É do Ceará o que pode ser uma das descobertas mais importantes da mineralogia moderna. Um pesquisador da Universidade Federal do Ceará identificou, em cristais encontrados em Quixeramobim, no Sertão Central cearense, propriedades ópticas nunca antes registradas em nenhum outro mineral.
A descoberta é de Isaac Gomes de Oliveira, feita a partir de um aparelho criado ainda durante a graduação. Atualmente ele é doutor em Geologia pela UFC. A novidade é que, ao serem atravessados pela luz, as gemas apresentam características diferentes das 10 figuras já conhecidas pela ciência e estabelecidas desde os anos 50.
Ou seja, os cristais formam padrões de cores e formas, chamadas de figuras de interferência, até então desconhecidas. O cientista as chamou de “mosaico”.
“Pela primeira vez em cerca de 70 anos, observamos um fenômeno óptico que ainda não havia sido documentado: cristais com alto nível de ordem e desordem, causando uma sobreposição complexa de cores e padrões, algo que expande significativamente nosso entendimento da interação da luz com minerais”, destacou o cientista.
O nome foi dado pela configuração de azul, amarelo e roxo, que aparecem juntos se assemelhando à referida forma de arte.
O achado, relatado em artigo publicado em julho na revistas American Mineralogist, deve, conforme ressalta Isaac, mudar o entendimento moderno sobre a óptica e estrutura atômica dos minerais.

ESTUDOS
Na pesquisa, foram escolhidos aleatoriamente sete exemplares do mineral comum chamado grossulária, rico em cálcio e alumínio, que costuma ser usado em joias. As amostras recolhidas possuem cores que vão do amarelo até o alaranjado.
Foram analisadas 7 peças e todas apresentaram a mesma forma de mosaico ao serem atravessados pela luz, o que, segundo o pesquisador, confere consistência e representatividade ao estudo.
“É como se ele estivesse registrando a própria história da natureza em sua estrutura”, completou.
O cientista projeta, futuramente, investigar minerais de outras regiões do Brasil e do mundo, para buscar verificar se a figura do mosaico também ocorre em outros contextos geológicos.
O estudo, encabeçado por Gomes, contou ainda com a colaboração de outros pesquisadores, como os professores Lucilene dos Santos, do Departamento de Geologia, e Carlos William Paschoal, do Departamento de Física, ambos da UFC, a doutora Laryssa Carneiro, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), além do professor Lee Groat, da University of British Columbia (UBC), no Canadá.
AVANÇOS
O pesquisador enfatiza que, até então, era estabelecido que todas as figuras de interferência já conhecidas estavam completamente mapeadas e estudadas. Agora, com a descoberta no Ceará, abre-se a perspectiva para a ciência de que podem existir novos fenômenos ópticos ainda desconhecidos.
“É, possivelmente, uma das descobertas mais importantes da mineralogia moderna. Trata-se, portanto, de um avanço com relevância científica, prática e pedagógica, comparável em importância às grandes contribuições clássicas da mineralogia óptica do século XX”, complementa.
Para o futuro, o estudo pode influenciar áreas como a gemologia, a mineralogia óptica, a cristalografia e a física óptica. Além disso, complementa Isaac, tem o potencial de instigar inclusive novas tecnologias ópticas.
Segundo Tereza Neri, professora do Departamento de Geologia e uma das parceiras de Isaac, o Ceará é uma das províncias gemológicas mais importantes do Brasil,
“Esmeralda, turmalina, água-marinha, espessartita, grossulária, ametista, entre outros minerais. Essas pesquisas contribuem tanto para a ciência quanto para a autonomia nacional na área de recursos estratégicos”, reiterou.
Isaac escolheu Quixeramobim como área de estudo em sua monografia durante a graduação, e seguiu com esta área no mestrado e no doutorado. As grossulárias de Quixeramobim, conforme destaca, não são cristais uniformes, mas sim arranjos que abrigam em si duas ou mais estruturas cristalinas ligeiramente diferentes, que interagem entre si e geram esse efeito óptico raro e exclusivo.
