Apenas sete das 34 candidaturas de pessoas indígenas no Ceará foram eleitas no primeiro turno das eleições municipais. Entre elas está o jovem Kanindé, Victero Bruno (PSD), de 27 anos, que se tornou o vereador eleito com o maior número de votos da história do município de Aratuba, localizada no Maciço de Baturité. Foram 792 eleitores, dos 12.306 aptos a votar no último dia 6 de outubro. Com votos de todas as regiões do Município, o vereador contou o apoio do reeleito prefeito da cidade, Joerly Vítor (Republicanos).
“É uma grande conquista para a gente, enquanto povo, ocupar grandes espaços, fazendo com que consigamos ter as representatividades, fazendo com que as coisas aconteçam tanto em nível estadual como em nível nacional. Exemplo disso é a Secretaria dos Povos Indígenas, o Ministério dos Povos Indígenas, mas o que ainda falta são as demarcações das terras, que é um grande desafio”, reitera vereador eleito.
Nas eleições municipais de 2020, o vereador já havia se candidatado, mas por conta do Coeficiente Partidário, não assumiu o cargo. “Continuei na luta e no trabalho, junto com o povo e com o Município, até conseguir o resultado de ser o mais votado, acreditando que, a partir da política, a gente consegue transformar a vida das pessoas”, disse Victero. Para ele, adentrar e permanecer na política é um desafio enquanto filho de agricultor e indígena. “Não sou do grande escalão da política e a gente tentou fazer esse trabalho antes para alcançar o objetivo de ganhar”, continua o vereador, destacando a dificuldade de “enfrentar o sistema”.
Victero Bruno, além de pedagogo e líder comunitário desde 2013, passou por diversas instâncias do movimento indígena, atuou por sete anos na área da saúde, além de ter sido presidente do Conselho Local da Aldeia Fernandes, e membro da Coordenadoria de Juventude do Estado do Ceará. Uma das metas do Victero é poder levar a cultura, os conhecimentos, as lutas e pautas dos Povos Kanindé para dentro da Câmara, e assim chegar no Executivo.
“É um grande desafio ter adentrado na política. Pra mim, não importa só ganhar, mas fazer que o nosso povo consiga ocupar esses espaços políticos municipais e estaduais, públicos, dos brancos, pra gente poder conseguir melhorias para o nosso povo”, afirma.
A expectativa do vereador eleito é fortalecer a educação indígena dentro da comunidade, aumentar as oportunidades de educação para os jovens, implementação de escolas profissionalizantes, pautar questões voltadas ao meio ambiente, como a coleta e o descarte correto do lixo, bem como a criação de um CRAS focado nas questões indígenas.
ALDEIA FERNANDES
Atualmente, Aratuba conta com duas comunidades indígenas do povo Kanindé, a Aldeia Fernandes e a Aldeia Balança, além da Aldeia Feijão, do povo Karão-Jaguaribaras. A comunidade Fernandes, de Victero, conta com os líderes Cacique Sotero e Pajé Maciel, e, anualmente, realiza a “Festa do Muncunzá”, que celebra a colheita de grãos como feijão, milho e fava, advindos da agricultura familiar. “É uma comunidade muito unida. Se alguém fica doente, todo mundo se une e ajuda para que essa pessoa resolva seu problema. É um povo organizado e, quando quer abraçar uma causa, faz acontecer”, finaliza.

DEMARCAÇÃO
Para Victero, o grande desafio dos povos indígenas no Interior do Estado é a ausência da demarcação das terras indígenas. “Enquanto as terras não forem demarcadas, a gente não vai poder ter propriedade do que é nosso. Essa questão de todo mundo achar que tem direito ao território indígena, cortar lenha, a gente ainda não consegue dizer que o território é nosso. Ainda existem muitas invasões”, explica Bruno. O Estado do Ceará soma, conforme a Funai, um total de 20 povos indígenas: Anacé, Cariri, Gavião, Jenipapo-Kanindé, Kalabaça, Kanindé, Kariri, Kariri-Quixelô, Karão, Paiacu, Pitaguari, Potiguara, Quixará-Tapuia, Tapeba, Tabajara, Tapuia-Kariri, Tremembé, Tubiba-Tapuia, Tupinambá e Warão.
Apesar disso, apenas as terras Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz, Tremembé de Queimadas, em Acaraú, e a Terra Indígena Pitaguary, localizada nos municípios de Maracanaú e Pacatuba, são demarcadas fisicamente. A última foi demarcada ainda no dia 10 de outubro deste ano, pelo Governo do Ceará, por meio do Instituto de Desenvolvimento Agrário do Ceará (Idace) e da Secretaria de Desenvolvimento Agrário (SDA), em parceria com a Funai e a Secretaria dos Povos Indígenas do Ceará (SEPINCE). Já a demarcação da Terra Indígena Tapeba, em Caucaia, está prevista para novembro deste ano, conforme o Governo do Estado.
