensão, entre aspas, e com muito cuidado, utilitária, porque tinha um uso, e o uso era de entretenimento, de diversão, de lazer. Perdeu um pouco para outras coisas que são, hoje em dia, muito mais apelativas”, expõe.

DONA DE UMA CORDELTECA

Maria Inês é natural do Interior do Ceará, na zona rural do Cariri, próximo ao município de Porteiras. Ela explica que “Porteiras é tão pequeno que eu tenho que dizer que Porteiras é perto de Brejo Santo”.

O sítio Massapê foi onde nasceu e morou até os oito anos, período em que seu pai faleceu. Sua mãe era professora e possuía uma “estantizinha” com livros e folhetins de cordel. Naquele tempo, o gosto das pessoas do local estava muito voltado para esse gênero. O povo estava maravilhado com as histórias.

“Não eram os que tratavam temas realistas os que mais agradavam. Na verdade, eram os mais fantásticos mesmo. Tratavam de temas, geografias e personagens distantes ou inalcançáveis. Enfim, histórias um tanto fora do âmbito do realismo, digamos”, conta Inês.

A professora relata que costumavam comprar cordéis na feira da região. Em dia de casa cheia, na cozinha, Inês, ainda menina, recitava cordel para vários da família, em sua maioria mulheres. “Tenho um vínculo muito afetivo com o cordel. Um vínculo que está muito ligado à minha infância”, relata.

Depois que saiu do sítio, a professora foi estudar em Barbalha, até chega a Fortaleza e, hoje, atuar como professora de Espanhol na Universidade Federal do Ceará. Sua paixão por cordéis não foi esquecida, assim como no antigo sítio havia uma estante com livros, em sua casa fica uma pequena cordelteca.

“Na verdade, uma cordeltecazinha. Eu perdi muita coisa. Uma quantidade muito grande de cordéis que eu tinha, mas alguns sobreviveram. E eu continuo, de vez em quando, comprando”, explicou.

Inês possui clássicos e novas obras de autores como, Klévisson Viana. Foto: Arquivo pessoal

DA ESPANHA PARA O SERTÃO NORDESTINO

Além do seu acervo pessoal, a professora compartilha sua paixão pela literatura de cordel na disciplina optativa do curso de Espanhol da UFC, focada nos “romanceiros”, um fenômeno de poética popular que nasce no final da Idade Média. O gênero se iniciou na Espanha até chegar à América – no Brasil, mas também na América Hispânica.

“Dialoga muito proximamente da nossa poesia popular. Do nosso romanceiro, do romanceiro nordestino, que eventualmente vai parar nas páginas dos livrinhos de Cordel, dos folhetos de Cordel”, conta Inês.

Inês ensina um pouco sobre a história da literatura de cordel por meio do conteúdo sobre “romanceiros”
Foto: Vitória Galdencio

Os estudos sobre literatura medieval, sobretudo a popular, de tradição oral, aproximaram ainda mais a professora dos cordéis. “Claro que eu já sabia que o nosso romanceiro é neto do romanceiro ibérico. Mas daí a verificar realmente, cotejando uma coisa com a outra, a coincidência, a repetição de temas, as adaptações que eventualmente eram feitas de temas que vinham de lá ou de histórias que vinham de lá”

A professora exemplifica com a história “João desmantelado enfrenta o grande sábio do reino“. Uma narrativa do século XIII, do livro de Buen Amor, que, ao chegar ao Nordeste brasileiro, é adaptada para o público local e se torna folheto de Cordel.

DO ROMANCEIRO AO CORDELISTA

Quando o costume espanhol de declamar nas ruas chega ao Nordeste do Brasil como poesia popular, essa declamação é ressignificada, não por uma mudança estrutural, mas devido a temas adaptados ao público nordestino.

“A gente tem uma cultura vinculada à região, ao sertão que é onde prolifera mais o Cordel, é onde existe realmente um berço do Cordel. A gente tem uma cultura vinculada, por exemplo, ao vaqueiro, aos beatos”, destaca Inês.

Os primeiros cordéis são histórias do romanceiro ibérico, tanto do português como do Espanhol que foram reelaboradas em função da especificidade da cultura nordestina. A obra “João desmantelado e o sábio do rei” explica os argumentos da professora. No texto original, em espanhol, a história do “João esperto” se desenvolve durante um conflito entre romanos e gregos.

A professora possui a obra como parte da sua cordelteca. Foto: Arquivo pessoal

A versão adaptada sobre um súdito maltrapilho e um rei, se aproxima mais do povo nordestino, por ser cômica e cultural. A matriz da história é a mesma, apenas os elementos foram mudados para que possa ter a adesão do público nordestino. Assim, se desenvolveu a literatura de cordel.

TÃO SOFISTICADO QUANTO POPULAR

De acordo com Inês, a escrita de cordel aparenta ser simples, mas é complexa, com métricas e rimas específicas. “A poesia popular vem de uma matriz extremamente sofisticada porque existem tipologias poéticas muito diferentes e muito desafiadoras. Diante disso, se o poeta não for realmente engenhoso, ele não consegue dar conta daquela estrutura”, argumenta.

O cordel possui uma estrutura com versos de sete sílabas em estrofes de 10, com uma rima consonante. “Existe até um tipo de estrutura em desafios que se chama castelo. E essa é uma estrutura tão intrincada e tão difícil. Quando o cantador articula na arquitetura do poema um castelo, aquilo ali é um desafio dificílimo para o seu desafiante”, relatou.

Existem vários tipos de fórmulas poéticas muito elaboradas, por isso não se deve resumir a Literatura de Cordel apenas à fórmula mais simples, que se costuma ler mais nos Cordéis.

O VALOR DA ORALIDADE 

A oralidade marcou o início da popularização do cordel. O poeta, além de ter muito conhecimento na arte de compor, ele deveria ter uma memória excepcional e uma boa capacidade de improviso. “Muita gente realmente acha que pode fazer Cordel, mas a gente não pode esquecer que a origem desses versos, desses poemas, eles viveram na oralidade durante muito tempo”, pontuou a professora.

Inês argumenta que muitos cordéis preciosos foram esquecidos, pois dependiam apenas do domínio da oralidade. Por serem poesias com estruturas complexas, não permaneciam na memória do povo.

“Então, muita coisa preciosíssima era cantada e ficava apenas no domínio, digamos, do gozo instantâneo e imediato da plateia e dos cantadores, e depois se perdia com o vento”, conta ela.

REVALORIZAÇÃO DA CULTURA POPULAR

A professora argumentou que a função original do cordel, ou seja, o entretenimento, a diversão, o contar cordel apenas por prazer pode ter se perdido. A escrita do cordel, com variações orais, como a palavra “mior”, permanecem como uma tradição. “Talvez, nessa nossa geração, ainda existam pessoas que cultivam isso como um certo saudosismo, como uma tradição familiar.”

No entanto, Inês destaca a prevalência de poetas e consumidores de cordel até mesmo no ambiente universitário. Há professores que compõem versos para publicar em cordel na própria UFC.

Professora sente falta da leitura de cordéis por prazer. Foto: Vitória Galdencio

Para ela, o cordel entrou na universidade porque existe uma revalorização da cultura popular e o ambiente universitário é parte desse processo de revalorização. No entanto, a professora percebe que a literatura se transformou mais em um objeto de estudo do que em um objeto de prazer da leitura. “Tenho dúvida de que haja algum lugar assim, bem no Brasil profundo, algum sertão, em que o Cordel ainda seja lido como ele já foi em algum momento, como aquele meio de acesso a uma literatura”, reflete.