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O sertão apocalíptico

Foto: Arquivo Pessoal

Depois de algum tempo fui novamente ao teatro, não para assistir show de humor, musical ou coisas do tipo, que têm seus valores, mas fui ver um espetáculo teatral mesmo, aquela velha invenção artística que se credita aos gregos antigos, de antes de Cristo. Em cartaz: Nada de novo sob o sol do sertão, com atuação de Alcantara Costa. Pode ser que muitos considerem um monólogo, mas há um segundo personagem (imaginário?) que povoa o cenário e as cenas, dialoga com o protagonista, por vezes, irritando-o, rindo com ele, dormindo com ele, crescendo e evoluindo com aquele que parece uma espécie de autoridade, de pai.

A peça se passa talvez num futuro não muito distante em que a seca devastou um longínquo interior sertanejo. Teodoro Pacheco insiste em permanecer na sua casa, no seu lugar, mesmo sob tantas adversidades advindas da seca: fome, êxodo de toda a população, morte na secura de tudo quanto tem vida. É um sertão apocalíptico no qual há a única crença de achar uma botija farta em ouro: a salvação para Teodoro e Luiz, seu agregado.

Em alguma profundeza daquela terra o tesouro deveria estar escondido, enterrado, conforme atestado de geração em geração. Se só ele procurava, o único a ser agraciado com o velho ouro seria ele próprio. Mas se só um ser vivo se embrenhava na caça ao tesouro pelas terras áridas do sertão, seria mais difícil o encontro da preciosidade, da salvação para ele e para Luiz. Com a botija em mãos, sonha, sonham, finalmente achada, correriam mundo afora (sairiam mesmo da terra?), ricos, teriam até água.

Pacheco é o instrutor de Luiz, ora aconselhando para a vida, ora orientando o jovem sobre questões masculinas, de quem deixa de ser pueril e ingressa na virilidade. Teodoro, como bom sertanejo, também é homem sábio: torna-se um novo narrador de um novo gênesis, com sua versão da criação, da existência humana. Questionador, investigador, caçador, sempre à procura não só do bem material, mas também da imaterialidade, pode ser concebido como um filósofo do sertão.

E mais não digo. Entre enredo e interpretação, creio não ter dado spoiler. Não por ser contra revelações de partes cruciais de filmes, séries ou livros. E até poderia ser mais detalhista na descrição das cenas, das partes. Mas no caso é necessário ir assistir, mesmo se nestas impressões constasse algum spoiler. Nada como o ao vivo, o ator em palco, a encenação acontecendo.

Ao final, aplaudido(s) de pé. Bom seria ver todas as poltronas da sala do Dragão ocupadas, a plateia cheia, a arte e o talento cearenses prestigiados. Parabéns, Alcantara e todos os envolvidos na produção! Viva o teatro!