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Entenda a tecnologia que pode acabar com carros-pipa no Sertão do Ceará

O município de Quixeramobim, no Sertão cearense, deve ter, a partir de 2025, um sistema inovador que visa retirar água potável da atmosfera. A inovação, conforme já explicou o prefeito do Município, Cirilo Pimenta (PSB), tem o objetivo de substituir a utilização dos carros-pipa. O OPINIÃO CE conversou com Luewton Lemos Felicio Agostinho, professor-pesquisador da Universidade NHL Stenden em Leeuwarden, na Holanda, e quem primeiro apresentou o aparelho para o Governo do Ceará, ainda em 2018.

Segundo ele, a captação da água ocorrerá utilizando um líquido hidrofílico, ou seja, que possui afinidade com a água. Como exemplo, o pesquisador citou os desumidificadores, grãos de sal de sílica colocados dentro de armários para captar a umidade relativa do ar e evitar que ocorra a geração do mofo no móvel, em decorrência da umidade.

Em Quixeramobim, a empresa holandesa SOLAq, responsável por viabilizar a tecnologia em parceria com a Prefeitura, a universidade holandesa e a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), implantará o sistema que vai dispor de um tubo giratório, com o líquido hidrofílico nas paredes de seu interior. “O ar entra no tubo, que a cada vez que gira, faz com que o ar entre em contato com o líquido. Com isso, as paredes do tubo ficam umidificadas com o líquido e ele vai coletando a água do ar”, explica.

“Com um método bem simples, que é uma balança colocada na base do tubo, você consegue acompanhar o quanto de água você está acumulando”, completa.

Ainda conforme Luewton, quando a balança alcançar um determinado volume, a água será levada a um reator, em outra parte do sistema, para ocorrer a separação da água com o sal. “O sal volta para o captador, para o tubo que fica rotacionando, para ser reaproveitado, e a água vai para ser distribuída, no qual poderá ser utilizada como água potável”.

TEMPERATURA SOLAR E SISTEMA RENOVÁVEL

Segundo o pesquisador, a proposta da empresa é que o sistema funcione integralmente com temperatura solar. De acordo com ele, a energia vai ser captada de duas formas. A primeira utilizará células fotovoltaicas, que serão usadas para gerar energia que abastecerá um motor que faça com que a etapa inicial do sistema funcione. Já na segunda maneira, serão usados concentradores solares, que, conforme Luewton, são “espelhos parabólicos que concentram energia solar em um ponto específico”. Com isso, é possível gerar altas temperaturas, a serem usadas na separação do sal e da água.

Como explicou, a separação ocorre por meio de um processo térmico. “Basicamente, se coloca o líquido hidrofílico com a água em uma alta temperatura, a água vai evaporar e o sal fica. O sal é recirculado e a água é condensada novamente para ser distribuída para o consumo”. “Então é um sistema renovável, que se propõe a funcionar somente com energia solar, até porque também é um sistema que se propõe a ser utilizado e ser instalado em comunidades difusas, carentes, de baixo custo, que normalmente o acesso energético não é tão facilitado”, disse.

TESTES

Luewton destaca que o primeiro contato do Governo do Ceará com o projeto foi ainda em 2018, quando o atual ministro da Educação, Camilo Santana (PT), era o governador do Estado. Na cidade onde está a Universidade, na Holanda, há um conglomerado chamado de Campus da Água. Nele, houve um investimento do governo do país para que empresas do setor, universidades e entidades públicas participassem de pesquisas no tratamento de água e esgoto.

De acordo com o pesquisador, naquele ano, em uma visita de Camilo ao Porto de Roterdã – município também localizado no país europeu -, o presidente da Funceme, Eduardo Sávio, solicitou ao então chefe do Executivo estadual uma ida ao Campus da Água. Conforme Luewton, Sávio já o conhecia de uma conferência. Na chegada de Camilo, o professor mostrou como o Campus e o projeto funcionam, após o governador questionar se haveria uma possibilidade de uma parceria para mitigar ou solucionar a questão dos carros-pipa no Estado.

“[Os carros-pipa] são uma operação funcional que atende à demanda dos municípios no círculo central da seca, que não têm outra forma de abastecimento, mas que se sabe que têm vários desafios”, disse Luewton.

Como possíveis problemas na entrega da água por carro-pipa, o pesquisador citou a poluição devido aos trajetos longos com emissão de gases de efeito estufa, a periodicidade da entrega da água às comunidades e a dependência na condição das estradas e do próprio entregador. “Na época, eu já apresentei a possibilidade dos sistemas Ar-Água e ele ficou muito interessado. Daí, desde 2018 começamos a trabalhar com a Funceme, que trouxe a Cagece e outras organizações como a própria Cogerh”.

Em 2020 e 2021, foram feitos os primeiros testes no laboratório da Universidade. Já em 2022, foi realizado um teste piloto em Quixeramobim, em uma escala menor, que gerou aproximadamente 300 litros por dia. “Com esses resultados bem promissores, com um cálculo de extrapolação bem simples, se conseguiu perceber que, se mantida essa mesma eficiência, um sistema maior poderia produzir até 3 mil litros de água por dia em Quixeramobim”, afirmou.