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Esperança, desafios e resultados insuficientes: o que diz a filha de Chico Mendes sobre a COP

O ativista e ambientalista Chico Mendes ainda influencia a sociedade no combate ao desmatamento, mesmo que já esteja morto. Seu nome deu origem ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia responsável pela gestão das Unidades de Conservação federais do País.

Outra organização que surgiu após sua morte foi o Comitê Chico Mendes, que atua com a estratégia de mobilizar a sociedade com base no legado do ambientalista. Quem preside o Comitê é a sua filha, Angela Mendes.

Participando da COP30, ela foi entrevistada em exclusividade pelo Opinião CE, que possui uma equipe na Conferência, com o jornalista Rodrigo Rodrigues e o cinegrafista Levy Dantas. Confira a entrevista na íntegra:

Opinião CE: Essa COP é a “COP da esperança”?

Angela Mendes: É um belo nome. É uma COP que vai ficar para a história. Uma COP na Amazônia, onde, de fato, a gente percebe como a crise climática tem nos afetado sobremaneira. Então, necessariamente, uma COP que está acontecendo aqui, neste lugar, precisa olhar para isso também.

Acho que foi por causa disso que a Amazônia foi escolhida. O mundo tem falado sobre a importância da Amazônia no enfrentamento à crise climática, como uma solução a esse enfrentamento. E [por causa] dos seus povos também, povos locais, indígenas, que têm uma importância grande.

Foto: Opinião CE

Opinião CE: As decisões tomadas na COP são possíveis sem as comunidades tradicionais, sem os povos indígenas?

Angela Mendes: Olha, as decisões vão acontecer sem a participação efetiva dessa população. Mas são decisões que, mais tarde, vão nos dizer se foram acertadas ou não. O certo é que, há 30 COPs, essas decisões vêm sendo tomadas pelos chefes de nações que, historicamente, a maior parte são nações que sempre contribuíram mais para o problema do que para as soluções.

Até então, os resultados que as COPs têm apresentado, não são satisfatórios, não têm chegado aos territórios e às populações.

Enquanto, do outro lado da história, esses povos que estão nas florestas, nos maretórios, nas periferias, estão no centro da solução, até porque, há muito tempo, eles vêm enfrentando situações de violências, ameaças e falta de acesso a políticas públicas importantes para o seu bem estar e bem viver. Se continuam resistindo, apesar de tudo isso, é porque encontraram essa solução.

A gente precisa respeitar, valorizar e entender como isso está acontecendo e aprender, a partir daí, como essa população tão invisibilizada, que não tem o respeito e o olhar do Poder Público, muitas das vezes, tem resistido a tudo isso? Tem alguma coisa de solução aí, e é bom a gente entender e aprender com eles.

Opinião CE: O Brasil coloca como meta uma redução entre 59% a 67% nas emissões de gases de efeito estufa até 2030. É possível a gente chegar lá, principalmente com essa união de esforços e aprendendo com quem já faz isso, na prática?

Angela Mendes: Você falou a palavra-chave: união. Eu acho que quando a gente une os esforços necessários é possível. Mas isso é um desafio grande e um esforço muito grande também, de unir, às vezes, aliados que estão em posições até antagônicas.

A gente precisa fazer essa grande aliança, a gente vem muito dessa inspiração da aliança dos povos das florestas, que unificou seringueiros, castanheiros e indígenas lá no Acre, em que meu pai e o Aílton Krenak foram as grandes lideranças.

Mas a gente entende que uma aliança, hoje, que inclua a academia, as grandes empresas que têm consciência e, quem sabe, até os bancos, que são os maiores financiadores para o desmatamento e para as grandes atividades que destroem a Amazônia e todos os biomas.

Eles [os bancos] precisam entender que a gente está em um novo momento e que, se não conseguirem reverter essa lógica de apoiar só o que destrói, para quem eles vão financiar futuramente? Quando já não tiver mais nada para destruir?

Acho que [essa aliança] é, sim, possível, mas tem que haver uma soma de esforços onde quer que eles estejam.

Opinião CE: O único bioma 100% brasileiro é a Caatinga, que é tantas vezes negligenciada e faltam tantas políticas públicas. O Ceará, junto aos outros estados nordestinos, traz essa discussão para a COP30. Qual a importância da Caatinga para o Brasil e para a mitigação desses efeitos climáticos?

Angela Mendes: Acho que cada bioma tem uma importância e uma contribuição a fazer, seja na dimensão cultural, na dimensão social e até na dimensão ambiental. Não é possível a gente pensar a proteção de um bioma sem pensar na proteção de todos. 

A gente faz a defesa da Amazônia porque é o local que eu estou, é a realidade que eu conheço. Falo pela Amazônia. Mas não deixo de entender que todos os outros biomas, eles têm representatividade. Se eles não fossem importantes, eles não teriam sido identificados como biomas.

A partir do reconhecimento de que eles são importantes culturalmente também, a gente entende que é preciso que se proteja, que se compreenda porque acho que a gente também não consegue, às vezes, alcançar essas dimensões. 

Eu estou na Amazônia, não tenho essa relação direta com a Caatinga, mas sou descendente desse bioma também. Então às vezes essa desconexão faz com que a gente não entenda a real importância dos outros biomas, mas a gente sabe que está tudo conectado. Nesse planeta, não tem nada separado.