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Com apenas 16,3% da cobertura vegetal nativa, Fortaleza tem 60 áreas verdes vulneráveis

Estudo mostra que mais de 35% das áreas verdes naturais da cidade não estão sob proteção do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). Foto: Divulgação/ Prefeitura de Fortaleza

Duas pesquisas realizadas na Universidade Federal do Ceará (UFC) revelam preocupação com o meio ambiente e as áreas verdes de Fortaleza. Um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em graduação de Ciências Ambientais identificou que apenas 16,3% da cobertura vegetal nativa está remanescente na cidade. Dessa forma, 83,7% do ecossistema original já foi desmatado. Já um mapeamento realizado em dissertação de mestrado mostrou que mais de 35% das áreas verdes naturais da cidade não estão sob proteção do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), instituído por Lei Federal em 2000. O estudo também verificou que parte considerável da área que está dentro dos limites das unidades de conservação está atualmente desmatada. Um total de 60 áreas foram identificadas com vegetação vulnerável ao desmatamento.

Trabalho de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (Prodema), o mapeamento realizado por Laymara Xavier Sampaio, identificou que a capital cearense possui 6.098,45 hectares (ha) de áreas verdes naturais ou seminaturais. O total da área equivale a menos de 20% de todo o território da cidade, de 31.493 ha. Do remanescente da vegetação natural ou seminatural, 2.185,83 ha não estão sob proteção do SNUC.

A pesquisa foi desenvolvida com a orientação do professor Marcelo Freire Moro, do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), e foi publicada em artigo na Revista Brasileira de Geografia, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além de Laymara e Marcelo Moro, outros quatro pesquisadores assinam o artigo. Uma das pesquisadoras, Maria Lígia Farias Costa, foi a autora do TCC que identificou que apenas 16% do ecossistema natural está remanescente em Fortaleza. O estudo, com o mesmo orientador do trabalho de mestrado do Prodema, também foi submetido para publicação em revista.

Como explicou o professor orientador das duas pesquisas, as áreas verdes são “parte fundamental da malha urbana”, já que oferecem serviços como a melhoria da qualidade do ar, a redução de inundações, melhorias estéticas, redução das temperaturas extremas e conservação da biodiversidade nativa. Fortaleza é o 4º município mais populoso do País, mas, conforme o pesquisador, possui poucas áreas verdes remanescentes.

Ainda conforme ele, a pesquisa revela que a cidade está em um “momento crítico”. “A vasta maioria do município já foi desmatado e já perdemos muito do patrimônio ambiental da cidade. Infelizmente a história não foi generosa com a biodiversidade e os ecossistemas de nossa cidade”, relatou. O professor afirmou que os dados, frutos do levantamento, podem ser utilizados pelos gestores públicos.

“Espero que possamos reavaliar os rumos de nossas ações e criar uma cidade mais verde para que, em algumas décadas, entreguemos aos nossos filhos uma cidade mais ecológica e viva do que temos atualmente”, completou.

UNIDADES DE CONSERVAÇÃO EM FORTALEZA

Oficialmente, a cidade possui 14 unidades de conservação (UC). Elas estão divididas em três categorias: Áreas de Proteção Ambiental (APA), com total de 1.886,09 hectares; Áreas de Relevante Interesse Ecológico (ARIE), representando 133,35 hectares; e Parque Estadual ou Natural Municipal, com 1.897,18 hectares nos limites do município. Como mostra o trabalho de mestrado, há 2.053,98 hectares dentro dos limites de APP, conforme a Legislação Federal, mas que estão fora dos limites de UC. No estudo de Laymara, foram incluídas as seguintes unidades:

  • Parque Estadual do Cocó;
  • Parque Natural Municipal da Sabiaguaba;
  • ARIE da Floresta do Curió;
  • ARIE das Dunas do Cocó;
  • ARIE da Matinha do Pici;
  • ARIE do Cambeba;
  • ARIE Prof. Abreu Mattos;
  • APA do Rio Pacoti;
  • APA do Rio Maranguapinho;
  • APA da Lagoa da Precabura;
  • APA do Rio Ceará;
  • APA da Lagoa da Maraponga.

De acordo com a pesquisa, a primeira na lista de degradação é a APA do Rio Maranguapinho, que tem 62,5% da sua extensão já urbanizada, menos de um décimo (8,5%) com cobertura vegetal conservada e 28,9% restantes de área já com cobertura vegetal desmatada. “É importante destacar que as quatro UC mais desmatadas em Fortaleza são de categoria APA, mostrando a fragilidade que essa categoria tem na proteção aos ecossistemas”, afirma Laymara, no estudo.

A pesquisa identificou ainda que, ao redor do Parque Estadual do Cocó – considerado a maior e mais importante unidade de conservação na cidade de Fortaleza -, há áreas vegetadas que permaneceram sem nenhuma proteção legal. Contatada pelo OPINIÃO CE, a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema) explicou que essas áreas estão fora da poligonal do parque, e, portanto, não são de competência do Estado, mas do município de Fortaleza.

O estudo propõe a inclusão dessas áreas vegetadas como adições ao parque, de modo a “ampliar a cobertura de áreas verdes protegidas dentro de Fortaleza e garantir a perpetuidade dessas áreas como ecossistemas protegidos na cidade”. A pesquisa também indica fragmentos remanescentes de vegetação que não estão legalmente protegidos.

“Propomos aqui 60 áreas prioritárias para conservação de ecossistemas terrestres no município, que estão divididas entre o potencial para enquadramento como área protegida de uso sustentável (incluindo parque urbano) ou de preservação permanente”, conclui.

Para identificar as áreas urbanizadas, foi realizada classificação de uso e cobertura da terra, recorrendo a imagens do satélite capturadas em 22 de junho de 2020. Para avaliar a configuração de áreas verdes remanescentes dentro das unidades de conservação e quanto sobrou de áreas verdes não protegidas dentro do município, foram utilizadas imagens de satélite e bases de dados geográficas oficiais do município e do Governo do Estado do Ceará.