Na imaginação infantil, as bonecas têm vida própria: se mexem, brincam, conversam e têm opiniões. Já que podem se mexer, porque não iriam dançar? É exatamente o que faz um grupo de bonecas que vive em uma loja de brinquedos e ganham vida por meio da magia. Quem quiser conhecê-las, vai encontrá-las no espetáculo “Fairy Doll”, da Escola de Dança Madiana Romcy.
Nova montagem de um clássico vienense de 1888, “Fairy Doll” terá três sessões especiais, no Teatro RioMar, neste fim de semana, no sábado (26), às 19h, e domingo (27), às 11h e às 19h. A abertura especial contará com um Minueto. O espetáculo é o 35º espetáculo da Escola de Dança Madiana Romcy, uma das mais tradicionais do Estado.
Ballet de repertório, “Die Puppenfee” (em tradução livre, “A boneca-fada”) estreou na corte de Viena em outubro de 1888, com coreografia de Joseph Hassreiter e música de Josef Bayer. A história é inspirada num clássico da literatura fantástica alemã, o conto “O homem de areia”, de E.T.A. Hoffmann.

Em sua nova montagem, entra em cena um elenco de 215 bailarinos e atores, jovens e adultos, para fazer a loja de brinquedos encantada ganhar vida e dar movimentos às bonecas-fadas. A coreografia – precisa em movimentos, técnica e harmonia – combina interpretação e dança. Efeitos cenográficos e figurinos reverenciam o clássico ao passo que o atualizam. A história é contada na ponta dos pés e no movimentos dos corpos.
“Estamos, este ano, inovando com nova tecnologia de cenário (led) e com as surpresas que acontecem no decorrer do espetáculo. Sem falar nos figurinos, que estão lindos e coloridos. Espero que esse ballet supere todos os outros que também foram lindas e grandiosas montagens”, adiantou Madiana Romcy, diretora do espetáculo e bailarina, que desde 1987 está à frente da escola que leva seu nome
INFÂNCIA
“Nas competições e nos festivais de dança, sempre apreciava o ‘pas de trois’ (coreogafia encenada por três bailarinos), do grande ballet ‘Fairy Doll’. Achei interessante montá-lo com meus alunos”, explica Madiana. Além do valor artístico e da importância do clássico vienense, a bailarina também destaca a importância da memória afetiva para a escolha do tema. “É algo que nos faz reviver a infância, com as bonecas e a representação delas de alguns países, com roupas e indumentárias características de cada lugar”, detalha.

Lúdico, o ballet passeia pelo imaginário infantil e pela história desse brinquedo que, desde a Antiguidade, ganha várias formas e é encontrado em praticamente todo os povos. A Boneca de Corda é uma dessas versões. Com movimentos sincronizados, lembra as antigas caixinhas de música. Junto com ela, várias bonequinhas de corda enchem o palco de beleza.
As Bonecas Ovelhinhas trazem a graça do mundo animal, tão fortemente retratado no universo infantil. Na montagem, são representadas pelas mais jovens bailarinas da escola, que já mostram talento e arte aos três e quatro anos de idade. A Boneca de Porcelana traz delicadeza e suavidade. Pequenas bailarinas, nas pontinhas dos pés, se juntam a ela e enchem o cenário de sorrisos. Já as Pierrettes exibem destreza, coordenação e harmonia. Um misto de interpretação e dança.
Dançam pelo palco bonecas de algodão, russas, chinesas e francesas. Cada uma, com destaque de solistas, com figurinos e movimentos impecáveis, unindo à dança, interpretação minuciosa. O corpo de baile complementa o espetáculo levando técnica, sincronia e vida a cada coreografia.
Fada-Boneca
A personagem-título do espetáculo é interpretada pela bailarina Manuela Barbazán, que dança desde os 6 anos de idade. Formada pela Escola Madiana Romcy, Barnazán tem um currículo rico em cursos, participações em concursos e até apresentações internacionais, dividindo as sapatilhas com a profissão de arquiteta. “Esse contato com a arte, a harmonia, o ritmo e a proporção me levou a escolher a arquitetura como profissão. Na Universidade de Fortaleza, ganhei uma bolsa de estudos para fazer parte da Cia. de Dança Unifor. E assim a dança foi me acompanhando, desde o começo da vida acadêmica. O ballet foi fundamental para me trazer noções de disciplina, compromisso, dedicação e muito zelo em tudo que faço. São valores que cultivei na dança e trago pra minha profissão”.

Manuela estudou profundamente o papel que recebeu no ballet “Fairy Doll”. Primeiro passou pela montagem das cenas com coreógrafos de São Paulo, depois fez o estudo de personagem com leituras e assistindo ao mesmo ballet apresentado por grandes companhias mundo afora. Na sequência, colocou sua própria essência na Boneca-Fada.
“O papel principal exige uma dedicação maior para a bailarina em muitos quesitos. Tenho me preparado fisicamente, com treinos, dieta e sono adequados. Também trabalho minha mente com disciplina e resiliência, pois sempre estamos nos exigindo muito para dar o nosso melhor em cada passo, em cada ensaio e em cada expressão. Mas sempre mantenho o entendimento que não só eu, mas todas as mais de 200 bailarinas e bailarinos, bem como toda a equipe técnica e demais profissionais complementares estão alinhados para o sucesso desse espetáculo tão magnífico”, destacou a bailarina.
Manuela tem nas palavras a delicadeza que apresenta nos palcos. É uma bailarina disciplinada e focada, porém graciosa e gentil. Passam por ela e pelos seus movimentos muitos sonhos individuais e coletivos. A jovem sabe que é inspiração para muitos e da responsabilidade que vem junto com isso. “A inspiração é, ao meu ver, o nosso dever como ser humano e a arte é capaz de nos fazer evoluir. Hoje eu estou nesse papel de inspirar outros a sonhar, acreditar e realizar. Espero poder despertar esse conjunto de sentimentos bons que o ballet é capaz de tocar dentro dos nossos corações”.
Minueto
Na temporada no Teatro RioMar, a Escola Madiana Romcy apresenta também um Minueto, que será dançado pela turma Gold, formada por ex-bailarinas e também por pessoas que sempre sonharam dançar. São vários perfis conectados por um mesmo elo: o amor ao ballet.

Foto: Divulgação/ Escola de Dança Madiana Romcy
Madiana Romcy quebra tabus e desconstrói a imagem rígida de que existe um único perfil de corpo, idade e técnica capaz de dançar ballet. Ela abriu as portas da escola para construir sonhos unindo superação, empatia e, claro, a seriedade inerente às aulas de ballet. “A turma é formada por alunas adultas, a maioria acima de 50 anos. Temos a nossa mascote, que a Juliana. Quando levamos a proposta para a turma de dançar a abertura do espetáculo a aceitação foi maior do que esperávamos. Nossa turma Gold é exemplo de que não existe idade para se aprender a dançar. Elas trabalham equilíbrio, coordenação motora, alongamento e destreza através do ballet clássico. Outra coisa é a sociabilidade, que também é importante na nossa idade”, destaca Madiana.
Angela Albuquerque, de 69 anos de idade, é uma das bailarinas da turma Gold. Estudou ballet quando criança por poucos meses. Seguiu a vida, se formou em arquitetura, casou, teve filhos, mas nunca esqueceu a paixão pela dança. Quando chegou a aposentadoria, o sonho de infância voltou a fazer o coração bater forte.
“Fiquei sabendo que na Madiana Romcy tinha uma turma para adultos e pessoas na terceira idade. Na semana seguinte, eu já estava matriculada e fazendo aula”, relembra. “Chegar aqui foi fazer uma travessia na minha vida. Deixei de lado os meus medos e, com coragem e muita vontade de dançar, venci todos os obstáculos e crenças que me impediam de me expor e buscar realizar um sonho de infância. Com pouco tempo de aula, eu observei que fazer ballet me trazia muita alegria e prazer”, avalia a bailarina.

Angela sabe que a turma Gold é emblemática, uma afirmação que o ballet é uma arte possível para todos. “Temos limites determinados pelo nosso corpo de vovós e temos que respeitá-los, mas é a vontade que nos coloca nesse lindo movimento. E a vida é movimento”, define. “O espetáculo veio nos presentear, nos gratificar. Convidei minhas amigas todas e junto com as minhas amigas bailarinas quero que elas sejam testemunhas do quanto eu me transformei! Queremos que todos da plateia sejam também testemunhas de que o ballet é sim para todos”.
O Minueto, coreografado por Douglas Motta, reúne 10 bailarinas. A turma teve aulas semanais com as professoras Renata Távora e Virgínia Cunha. As bailarinas se prepararam com afinco e dedicação. Nos encontros, aulas técnicas e momentos de meditação, fundamentais para fortalecer a autoconfiança e autocuidado.
“Vivam esse momento, aproveitem, dancem para vocês mesmas, se divirtam no palco. É um momento de vocês e passa muito rápido, são poucos minutos. Se entreguem e aproveitem cada segundo com leveza”, explica a professora Renata Távora. Ela tem um carinho especial pelas “bailarinas de ouro”. “Eu adoro essa turma. Sinto orgulho, me emociono. Daria aula para elas todos os dias. É incrível acompanhar a evolução de cada uma”.
