Ao perceberem que uma das principais formas de sustento da cidade poderia ser um dos aliados do equilíbrio ambiental, estudantes de uma escola pública do município de Cascavel desenvolveram uma iniciativa que garante acesso à água limpa e sustentabilidade, por meio da reutilização das sementes de Jerimum, que seriam descardas.
Com orientação da professora de Biologia Heloina Capistrano, as jovens estudantes da Escola de Educação Básica Municipal Benigna Pacheco, Damares do Nascimento (15) e Ágatha Letícia (14) criaram o projeto “H2BIO: biocompósito sustentável da semente do jerimum para a purificação de águas e conservação dos oceanos”.
Com base em análises, as pesquisadoras constataram que dois dos contaminantes mais predominantes nas águas, principalmente em comunidades periféricas de Cascavel, eram óleos e corantes sintéticos, como o azul de metileno, que contribuíam para altos índices de turbidez.
“A gente sempre pensou mesmo na comunidade do município que a gente vem, é muito comum o descarte inadequado desses corantes, de lixo. Lá em Cascavel tem uma comunidade periférica, com um rio extremamente poluído. Então, coletamos água e ela estava extremamente turva”, explica Letícia, ao Opinião CE.
Segundo a estudante do 9º ano, a ideia do projeto surgiu justamente para levar dignidade para famílias que não têm acesso à água limpa e para desenvolver também o equilíbrio ecológico de rios e regiões alagadas, que são constantemente poluídas.
“Então nossos protótipos foram criados pensando na aplicabilidade doméstica, nas famílias menos favorecidas e nesse índice de desigualdade que ainda existe muito no Brasil”, complementa
A proposta, com o avanço do projeto, é alcançar mais espaços, e até ultrapassar as fronteiras cearenses. Além de sustentável, a produção dos purificadores ecológicos da semente do jerimum, conforme os estudos, é 67,77% mais econômica que o carvão ativado.
“Nosso projeto engloba as 16 ODS da ONU, o que comprova que ele está cada vez mais próximo da sociedade, e é isso que a gente quer fazer alcançar mais objetivos, que infelizmente outras pessoas não puderam alcançar”, pontua Damares, ao Opinião CE.
Para obter os insumos, as adolescentes firmaram uma parceria com comerciantes da Feira de São Bento, a maior feira ao ar livre do estado do Ceará e a segunda maior do Brasil.
“Nós pensamos em reutilizar esses resíduos agroindustriais para solucionar esse problema. Começamos a estudar e percebemos que existia o fenômeno da adsorção. Foi realmente pesando na população, que muitas famílias que acordam e não tem uma água limpa para tomar banho, para lavar uma louça”, detalha a professora Heloina, ao Opinião CE.
Elas foram selecionadas entre os 20 melhores projetos do programa Ceará Faz Ciência. Criado em 2012, a mostra científica é realizada de forma itinerante e visa incentivar a pesquisa científica em estudantes.
A cada edição um novo tema é escolhido, com base na Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, definida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Neste ano, o programa acontece na Feira do Conhecimento 2025, aberta oficialmente nesta quinta-feira (6), no Centro de Eventos do Ceará, reunindo especialistas, pesquisadores, estudantes e empreendedores em torno de temas que conectam ciência, tecnologia, educação e criatividade.
A programação segue até este sábado (8), com a presença de dezenas de expositores, startups, projetos e palestrantes locais e nacionais, como Gabriela Prioli, Renata Saldanha e Felipe Castanhari.
COMO FUNCIONA
Por meio de testes e pesquisas bibliográficas, entre materiais orgânicos da feira, elas identificaram então o potencial na semente do jerimum. Com as sementes, o processo consiste em higienização e aquecimento em estufa, seguido de trituração, até chegar em uma textura de farinha.
Ao adicionar a farinha na água com o corante e outros sólidos suspensos, é percebido, de acordo com o tempo e quantidade de farinha, a capacidade de adsorção do corante.
Com o acúmulo dos materiais sintéticos e sólidos com a farinha, a água então é coada, se apresentando totalmente límpida e transparente.

A partir da farinha, as jovens criaram três protótipos diferentes. O primeiro é um sachê, com cerca de 3 gramas da composição. O segundo é uma cápsula hidrossolúvel, feita com amido e água, que funciona como um “sorrisal”.
Já o terceiro, é a biomembrana, que consiste em um processo mais laboratorial. A farinha é adicionada à bebida kombucha, um biorreator natural, onde é cultivado o SCOBY, uma colônia de bactérias e leveduras.
Com isso, forma-se uma membrana natural com a farinha, que depois é desidratada, e pronta para utilização. Embora limpa e despoluída, a água ainda não é potável, mas pode ser utilizada para banho e outras atividades domésticas.
Uma das ideias é desenvolver uma sacola plástica com a biomembrana, que também pode ser usada como vaso descartável de mudas de plantas.

MENINAS NA CIÊNCIA
Para as estudantes, a participação do projeto na mostra é “revolucionária”. Como destaca Letícia, “o mundo da ciência é ainda muito fechado para as mulheres”, e “é extremamente necessário tornar o papel da mulher cada vez mais importante”. “Nós somos muito inteligentes, então a gente precisa estar lá”, completa.
Para Damares, é “uma honra muito grande, ser escolhidas entre os 20 melhores projetos”, e “ser uma menina representante”.
Segundo Heloina, “é muito gratificante ver que as meninas pensam na ciência como mais uma forma de aprender”. “Quando se fala em pesquisa científica, a sociedade ganha, a escola ganha, fico muito feliz porque são elas que são as protagonistas”, comemora.
Elas disputam bolsas de três bolsas de R$ 300 e R$ 1.000 para professor orientador, para dar continuidade a iniciativa.
A FdC 2025 é promovida pela Secretaria da Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Ceará (Secitece). O Ceará Faz Ciência é aberto para estudantes de todo o Estado de escolas públicas do Ensino Fundamental II e Médio/Profissional.
Realizado pelo Governo do Ceará, a feira busca ser um espaço de popularização da ciência, tecnologia, inovação e empreendedorismo no estado, reunindo público de todas as idades em experiências imersivas e educativas.
