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Lula critica unilateralismo e cobra reforma global: “Multilateralismo precisa ser reconstruído”

Lula destacou os avanços trazidos pelo sistema multilateral, como a erradicação da varíola, a proteção da camada de ozônio e os direitos dos trabalhadores. Foto: Ricardo Stuckert/ Presidência da República

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) defendeu o diálogo, a cooperação internacional e o multilateralismo como caminhos para enfrentar os principais desafios do mundo atual. Em artigo publicado nesta quinta-feira (10) em veículos de imprensa de diversos países, Lula alertou que a prevalência da lei do mais forte ameaça o sistema global de comércio.

Sem citar diretamente o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — que anunciou ontem uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras —, Lula criticou o uso de tarifas generalizadas, que segundo ele empurram a economia mundial para uma espiral de preços altos e estagnação. “A Organização Mundial do Comércio foi esvaziada, e ninguém se lembra da rodada de desenvolvimento de Doha”, afirmou.

No artigo, o presidente brasileiro voltou a defender a reestruturação dos organismos multilaterais como forma de enfrentar os conflitos atuais. “Se as organizações internacionais parecem ineficazes, é porque sua estrutura não reflete mais a realidade do mundo. Ações unilaterais e excludentes se agravam com a ausência de liderança coletiva. A solução para a crise do multilateralismo não é abandoná-lo, mas reconstruí-lo com mais justiça e inclusão”, escreveu.

O texto foi publicado em jornais como o britânico The Guardian, o argentino Clarín e o chinês China Daily.

ONU AMEAÇADA

Lula lembrou que o ano de 2025 deveria marcar os 80 anos da Organização das Nações Unidas (ONU), mas pode entrar para a História como o momento em que a ordem internacional construída desde 1945 entrou em colapso.

Segundo o Presidente, o mundo de hoje é bem diferente do que surgiu após a II Guerra Mundial. Novas potências econômicas e políticas emergiram, trazendo desafios complexos. Ele destacou que os sinais de enfraquecimento da ONU já vinham sendo percebidos há tempos.

“Desde as invasões do Iraque e do Afeganistão, a intervenção na Líbia e a guerra na Ucrânia, alguns membros permanentes do Conselho de Segurança banalizaram o uso ilegal da força. A incapacidade de agir diante do genocídio em Gaza representa uma negação dos valores mais básicos da humanidade. A dificuldade em superar divergências tem alimentado uma nova escalada de violência no Oriente Médio, cujo episódio mais recente foi o ataque ao Irã“, afirmou Lula.

O Presidente da República também citou a crise financeira global de 2008 como exemplo do fracasso do modelo de globalização neoliberal. Ele criticou que, em vez de buscar alternativas, o mundo seguiu apostando em políticas de austeridade. “A escolha de socorrer os ultra-ricos e grandes corporações às custas da população e dos pequenos negócios aprofundou a desigualdade”, disse.

DESIGUALDADE E EXTREMISMO

Para o Presidente, o esvaziamento da atuação dos estados contribuiu para a perda de confiança da população nas instituições. Esse cenário favoreceu o crescimento de discursos extremistas, que ameaçam a democracia e disseminam o ódio como estratégia política.

Ele também criticou o corte de programas de cooperação internacional, mesmo diante da necessidade urgente de reduzir desigualdades. “Não se trata de caridade, mas de enfrentar disparidades enraizadas em séculos de exploração, dominação e violência contra povos da América Latina e do Caribe, da África e da Ásia. Em um mundo com PIB acima de US$ 100 trilhões, é inaceitável que mais de 700 milhões de pessoas ainda passem fome e vivam sem acesso à eletricidade ou água potável”, declarou.

CLIMA E RICOS

Lula alertou ainda para a urgência da crise ambiental e cobrou mais responsabilidade dos países ricos, principais emissores de carbono. “O ano de 2024 foi o mais quente da História, mostrando que a realidade está avançando mais rápido que os compromissos assumidos no Acordo de Paris“, apontou.

Ele criticou o fim das metas obrigatórias previstas no Protocolo de Kyoto, substituídas por promessas voluntárias, e lembrou que os US$ 100 bilhões anuais prometidos em Copenhague, na COP 15, nunca saíram do papel. “O recente aumento dos gastos militares da Otan torna essa possibilidade ainda mais remota”, avaliou.

MULTILATERALISMO

Por fim, Lula destacou os avanços trazidos pelo sistema multilateral, como a erradicação da varíola, a proteção da camada de ozônio e os direitos dos trabalhadores. “Em tempos de polarização crescente, termos como desglobalização viraram comuns. Mas é impossível desplanetar nossa existência. Nenhum muro é alto o bastante para isolar ilhas de paz cercadas por miséria e violência“, escreveu.

Ele concluiu lembrando que o Brasil tem buscado promover o diálogo em fóruns internacionais, como demonstrado durante sua presidência no G20, e agora à frente do Brics e da COP 30. “É possível encontrar pontos em comum mesmo nos cenários mais adversos”, finalizou.

Com informações da Agência Brasil.