O avanço recente em pesquisas que demonstrou a relação entre o consumo de agrotóxicos e suas consequências para a saúde humana, como alterações no sistema imunológico, nervoso, respiratório, e reprodutivo, ou até mesmo no aparecimento neoplasias – proliferação descontroladas de células malignas ou benignas. Não à toa, a busca por alimentos saudáveis fez crescer a produção de produtos orgânicos e, nos últimos anos, ganhou espaço a partir das feiras agroecológicas.
No Ceará, a primeira feira desse tipo surgiu no Crato, há 21 anos. Sua organização começou a partir de duas agricultoras do Assentamento 10 de Abril, que fica a cerca de 24 quilômetros da sede do Município. Uma delas era Maria Ana da Silva, que, por conta própria, começou a vender, em um balaio grande, alface, galinha, couve, ovos e abobrinha aos funcionários da Associação Cristã de Base (ACB), entidade pioneira na difusão do sistema agroecológico na região do Cariri. “Foi aí que eles viram a necessidade de uma feira e deu certo”, lembra Ana.
ORIGEM
A Feira Agroecológica de Crato surgiu em junho de 2003 e não parou mais. A Ruas do Cariris se tornou, toda sexta-feira, uma venda ao ar livre, com alimentos sem uso de agrotóxicos e adubo químico. De lá para cá, muitas outras surgiram em vários municípios da região e tem impulsionado a economia do pequeno agricultor. “Mas essa aqui é a mãe de todas as feiras, porque deu certo”, enxerga Ana.

Na região do Sertão Central, o desenvolvimento das técnicas agroecológicas começou a partir do Sindicato Dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Quixadá em 2004, mas só se materializou na feira oito anos depois, a partir da Bodega Ecológica. “Já tínhamos um grupo de produtores organizados, que estão nessa lida contra os agrotóxicos. A feira foi uma maneira de não só ofertar os produtos, mas expor essa dinâmica de luta contra o veneno”, explica o coordenador do projeto, o agricultor Eronilton Buriti, da comunidade de Cipó dos Anjos, em Quixadá.
A feira começou em 2012, inspirada em outras regiões, como a Serra da Ibiapaba, onde acontece a Bodega do Povo, no município de Viçosa do Ceará. “Como a gente fez muito intercâmbio, nessas andanças, descobrimos e, com o tempo, ganhamos um projeto, concorremos em edital e implantamos fisicamente. A Bodega hoje conta com prédio e estrutura”, detalha Eronilton. A Bodega Ecológica de Quixadá conta, atualmente, com 26 feirantes, mas envolve o trabalho de cerca de 80 famílias de seis municípios: Aracoiaba, Banabuiú, Choró, Ocara, Quixadá e Quixeramobim. “Já estamos expandindo para Ibaretama”, antecipa o agricultor.
Em Quixadá, a feira acontece toda terça-feira, na Praça Coronel Nanam, mas tem se expandido para outros municípios. Duas vezes ao mês, o mesmo grupo expõe no Centro de Formação Capacitação e Pesquisa Frei Humberto e na Casa Comum, em Fortaleza. “É um processo importante porque são produtos agroecológicos de qualidade e, além de comercializar no Sertão, está oportunizando às pessoas da Capital terem acesso aos produtos da agricultura familiar, saudáveis, da nossa região”, enxerga Conceição Sousa, presidente do STTR de Quixadá.
Ainda não há um mapeamento de quantas feiras de produtos orgânicos e agroecológicos estão em funcionamento atualmente em todo o Ceará. Apenas o Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador e à Trabalhadora (Cetra), no entanto, possui 15 espalhadas no Estado. “Estamos na região de Sobral, Vale do Curu, no Sertão Central e em Fortaleza”, descreve a coordenadora Neila Santos.

PERCEPÇÃO
O crescimento das feiras tem um contexto. De acordo com os dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês), referentes ao ano de 2021, o Brasil já usa mais agrotóxicos que China e Estados Unidos juntos, por exemplo. Foram aplicadas 719,5 mil toneladas de venenos contra pestes em lavouras espalhadas pelo País. No mesmo ano, a China, que tem quase sete vezes mais habitantes que o Brasil, aplicou 244 mil toneladas. Já os EUA aplicaram 457 mil toneladas. Juntos, eles usaram 701 mil toneladas. A situação tem preocupado, cada vez mais, os consumidores.
“É importante para a gente consumir um produto sem veneno, fortalecer a economia dos pequenos produtores. Muitos vivem disso. É importante fazer com que essa produção aumente, persista, resista e ela exista”, avalia a professora Anamara Alencar. Além da questão da própria saúde, outros clientes enxergam diferenças no que é exposto em supermercados, por exemplo. “A qualidade é melhor e ainda dura uma semana inteira”, justifica a contadora Deise Figueiredo.
A engenheira agrônoma Juliana Bezerra acredita que o contato mais próximo com o agricultor aumenta a confiança dos clientes. “Eles sabem de onde vem, criam vínculo, mas também há um aumento na consciência sobre segurança alimentar e nutricional da população em geral”, acredita. O contato com o mercado também é importante para o agricultor. “Ele entende melhor a demanda, o que precisa produzir”, enxerga.
