Único embaixador da juventude da América do Sul na 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas, realizada em Nova York, o cearense João Davi de Morais, com raízes no Pirambu, na periferia de Fortaleza, é um exemplo de como a educação pode transformar uma realidade. Nos EUA, ele conta a história da creche Arpoador de Fortaleza.
O projeto faz parte da iniciativa “Acting for the Early Years” (Agir pelos Anos Iniciais), focada em soluções educacionais para a primeira infância.
O Opinião CE conversou com João Davi sobre o evento, passado e futuro. Inspirado pela avó, Dioneia Soares Barbosa, ele encontra na educação a chave para mudar a realidade local.
“Tenho o sonho de, um dia, criar um instituto e voltar ao Ceará para oferecer oportunidades, especialmente para a nossa comunidade. Muitas vezes, nas escolas públicas e nas periferias, a gente vê estudantes com expectativas muito baixas sobre o próprio futuro, conformados com o que as estatísticas sociais dizem que eles podem ser. E isso precisa mudar“, aponta.
“A comunidade sempre tem as suas complicações, como pobreza, insegurança alimentar e violência. Isso, infelizmente, é uma realidade que persiste há muito tempo e a gente ainda continua vendo isso no dia a dia”, aponta. Davi lembra que chegou a ter problemas com a violência urbana na periferia de Fortaleza.
“Perdi meu pai aos 7 anos por conta de dependência química, também relacionado ao acesso às drogas e à violência que a comunidade, infelizmente, ainda oferece. Isso é um problema que a gente deve tentar reverter, justamente por meio da educação. Mas, quando pequeno, eu fui aprovado aos 6 anos no Colégio Militar do Corpo de Bombeiros e isso mudou”.
PROJETO INTERNACIONAL
Ele faz parte da primeira turma do projeto de jornalismo da empresa Theirworld, uma ONG do Reino Unido a soluções de crises educacionais de âmbito global. O objetivo é proporcionar um jornalismo de solução, ou seja, não apenas falar do problema, mas apresentar ações comunitárias que buscam combater a problemática.
A escolha de contar a história da creche Arpoador possui um caráter pessoal. A avó de João, Dioneia Soares Barbosa, é diretora voluntária do Centro Comunitário Cristo Redentor, que administra a creche. Ela trabalha no projeto até hoje, e seu neto costumava ajudar no serviço antes de iniciar seus estudos na University of Hong Kong.

“Minha vida mudou por meio da educação. Ela me deu oportunidades que eu nunca imaginei. Tive a oportunidade de viajar alguns estados do Brasil. No ano passado, fazia parte do programa Oportunidades Acadêmicas do Education USA Brasil, que é parte do Departamento de Estado Americano. Fiz as minhas aplicações para universidades americanas, elas foram custeadas e tive a oportunidade de visitar Brasília também. Tudo isso graças à educação, graças ao estudo. Então, quanto mais eu puder incentivar os jovens a irem nesse caminho, eu vou incentivar”.
ÚNICO EMBAIXADOR DA AMÉRICA DO SUL
Além de João Davi, outros nove jovens embaixadores fazem parte da equipe de jornalismo da empresa The Work. Para se tornar embaixador, o jovem teve que se inscrever de maneira online para se tornar embaixador global da juventude. Ele afirma que qualquer pessoa que tenha dedicação e comprometimento com a educação pode se inscrever e ter acesso a uma rede de projetos internacionais voltados para a educação.
Dentro da seleção, havia o projeto para jovens jornalistas. Após um longo processo de seleção, João escolhido como um dos 10 jovens selecionados e o único da América do Sul.
O jornal produzido pela equipe de jornalistas se chama “The Education Issue” (A questão da educação) e uma das matérias presentes é a “Dever de Cuidar”, sobre a creche Arpoador.
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DO PIRAMBU A HONG KONG
O jovem morou no Pirambu, a maior comunidade em situação de vulnerabilidade do Ceará, e atualmente estuda na The University of Hong Kong. João também destacou o papel da educação cearense em sua formação. Para ele, além dos conteúdos curriculares, foi o ambiente escolar e comunitário do Ceará que lhe proporcionou as chamadas soft skills, habilidades comportamentais como comunicação, empatia e resiliência, cada vez mais valorizadas no mercado global.
“O cearense, por si só, é muito falante. Eu acho que isso já é um um dom que a gente tem. A educação cearense é muito importante porque foi ela que me fez desenvolver isso”, reforçou.
Além do ensino formal, João aponta o papel da cultura local, das ações voluntárias e do incentivo à leitura como pilares que o prepararam para sua trajetória internacional. Ele participou do projeto Academia Jovem de Letras e colaborou com a Academia Cearense de Letras, no projeto Educando para a Cultura, que utiliza a literatura como ferramenta de inclusão e debate social.

EDUCAÇÃO COMO POLÍTICA PÚBLICA REAL
O projeto Acting for the Early Years busca não apenas visibilidade internacional para ações locais, mas influenciar políticas públicas em países em desenvolvimento. Ao apresentar a experiência da Creche Arpoador, João defende ainda que a educação deve ser tratada como política prioritária e que os esforços precisam ir além da infraestrutura.
“Tudo isso só foi possível graças à educação, graças ao estudo. Quanto mais eu puder incentivar os jovens a seguirem esse caminho, o da educação como ferramenta de transformação, eu vou incentivar”.
Texto de Vitoria Galdencio e Gustavo Calvano.
