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Bebês Reborn: psicóloga analisa processo de “mercantilização do afeto” em entrevista ao Opinião CE

Para psicóloga clínica Lucinara Lopes, ao Opinião CE, o que se observa no fenômeno dos bonecos reborn é um processo de mercantilização do afeto. Foto: Reprodução/Etsy

No dia 15 de abril, foi apresentado na Câmara dos Deputados Federais, o Projeto de Lei 2320/2025, que proíbe o uso de boneca do tipo “bebê reborn” ou artifício similar para obter benefícios destinados a crianças de colo. Um mês antes, o documentário “bebês reborn não choram”, do jornalista e colunista Chico Barney, apresentava uma comunidade de mulheres de São Paulo colecionadoras do brinquedo.

Para psicóloga clínica Lucinara Lopes, ao Opinião CE, o que se observa no fenômeno dos bonecos reborn é um processo de mercantilização do afeto. 

“O mercado que identifica uma dor, um desejo, e ele transforma em um produto, ver como uma oportunidade de lucro. Não é só você ter o bebe reborn, é a experiência de ter um bebê reborn, quando mais perto do real, melhor, não é só comprar, são as roupas, o passeio, o nascimento”, destaca a profissional. 

Confira a entrevista completa com a jornalista Elba Aquino para o programa Entre Assuntos, do Opinião CE.

Conforme Lopes, na criação dos brinquedos, os limites entre o real e o imaginário se expandem, mas a prática do hobby também é um espaço de construção de comunidade, onde as pessoas colecionadoras se sentem acolhidas umas pelas outras.

“Não existe um limite. Esse limite entre o real e a fantasia vai ser muito amplificado pelo mercado, porque gera uma receita de milhões […] Então, é muito importante a gente diferenciar o hobby, que é algo positivo, que cria um sentimento de pertencimento, cria um sentimento de validação, de comunidade, onde todos são iguais, onde todos têm vivências muito parecidos, do que é o adoecimento mental”, complementa. 

Além disso, a cultura dos bebês reborn tem sido, em muitos casos, uma prática terapêutica, envolvendo traumas da infância ou mesmo de luto perinatal. Isso foi, ainda no final de maio, acolhido pela Lei 1.640/2022, sancionada pelo presidente Lula (PT). A norma cria a Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental, garantindo tratamento e acolhimento a famílias que enfrentam a perda de um filho durante ou depois da gestação.

Nas redes sociais, perfis de pessoas que cuidam de bebês reborn já ultrapassam milhares de seguidores e milhões de visualizações. Um exemplo é o perfil de Nane Reborn, que acumula mais de 280 mil seguidores, e vídeos com até 19 milhões de visualizações no Tik Tok.

Ela coleciona bebês reborn há mais de 20 anos e faz parte de uma comunidade de criadoras, na cidade de São Paulo, que já existe há cerca de 10 anos.

O LIMITE DO HOBBY

Danos financeiros ou mesmo mudanças nas relações sociais e afetivas são alguns dos aspectos que a psicóloga clínica destaca como negativos quando as fronteiras entre a fantasia e a realidade são ultrapassadas. 

“O adoecimento mental é quando uma prática causa prejuízos na sua vida como todo, trabalho, nas relações interpessoais, relações amorosas, a questão financeira […] os bebês reborn chegam a custar 10 mil, 15 mil reais, quando mais parecidos com bebês humanos, mais caros”, reafirma Lucinara. 

Um caso recente que ultrapassou os limites da prática de criação dos bebês enquanto passatempo, foi o de uma funcionária de uma empresa de Salvador, que pediu licença-maternidade e recebimento de salário-família para cuidar de um bebê reborn. Com o pedido negado, ainda em 27 de maio, ela entrou com uma ação contra a empresa no Tribunal Regional do Trabalho da 5ª Região (TRT-BA), solicitando uma indenização de R$ 10 mil, que conforme a defesa, o motivo do processo seria o constrangimento praticado por colegas de trabalho.

Conforme os advogados, a companhia negou, sob o argumento de que o caso não envolvia uma mãe real. Já segundo a defesa, a mulher desenvolveu um vínculo materno profundo com ‘sua filha reborn’, resultado de entrega emocional, investimento psíquico e comprometimento afetivo como de qualquer mãe.

SURGIMENTO

A cultura já existe há décadas, mas ganhou popularidade recente, em especial nas redes sociais.

Com a popularização de perfis de pessoas que mostram suas rotinas vivendo com seus bebês reborn na rede social Tik Tok, o hobby se tornou pauta de debate nos últimos meses. A prática já acontece no Brasil há mais de vinte anos, mas a cultura da criação dos bonecos mais realistas nasce bem antes, por volta da Segunda Guerra Mundial, e se populariza em especial na Inglaterra.

Já no final dos anos 1980, nos Estados Unidos, a artista plástica e artesã estadunidense Joyce Moreno cria, com base em uma boneca da marca Berjusa, uma das primeiras versões mais realistas de um bebê reborn, com a técnica de pintura na pele e nos olhos do boneco, dando os aspectos reais de um corpo humano, técnica mais comum usada hoje.

ENTENDA

São diversas categorias de bebês, que vão dos prematuros e recém-nascidos até o tamanho de uma criança de 5 anos. Como a criação é feita do zero pelas chamadas “cegonhas”, muitas mães escolhem como querem os bebês, que podem variar de gênero, cor de pele, podendo até ser temáticos, como vampiros, unicórnios, ou mesmo em forma de animais, os chamados “pets reborn”. 

Na busca de valorizar a arte da criação dos bonecos, a Câmara Municipal do Rio de Janeiro aprovou, em 8 de maio, um projeto de lei para a criação do “Dia da Cegonha Reborn”, que seria comemorado em 4 de setembro, com o intuito de reconhecer o trabalho das artesãs que criam as bonecas. O PL aguardava revisão do prefeito Eduardo Paes (PSD), que poderia sancionar ou não a nova lei.  Na segunda-feira (2), o chefe do Executivo local vetou integralmente o projeto.

“Com todo respeito aos interessados, mas não dá”, justificou o prefeito.