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UFC mantém nome da Concha Acústica; ex-aluno morto na Ditadura nomeará espaço cultural

Em reunião extraordinária realizada nesta segunda-feira (18), o Conselho Universitário (CONSUNI) da Universidade Federal do Ceará (UFC) decidiu voltar atrás e manter a denominação da Concha Acústica da Universidade com o nome do ex-reitor e fundador da instituição cearense, Antônio Martins Filho, agora como “Concha Acústica Reitor Antônio Martins Filho”. Em reunião anterior, realizada em 1º de novembro, o colegiado aprovou a denominação do espaço de Bergson Gurjão Farias, o que gerou polêmico entre alguns setores políticos.

Como forma de homenagem a Bergson Gurjão, “cuja enorme contribuição na luta contra a ditadura militar e para a redemocratização do País precisa ser reconhecida”, conforme a UFC, o futuro espaço cultural da UFC no prédio da Reitoria, a ser inaugurado no próximo dia 10 de dezembro, recebará o nome de “Espaço Cultural Bergson Gurjão Farias”.

A nova assembleia teve 31 votos a favor e seis contrários. A decisão foi embasada na recente identificação, pelo Memorial da UFC, de um documento que atesta a prévia existência do nome “Auditório Martins Filho” para o auditório da Concha Acústica.

“O referido documento consiste na ata da 49ª Sessão Extraordinária do CONSUNI, realizada no dia 29 de agosto de 1959. Na ocasião, uma comissão de estudantes da Escola de Engenharia apresentou um memorial, por meio do Diretório Central dos Estudantes (DCE), no qual solicitou que fosse dado o nome do então reitor ao equipamento, o que foi aprovado por unanimidade naquele momento”, disse a UFC. A ata só foi identificada pelo Memorial da UFC no último dia 13 de novembro.

UFC

Em texto publicado no site oficial da UFC, a instituição reconhece que houve “um erro na pesquisa dos documentos que versam sobre a Concha Acústica”. Após identificar o erro na pesquisa e, consequentemente, a existência de um documento oficial que já dava nome à Concha Acústica, o reitor da UFC e presidente do CONSUNI, Custódio Almeida, convocou a sessão extraordinária, que debateu e deliberou sobre o tema ao longo de três horas.

“A decisão foi tomada tendo em vista o pleito apresentado pelo movimento estudantil à época, a biografia do reitor fundador, a memória e a história da UFC e a institucionalidade e legitimidade do próprio CONSUNI. A deliberação será convertida em Resolução do Conselho Universitário, consolidando-se a decisão tomada em 29 de agosto de 1959”, disse a UFC.

ENTENDA O CASO

A homenagem póstuma a Bergson Gurjão Farias foi sugerida por lideranças do movimento estudantil, em articulação com a Comissão de Direitos Humanos da UFC, e foi acolhida pela Reitoria como pauta a ser levada ao CONSUNI. Bergson era aluno do curso de Química da UFC de 1967 a 1969, quando foi expulso por ordem da ditadura, por sua atuação no movimento estudantil da época. Ele foi para a clandestinidade e acabou sendo morto violentamente por militares na região do Araguaia em 1972. Os restos mortais de Bergson só foram entregues à família e velados em 2009, justamente na Concha Acústica da UFC. A intenção dos estudantes e da Comissão de Direitos Humanos da UFC era nomear a Concha Acústica com o nome de Bergson.

Após o anúncio sobre a mudança do nome do equipamento, uma polêmica foi gerada em torno do assunto. O ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (PDT), filho do ex-reitor Roberto Cláudio Frota Bezerra, que faleceu em janeiro de 2023, aos 75 anos, se posicionou contra a alteração. Ele alegou que era um desrespeito à memória de Antônio Martins Filho, fundador da UFC e de outras universidades no Ceará.

VOTAÇÃO

A reunião de segunda-feira (18) foi marcada por falas contundentes. O pró-reitor adjunto de Inovação e Relações Interinstitucionais, o Prof. José de Paula Barros Neto, ressaltou que, com a localização da ata, a UFC perdeu argumentos institucionais para justificar a decisão de dar o nome de Bergson Gurjão à Concha Acústica. Para ele, no entanto, manter o já existente nome de Martins Filho na designação do equipamento não significa esquecer a memória de Gurjão. “Seu nome no futuro espaço cultural da UFC lhe dará voz muito maior. Temos que pensar como instituição”, disse.

Conselheira representante do corpo discente, Ana Mayara Silva Melo, integrante do DCE UFC, pontuou que apoiar a escolha do nome de Bergson Gurjão para a Concha não significa colocar em xeque a memória de Martins Filho. “Trata-se de uma disputa ideológica na qual não podemos retroceder. O Conselho tem autoridade e direito de debater sobre isso”, ponderou. Dandahra Ariadina Bastos, da diretoria do DCE UFC e integrante da Comissão dos Direitos Humanos da UFC, pontuou a concorrência simbólica que permeou a discussão desde o início. “Vivemos um tempo de disputa e de qual narrativa vai prevalecer. O ataque foi à intenção de nomeação da Concha Acústica com o nome de um comunista guerrilheiro, que representa valores que não são da extrema-direita”, declarou.

“Precisamos nos atentar ao nosso momento histórico. Se o CONSUNI tinha esse posicionamento em 1959, hoje teria outro, e não reconhecer isso é não deixar as engrenagens da história rodarem”, defendeu a discente.

Já o pró-reitor de Graduação, Prof. David Romero, elogiou a resolução proposta e aprovada. “Essa reunião mostra a dignidade de revisar nossos atos quando necessário. Ao mesmo tempo, a sugestão de dar ao espaço cultural o nome de Bergson Gurjão é olhar para o futuro”, frisou. Pró-reitor de Assistência Estudantil, o Prof. Bruno Rocha ratificou esse entendimento: “Não foi polêmica nenhuma que levou à reunião de hoje, foi a responsabilidade perante os fatos. Todos os conselheiros devem tomar sua decisão baseados em todas as informações disponíveis, incluindo esta nova”.