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IA revoluciona universidades, mas exige base científica sólida, defende pesquisador

Em meio ao avanço acelerado das ferramentas de inteligência artificial, o ambiente acadêmico vive uma transformação profunda, e, segundo o professor e pesquisador Wellington Souza, essa revolução só é possível porque existe uma base científica construída silenciosamente ao longo de décadas dentro das universidades.

Em entrevista ao Opinião Tech, com o jornalista Rodrigo Rodrigues, Souza destacou que, embora muitas inovações tecnológicas pareçam surgir “de uma hora para outra”, elas são fruto de um trabalho de pesquisa contínuo, complexo e pouco visível.

“Para ter uma inovação que quebra tudo, que chega repentinamente e faz você se perguntar: ‘Como é que fizeram isso?’, existe antes um trabalho de mestres, doutores e pesquisadores dedicados exclusivamente aquele tema”, afirmou.

A nova temporada do Opinião Tech tem o apoio institucional da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec). Ao longo de 8 episódios, o videocast aborda temas como mercado de trabalho e IA; cases de sucesso no Estado; e financiamento para inovação no Nordeste.

Tecnologia de impacto nasce de pesquisas longas

Um dos exemplos citados por Souza é o processador quântico que está sendo desenvolvido pela Microsoft. O pesquisador lembra que o anúncio, feito há poucos meses, aparentou ser uma novidade repentina, mas esconde duas décadas de pesquisa contínua.

“Eles estudam esse processador há 20 anos. Vinte anos de pesquisa, com 30, 50 pesquisadores, no maior silêncio do mundo, trabalhando dentro de uma sala de pesquisa sem ninguém saber”, explica. “Aí, quando chega 2025, anunciam: ‘Vamos lançar um processador quântico, e estamos pesquisando isso há duas décadas’. É assim que grandes inovações acontecem.”

Para ele, esse caso simboliza o que ocorre na maior parte das tecnologias que ganham escala global: são resultados de trajetórias extensas que combinam investimento, método, rigor e tempo.

Impactos da IA no ensino e na produção científica

Souza avalia que a inteligência artificial está reorganizando o cotidiano acadêmico em diversas frentes.

Entre os principais impactos, ele destaca a transformação da pesquisa científica, com automação de tarefas repetitivas, aceleração na revisão de literatura e ferramentas que auxiliam na análise de grandes volumes de dados; mudanças no ensino, com professores aprendendo a integrar plataformas de IA em atividades, avaliações e acompanhamento discente; novos dilemas éticos, especialmente relacionados à autoria, originalidade e dependência excessiva de sistemas automatizados; e pressão por atualização permanente, já que tecnologias emergem mais rápido do que currículos conseguem se adaptar.

Apesar dos desafios, o pesquisador acredita que a IA pode democratizar o acesso ao conhecimento, desde que ocorra dentro de um ambiente de responsabilidade acadêmica. “A universidade precisa entender que essas ferramentas não substituem o pensamento crítico, mas potencializam quem sabe usá-las”, destaca.

O futuro da pesquisa no Brasil: rigor, ética e inovação

Para Souza, a discussão central não é apenas como a IA entra na universidade, mas como as universidades garantem que a IA seja usada com consciência. “Inovação exige pesquisa, tempo e método. E a IA, como qualquer tecnologia, também precisa desse cuidado. Grandes revoluções tecnológicas só acontecem quando existe uma base científica sólida.”

Recentemente, por exemplo, a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (PRPPG) da Universidade Federal do Ceará (UFC) publicou portaria que estabelece a obrigatoriedade de submissão de trabalhos acadêmicos a ferramentas de verificação de similaridade eregulamenta o uso de Inteligência Artificial nos trabalhos e dissertações da pós-graduação stricto sensu.

O uso de IA será permitido apenas como suporte auxiliar, devendo ser declarado e especificado por meio de formulário próprio.

A entrevista com Wellington Souza reforça a importância das instituições de ensino e pesquisa como pilares de inovação no Brasil, setores que, mesmo diante da velocidade das transformações, seguem fundamentais para sustentar o avanço tecnológico com ética, profundidade e responsabilidade.