O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Ricardo Cavalcante, afirmou, em entrevista coletiva, que a medida provisória (MP) do Governo Federal para ajudar exportadores afetados pela taxação de 50% imposta por Donald Trump a produtos brasileiros já está em análise no Congresso Nacional. Batizada de Plano Brasil Soberano, a proposta busca amenizar prejuízos, mas, segundo ele, ainda exige ajustes.
Ricardo Cavalcante destacou que parte das reivindicações dos exportadores cearenses foi atendida, mas frisou que as ações adotadas pelo Governo Federal valem para todo o País. Na avaliação dele, o impacto do tarifaço precisa ser discutido por setor, como a Fiec tem feito com o Governo do Ceará, já que o Estado é o mais atingido pela medida.
Atualmente, 51% dos produtos exportados pelo Ceará têm como destino os Estados Unidos. Embora os compradores americanos mantenham interesse, a cobrança extra inviabiliza negócios. Para o dirigente, é fundamental manter o diálogo e evitar politização, priorizando a proteção das empresas e dos trabalhadores.
CADEIA PRODUTIVA
O setor da pesca é um dos mais afetados. Segundo Ricardo Cavalcante, 6 mil embarcações operam no mar, cada uma com, em média, três tripulantes, somando 18 mil trabalhadores. Além disso, para cada pescador, há cinco profissionais atuando em terra no processamento e embarque dos peixes, totalizando mais de 100 mil pessoas envolvidas.
No primeiro semestre de 2025, a indústria cearense vendeu US$ 544 milhões aos Estados Unidos, mas o tarifaço já afeta US$ 130 milhões em mercadorias que deixaram de ser exportadas. A MP aumentou a alíquota de reembolso do programa Reintegra de 0,3% para 3,1%, porém apenas para produtos enviados aos EUA a partir de agora. “Não adianta, pois não estamos mais vendendo. 3,1% de zero é zero”, lamentou.
Para ele, o percentual deveria valer para tudo o que foi exportado entre janeiro e junho deste ano e para todos os países, não apenas para os Estados Unidos. Essa medida, segundo Cavalcante, reduziria os prejuízos, mas não resolveria o problema.
ESFORÇO DE ELMANO
Além do pescado e da cera de carnaúba, setores como castanha de caju, couro, calçados, água de coco, frutas, pás eólicas e minerais foram prejudicados. A preocupação é maior com produtos perecíveis, como peixes, frutas, castanha de caju e água de coco. O presidente da Fiec apoia a proposta do governador Elmano de Freitas (PT) de incluir parte do pescado não exportado na merenda escolar e no programa Ceará Sem Fome, que serve cerca de 130 mil refeições diárias.
Ele também sugeriu que a água de coco seja incorporada à merenda, seguindo o exemplo do Paraná, que compra o produto cearense para estudantes da rede pública. Somente no primeiro semestre de 2025, o Ceará exportou US$ 11 milhões em água de coco, resultado que, para ele, merece destaque.
NOVOS MERCADOS
Desde o anúncio do tarifaço, empresas cearenses se reúnem para buscar soluções. Ricardo Cavalcante contou que a procura por novos mercados se intensificou, mas lembrou que fechar contratos demanda tempo, especialmente para produtos como proteína animal e frutas, que dependem de protocolos sanitários específicos e análises laboratoriais antecipadas.
A principal preocupação da Fiec é manter os empregos, inclusive temporários, essenciais em setores que lidam com produtos perecíveis. “É preciso deixar de lado a política e focar nos empregos”, defendeu.
Cavalcante acredita que a situação pode melhorar, mas sem prazo definido. Ele ressaltou que empresários precisam honrar salários mensalmente e não podem esperar três ou quatro meses por uma solução. “São mais de 150 mil empregos que podem ser impactados”, concluiu.
