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Pesquisadores cearenses apontam contradições do Brasil na COP30 em manifesto na Science

Os autores criticam a autorização de perfurações exploratórias de petróleo em área próxima à foz do Amazonas. Foto: Luís Deltreehd/Pixabay

Um grupo de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), junto a especialistas de outras instituições brasileiras, publicou, nesta quinta-feira (20), um manifesto na revista Science, uma das mais prestigiadas do mundo. A publicação na Science funciona como um alerta global e reforça o papel da comunidade científica brasileira na vigilância crítica das políticas ambientais.

O texto, intitulado “Brazil’s hypocrisy at COP30”, acusa o Governo Federal de adotar um discurso climático ambicioso enquanto avança em decisões que fragilizam a agenda ambiental, sobretudo a autorização para perfurações exploratórias de petróleo na foz do rio Amazonas.

A publicação ocorre na véspera do encerramento da COP30, em Belém, dando projeção internacional à crítica. Para os autores, a autorização anunciada em 20 de outubro coloca em risco a credibilidade do Brasil como liderança climática e contraria compromissos assumidos na Declaração de Bogotá, que prevê atuação conjunta dos países amazônicos para proteger o clima.

“Verdadeira liderança climática não surgirá da exploração da última gota de petróleo”, diz o documento, defendendo compromisso inequívoco com a integridade ecológica e a transição energética.

Riscos elevados e ecossistema pouco compreendido

O manifesto destaca três pontos críticos. O primeiro é que a decisão brasileira afronta diretrizes internacionais de transição energética, como a da Agência Internacional de Energia (IEA), segundo a qual nenhum novo campo de petróleo ou gás deveria ser aberto para que o mundo alcance emissões líquidas zero até 2050.

O segundo alerta é o alto risco ambiental: a perfuração ocorrerá em águas profundas, mais que o dobro da profundidade do local do desastre da British Petroleum (BP) no Golfo do México, em 2010. Um acidente na região amazônica, apontam os autores, poderia levar ainda mais tempo para ser controlado e causar impactos sem precedentes.

O terceiro ponto diz respeito ao valor ecológico da área, considerada um dos maiores mosaicos ambientais do planeta, com recifes biogênicos, manguezais, plumas ricas em nutrientes e zonas costeiras fundamentais para a vida de povos indígenas e comunidades pesqueiras.

“A maior preocupação é que a exploração está sendo proposta em uma área ainda muito desconhecida e extremamente sensível”, afirma Tommaso Giarrizzo, professor do Labomar. Ele destaca que a região conecta o oceano ao complexo estuarino-amazônico, um dos ecossistemas costeiros mais produtivos do mundo, e ainda pouco compreendido pela ciência.

“Queremos uma transição energética real e urgente”

O pós-doutorando José Amorim dos Reis Filho, primeiro autor do texto, reforça que o manifesto é também um posicionamento cidadão. “Queremos uma transição energética real e urgente, o planeta precisa disso, nós e nossos filhos igualmente.”

Além de Amorim, assinam como primeiros autores os pesquisadores do Labomar/UFC Tommaso Giarrizzo, Friedrich Wolfgang Keppeler, Eurico Noleto-Filho e o professor Marcelo Oliveira Soares, que ressalta a importância do posicionamento público.

“Isso é importante em termos da discussão sobre as mudanças climáticas globais e políticas internacionais”, aponta Soares.