Pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) mostra que 24 cidades cearenses apresentam alto índice de vulnerabilidade climática, agrícola e social. Conforme o levantamento, outras 80 cidades estão em situação de média/alta vulnerabilidade. O resultado mostra que, dos 184 municípios do Estado, mais de 100 estão vulneráveis nos níveis alto ou médio/alto. Ao OPINIÃO CE, o analista de Políticas Públicas do Ipece, Cleyber Nascimento, explicou como funciona o levantamento, quais os seus objetivos e quais medidas podem auxiliar na diminuição do número de cidades em situação de alta vulnerabilidade.
O Índice Municipal de Alerta (IMA) tem como objetivo proporcionar uma visão dos municípios após a quadra chuvosa, que ocorre entre os meses de fevereiro e maio. O levantamento classifica as cidades em quatro classes: alta, média-alta, média e baixa vulnerabilidade. Conforme o especialista, entretanto, isso não significa que apenas os municípios em alta vulnerabilidade passem por dificuldades. “É importante reconhecer que, em anos de déficit hídrico severo, até mesmo municípios classificados como de baixa vulnerabilidade podem enfrentar situações críticas, sobretudo no meio rural”.
Neste contexto, Nascimento exemplifica ações que podem reduzir a vulnerabilidade medida pelo IMA. O analista separou as iniciativas em cinco tópicos: infraestrutura hídrica; assistência técnica; assistência social; monitoramento e avaliação; e educação e capacitação.
- Infraestrutura Hídrica: implementação de projetos para captação e armazenamento de água, incluindo a construção e manutenção de cisternas, poços, adutoras e açudes;
- Assistência técnica: programas de assistência técnica que promovam práticas agrícolas adaptadas às condições climáticas e subsídios para mitigar possíveis perdas na produção;
- Assistência Social: ampliação e fortalecimento de programas de assistência social para apoiar as famílias mais afetadas pelos desafios hídricos;
- Monitoramento e Avaliação: estabelecimento de sistemas de monitoramento para avaliar e prever as condições climáticas e agrícolas, facilitando a tomada de decisões;
- Educação e Capacitação: programas de capacitação para agricultores e gestores locais, promovendo a adoção de práticas mais eficientes e adaptativas à variabilidade climática.
Ainda segundo ele, o Governo do Estado tem implementado “continuamente” investimentos em infraestrutura hídrica, incluindo a instalação de poços, construção de cisternas, açudes e adutoras. O analista também destaca programas focados na assistência social e na convivência com o semiárido, ações que, conforme Nascimento, também são implementadas pelo Executivo estadual. Ele explica que tais iniciativas são essenciais para reduzir a vulnerabilidade no campo.
Cleyber Nascimento ressalta ainda que “fortalecer a agropecuária, com especial atenção à assistência técnica, é crucial para aumentar a resiliência climática dos municípios e promover o desenvolvimento rural sustentável no Ceará”.
RESULTADO DO IMA 2024
Como explica o Ipece, o IMA é calculado com base em 12 indicadores, que vão desde a produtividade agrícola no município, ao índice de distribuição de chuvas e situação dos sistemas de abastecimento de água. No caso, foi adotada a metodologia de padronização de indicadores para o cálculo, levando em consideração valores de 0 a 1, apontando menor e maior vulnerabilidade, respectivamente. Ou seja, se um municípios apresenta um índice próximo a 0, ele possui pouca vulnerabilidade. Quanto mais próximo de um, mais vulnerável ele é.
Conforme mostra mapa divulgado pelo levantamento, as cidades mais vulneráveis predominam nas regiões do Centro-Sul, Sertão Central, Sertão de Canindé, Sertão dos Inhamuns, Sertão dos Crateús, Vale do Jaguaribe e Cariri. Em 2024, essas áreas apresentaram índices pluviométricos relativamente mais baixos, perdas significativas de safra e predominância de culturas de subsistência. Nas regiões do Sertão dos Inhamuns e Sertão de Canindé, por exemplo, todos os municípios foram classificados como de média-alta ou alta vulnerabilidade.
Confira os 24 municípios mais vulneráveis:
- Independência: 0,8480;
- Milhã: 0,7859;
- Acopiara: 0,7742;
- Baixio: 0,7727;
- Itatira: 0,7684;
- Quiterianópolis: 0,7616;
- Umari: 0,7609;
- Pedra Branca: 0,7552;
- Saboeiro: 0,7512;
- Catarina: 0,7438;
- Ibicuitinga: 0,7373;
- Ipaumirim: 0,7343;
- Carnaubal: 0,7336;
- Senador Pompeu: 0,7299;
- Icó: 0,7264;
- Choró: 0,7240;
- Antonina do Norte: 0,7194;
- Itapiúna: 0,7174;
- Mucambo: 0,7163;
- Campos Sales: 0,7162;
- Piquet Carneiro: 0,7161;
- Irauçuba: 0,7156;
- Pacujá: 0,7101;
- Lavras da Mangabeira: 0,7096.
No comparativo entre os índices de 2023 e o deste ano, é possível observar que houve uma flutuação mínima no saldo geral da vulnerabilidade dos municípios. Enquanto 43 cidades apresentaram uma melhoria em suas classificações de vulnerabilidade, 42 enfrentaram um aumento no índice, sendo reclassificadas em uma classe mais vulnerável. Esses municípios que apresentaram piora estão situados, principalmente, nas regiões do Litoral Norte, Sertão Central, Centro Sul, Sertão de Sobral e Cariri. Conforme a entidade, esse resultado pode estar associado a condições climáticas adversas mais intensas ou a desafios específicos de infraestrutura e gestão. Além disso, 99 cidades se mantiveram na mesma classe de vulnerabilidade.
Conforme o Instituto, a análise comparativa mostra que há uma “importância crítica” na realização do monitoramento do IMA. “A capacidade de identificar mudanças nas classes de vulnerabilidade ao longo do tempo fornece, aos gestores e tomadores de decisão, evidências para orientar políticas e intervenções específicas”, explica o órgão.
“Além disso, a análise temporal permite uma melhor compreensão das tendências de vulnerabilidade e a eficácia das estratégias implementadas, contribuindo para o processo de planejamento e a tomada de decisões”, acrescentou o Ipece.
MENOS VULNERÁVEIS
Por outro lado, o grupo de baixa vulnerabilidade do IMA foi composto por 26 municípios, concentrados em regiões como a Serra da Ibiapaba, Maciço de Baturité, Grande Fortaleza, Litoral Norte e Litoral Leste. Essas áreas demonstram maior resiliência frente aos desafios climáticos e sociais, refletindo, possivelmente, melhores condições socioeconômicas, acesso a recursos hídricos e infraestrutura mais robusta.
Segundo o Ipece, a diversidade nas condições socioeconômicas e ambientais entre as regiões do Ceará ressalta a importância das estratégias serem adaptadas às realidades locais. A identificação dos padrões de vulnerabilidade de um determinado local, conforme a entidade, ajudaria a orientar quais políticas públicas possam ser mais eficazes em uma determinada região.
Nessa conjuntura, o município que registrou o menor IMA em 2024 foi Ibiapina, seguido pelas cidades de Fortaleza e Ubajara. Confira as 26 cidades em situação de baixa vulnerabilidade:
- Ibiapina: 0,2962;
- Fortaleza: 0,3773;
- Ubajara: 0,3837;
- Eusébio: 0,3863;
- Barroquinha: 0,4070;
- Guaraciaba do Norte: 0,4106;
- Maracanaú: 0,4272;
- Viçosa do Ceará: 0,4584;
- Aquiraz: 0,4656;
- São Benedito: 0,4696;
- Pacatuba: 0,4744;
- Itaitinga: 0,4764;
- Maranguape: 0,4839;
- Palmácia: 0,4857;
- Tianguá: 0,4875;
- Paracuru: 0,4888;
- Caucaia: 0,4905;
- Pindoretama: 0,4905;
- Pacoti: 0,4934;
- Uruburetama: 0,4968;
- Trairi: 0,5017;
- Cascavel: 0,5024;
- Paraipaba: 0,5040;
- Guaramiranga: 0,5106;
- Camocim: 0,5189;
- Chorozinho: 0,5298.
O cálculo do IMA é uma iniciativa conjunta do Ipece e de mais cinco entidades ligadas ao Governo do Ceará, considerando, também, censo divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Participam do levantamento a Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), a Secretaria de Proteção Social (SPS), a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) e a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh).
