Durante participação no programa Opinião Tech, do Opinião CE, o presidente da Associação Internacional de Desenvolvedores de Jogos (IGDA) e CEO do Instituto Bojogá, Daniel Gularte, afirmou que os e-sports, os chamados esportes eletrônicos, não devem ser considerados como jogos de videogame. A declaração foi feita durante uma entrevista que discutiu o atual cenário da indústria de games no Brasil e os desafios para o reconhecimento jurídico do setor.
“A gente não pode considerar como jogo, por exemplo, a prática do esporte eletrônico no Brasil. É uma outra categoria, não se enquadra como jogo. Assim como o jogo também não é bet. Jogo não é aposta”, destacou Gularte.
O especialista explicou que a distinção entre games, bets e e-sports é essencial para a elaboração de políticas públicas adequadas e para o fortalecimento do mercado nacional. Segundo ele, o principal diferencial do videogame é o protagonismo do jogador, que toma decisões e constrói experiências dentro de um ambiente interativo.
“A tecnologia permite que o jogador construa suas próprias ações, aquelas que realmente trazem resultado e aprendizado. Isso gera memória afetiva e vínculos culturais. É o que o videogame proporciona”, afirmou.
Ceará teve papel decisivo na criação do marco legal dos jogos
Durante a entrevista, Gularte também ressaltou que o Ceará teve participação fundamental na formulação do Marco Legal dos Jogos Eletrônicos, aprovado recentemente no Congresso Nacional. Ele contou que profissionais cearenses foram convidados para compor um grupo de pesquisa que ajudou a aprimorar o texto da proposta original, considerada “mal estruturada” por não ouvir o setor produtivo.
Segundo Gularte, o setor precisou se mobilizar para evitar distorções na proposta, incluindo a tentativa de grupos ligados ao mercado de apostas de introduzir os chamados fantasy games na legislação, algo que, segundo ele, “não existe conceitualmente na área acadêmica de jogos”.
“Queriam incluir o bet na lei de jogos. Chegaram a criar uma categoria inexistente, o fantasy game, tentando escapar da taxação. Nós conseguimos barrar isso, e agora há um projeto para tributar o setor de apostas em até 24%”, contou.
Desenvolvimento local e crítica à dependência de grandes empresas
O presidente da IGDA também alertou para a importância de investimentos públicos voltados à produção nacional de jogos. Ele defendeu que o dinheiro do contribuinte deve ser usado para fomentar o ecossistema local, e não para financiar marcas estrangeiras que não geram retorno para o país.
“Uma marca da Ásia que vem, oferece um curso e depois leva todo o conhecimento embora. Isso é muito comum no Brasil e principalmente no Ceará. O recurso público precisa construir coisas para nós”, afirmou.
Para Gularte, o fortalecimento da indústria nacional passa por políticas públicas consistentes, formação de profissionais e reconhecimento jurídico adequado das diferentes modalidades do setor, separando claramente jogos eletrônicos, apostas e e-sports.
“São modelos de negócio diferentes. A indústria de games é uma relação social construtiva, que envolve cultura, aprendizado e tecnologia. O esporte também é uma relação social, mas com regras e outra finalidade. Uma coisa não invalida a outra, só precisam ser tipificadas corretamente”, concluiu.
Confira a entrevista completa no canal do Opinião CE no YouTube:
