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Exportadores cearenses defendem articulação diplomática diante do tarifaço dos Estados Unidos

Na manhã desta sexta-feira (25), o governador Elmano de Freitas (PT), reuniu-se com a diretoria da ArcelorMittal, controladora da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Foto: Divulgação

Os maiores exportadores do Ceará ligados a setores diretamente afetados pela nova tarifa anunciada pelos Estados Unidos se reuniram para debater estratégias conjuntas. O encontro, realizado na sede da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), foi motivado pelo anúncio do governo norte-americano de que, a partir de 1º de agosto, entrará em vigor uma tarifa de 50% sobre diversos produtos brasileiros.

A medida preocupa os industriais cearenses, principalmente pelo impacto sobre a exportação de aço, setor que concentra mais de três quartos da pauta comercial do Estado com os Estados Unidos. A intenção da Fiec é elaborar uma proposta estruturada para ser apresentada aos governos estadual e federal.

COMÉRCIO BILATERAL

O Ceará ocupa uma posição singular no cenário das exportações brasileiras para os Estados Unidos. Enquanto o País como um todo destina cerca de 12% de suas exportações ao mercado norte-americano, o Estado tem uma dependência muito maior, com 51,9% dos produtos cearenses vendidos ao exterior indo para lá.

Boa parte desse volume está concentrada no aço. No primeiro semestre deste ano, o Ceará exportou US$ 556,7 milhões aos Estados Unidos. Mais de 76% desse valor corresponde a produtos semimanufaturados de aço, como placas metálicas e ligas.

Além do aço, a pauta cearense com os Estados Unidos inclui peixes congelados, sucos e castanha de caju. No entanto, esses itens representam uma fatia bem menor e não compensam a vulnerabilidade gerada pela alta dependência da cadeia siderúrgica.

FOCO NO AÇO

O grupo de maior destaque nas exportações cearenses para o mercado norte-americano é o de ferro fundido, ferro e aço. Apenas nos primeiros seis meses deste ano, esse segmento movimentou US$ 426,2 milhões. O segundo grupo mais relevante – peixes, crustáceos e moluscos – somou US$ 22,4 milhões, demonstrando o desequilíbrio entre os setores.

Durante o encontro na Fiec, o economista-chefe da instituição, Guilherme Muchale, apresentou dados do Observatório da Indústria Ceará. O levantamento mostra que, mesmo com a perda de peso dos Estados Unidos na pauta exportadora nacional, o Ceará mantém uma relação comercial forte com o país.

Essas informações devem embasar as próximas ações da entidade e dos sindicatos setoriais que compõem a indústria exportadora local.

UNIÃO DO SETOR

O presidente da Fiec, Ricardo Cavalcante, defendeu uma abordagem colaborativa para enfrentar o problema. Para ele, é preciso que os setores afetados atuem de forma unificada, identificando as especificidades de cada cadeia e propondo soluções adaptadas à realidade do Ceará.

Ricardo Cavalcante reforçou que a intenção é levar uma proposta articulada aos governos estadual e federal. Ele destacou a necessidade de proteger os empregos e reduzir as perdas financeiras resultantes do novo cenário comercial.

O dirigente também ressaltou a utilidade do Observatório da Indústria, que produz análises setoriais em tempo real. A plataforma pode orientar as empresas na busca por novos mercados e insumos alternativos.

DIPLOMACIA NECESSÁRIA

Entre as soluções discutidas, uma das mais enfatizadas foi o reforço da articulação diplomática. A avaliação dos empresários é que, mesmo sem uma ordem executiva formalizada, o risco de aplicação da tarifa é iminente e exige resposta antecipada.

Foi proposto o uso de dados econômicos como instrumento de pressão diplomática. Um dos argumentos defendidos é que as tarifas também prejudicam empresas norte-americanas que dependem do aço brasileiro.

A Fiec já iniciou conversas com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) para construir uma agenda conjunta. A proposta é atuar com apoio técnico das áreas de comércio exterior e economia das duas entidades.

FORTALECER PARCERIAS

A necessidade de diversificar mercados e fontes de insumos foi outro ponto levantado durante o encontro. Essa estratégia já vem sendo adotada por setores como couro e calçados, que buscam reduzir sua dependência de mercados específicos.

Em paralelo, o Governo do Estado tem atuado em apoio ao setor. Nesta sexta-feira (25), o governador Elmano de Freitas (PT) se reuniu com diretores da ArcelorMittal, maior produtora de aço do Brasil e responsável pela Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP).

Segundo Elmano de Freitas, o objetivo é fortalecer a produção local diante das mudanças que se avizinham. O Governador também afirmou que manterá diálogo com o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB-SP) para buscar saídas políticas e econômicas ao impasse.

AMPLIAR DIÁLOGO

A reunião da Fiec contou com representantes de sindicatos e empresas dos principais setores exportadores do Estado. Estiveram presentes nomes como Edgar Gadelha (Sindcarnaúba), Carlos Rubens Alencar (Simagran), Paulo Gonçalves (Sindifrios) e André Luís Pinto (Sincal e SindCalf).

Também participaram executivos de grandes grupos, como Jorge Oliveira (ArcelorMittal América Latina), Erick Torres (ArcelorMittal Pecém), Marcelo Matos (Aeris), Marcos Strada (Grendene), Adriano Thielke (Finoagro – Grupo Vicunha) e Felipe Gurgel (Duramental).

A gerente do Centro Internacional de Negócios (CIN), Karina Frota, reforçou o papel da instituição na internacionalização das empresas locais e na coleta de dados para subsidiar políticas comerciais.

CENÁRIO SENSÍVEL

Ainda que a medida do governo norte-americano não esteja oficialmente implementada, o risco já gera incerteza no setor produtivo. Empresários avaliam que esperar a formalização da tarifa pode ser prejudicial, e por isso defendem ações imediatas.

Para a Fiec, o momento exige planejamento e ação conjunta. A articulação com o Governo do Estado é vista como essencial para evitar perdas ainda maiores no comércio exterior.

O Ceará, devido à concentração em poucos produtos exportados, figura entre as unidades da Federação mais vulneráveis à decisão dos Estados Unidos. Por isso, liderar o movimento nacional de resposta tem se tornado prioridade para a indústria local.