Nesta quinta-feira (15), é comemorado o Dia do Professor, data que marca as comemorações e o destaque ao trabalho essencial e transformador de pessoas educadoras. Mas imagina dar uma aula em um cemitério?
É o que o projeto Fortaleza Necrópole, idealizado pelo professor e historiador Thiago Roque, realiza na Capital cearense.
A ideia é levar diversas pessoas a mergulharem na história da cidade, pela perspectiva da morte, da vida e das memórias de antigos habitantes.
Conforme o educador, ao Opinião CE, uma das grandes diferenças de experiências como esta é a metodologia.
Dentro das salas de aula, comumente usam-se formatos como a exposição dialogada, já nas aulas realizadas pelo projeto, a experiência é imersiva e mais intensa.
“É como um oceano. Mas muitas pessoas têm medo de cemitério, às vezes tem vontade de ir, mas não têm coragem, nosso projeto de fato permitiu que essas pessoas que não se sentiam à vontade, conhecessem outras perspectivas”, destaca.
No entanto, o professor lamenta que muitas pessoas não conhecem a história do estado do Ceará, e até mesmo de Fortaleza.
Assista à entrevista completa de Thiago Roque, ao programa Entre Assuntos, com Elba Aquino:
MEMÓRIA E CONEXÃO
Segundo o professor, através dos túmulos, são narrados contextos e conflitos históricos, relações de poder e a dinamização “entre aquele partiu e o seu legado que deixou”.
“Essa conexão e essa reconexão é necessária para a gente construir uma identidade. Não existe uma identidade sem memória, quando a gente faz esse resgate, utilizando do método histórico e filosófico, das visitações, a gente questiona sobre a relevância e o legado, positivo ou não, das pessoas homenageadas”, pontua.
Para Thiago, o principal intuito das aulas é poder reconectar as pessoas participantes com o resgate de uma cidade que já não existe mais, por meio de um espaço que conta muito desse passado: o cemitério.
“Nossa iniciativa é uma aula imersiva histórica e cultural a partir dos espaços de exclusão e inclusão. É a memória da nossa cidade, é a história da nossa cidade, do povo cearense”, explica.
Durante o percurso formativo, os visitantes são levados a mergulhar na própria dinâmica da necrópole, e entendem aspectos sociais e econômicos, de desigualdades sociais, além de momentos que marcaram a cidade, como “a noite dos mil mortos”, por exemplo.
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UMA REFLEXÃO SOBRE VIDA E MORTE
O projeto surgiu da ideia entre os idealizadores de mesclar filosofia e história através da perspectiva do cemitério, ainda no início de 2024.
Na roteirização diurna, a rota sai do Centro de Turismo do Ceará (antiga cadeia pública de Fortaleza), passando pelo Complexo da Estação das Artes (antigo cemitério de São Casimiro) e seguindo pela rua Castro e Silva, chamada de “rota das almas”, antes conhecida como “rua das flores”, por conta dos cortejos fúnebres.
“Como nossa aula tem uma perspectiva de reflexão sobre infinitude e finitude da vida, nada melhor do que uma rota pelo caminho das almas para que a gente pudesse refletir questões existenciais, sobre o conceito de serenidade, de tranquilidade e de imperturbabilidade da alma”, complementou.
Os alunos podem participar tanto da rota diurna como a noturna.
Nas próximas sextas-feiras (17 e 24), Thiago, ao lado de Sandoval Matoso, também professor e historiador e realizador da iniciativa, realizam mais um “Assombros e memórias”, a rota formativa noturna, no Cemitério São João Batista.
De cordo com o educador, embora haja um foco nas lendas urbanas, um direcionamento nos mitos que perpassam Fortaleza, o principal objetivo é a “serenidade e resgate da memória”.
Já a ideia do nome busca justamente desmitificar a ideia de medo e tensão.
O público é diverso e reúne muitos interessados e curiosos na história da cidade, em lendas, mitos e mistérios da cidade.
Durante o percurso, até mesmo funcionários do cemitério participam para relatar histórias e relatos do espaço.
