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Despejo de esgoto no Riacho do Rosário preocupa moradores

O riacho do Rosário nasce no sopé da Serra de São Pedro, em Caririaçu, no Cariri cearense, seguindo em direção à região Centro-sul para desaguar no Rio Salgado, principal afluente do Rio Jaguaribe. Porém, no seu trajeto, moradores da zona rural de Lavras da Mangabeira denunciam haver um constante despejo de esgoto no curso d’água. Uma edificação, que serviria de estação de tratamento, está abandonada há mais de uma década no distrito de Quitaiús e agrava a situação.

Para entender a problemática, é preciso compreender a geografia local. O riacho do Rosário, após nascer no território de Caririaçu, é barrada no distrito de Quitaiús, em Lavras da Mangabeira, formando o açude homônimo com capacidade para armazenar cerca de 45 milhões de metros cúbicos de água. O recurso hídrico é responsável por abastecer a sede de Lavras da Mangabeira, que fica a cerca de 28 quilômetros do reservatório.

O principal problema, segundo os moradores, ocorre após a barragem. O distrito de Quitaiús possui cerca de 6 mil habitantes e as casas ligadas à rede despejam seus efluentes diretamente no riacho. A situação se amplia a todo o município. Segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), Lavras da Mangabeira possui 4.335 ligações de esgoto, mas nada dele é tratado. Os dados são de 2022.

A poucos metros do riacho, a nossa reportagem identificou um prédio com pintura verde, na margem de uma estrada vicinal. Cercado por arame farpado, a área possui uma placa, mas devido à ação do tempo é impossível identificar o que está escrito nela. “Isso aqui nunca funcionou não”, confidencia um morador, que preferiu não se identificar.

Ali, segundo a população, seria a estação de tratamento de esgoto do distrito, que nunca funcionou. O prédio foi erguido há, pelo menos, 11 anos. Em julho de 2012, por exemplo, o distrito sofreu com o esgotamento precário, onde as casas foram invadidas por dejetos, após a tubulação de escoamento entupir. Na época, já existiam denúncias de que o efluentes domésticos de Quitaiús estavam sendo despejados no leito do Riacho do Rosário.

PREOCUPAÇÃO

Com a suspeita de poluição no riacho, as comunidades que ficam abaixo do Açude do Rosário estão apreensivas, principalmente porque convivem há dois anos com a falta de abastecimento d’água. Sem acesso ao recurso hídrico, costumam recorrer ao riacho. “Estamos sendo prejudicados. Tem gente consumindo essa água. O problema é sério”, acredita Amarílio Bezerra, da Associação dos Trabalhadores Vale do Rosário, que abrange o Sítio Banco e Vitorino.

As duas comunidades somam 62 famílias que sofrem com a falta d’água, que já foi fornecida pelo Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar). “As chuvas são pouca, a água pouca. A nossa felicidade é que alguém, aqui e acolá, tem uma cisterna. Eu mesmo, ainda bem que tenho um resto de água de chuva. Se não tivesse, o negócio pegava”, desabava Amarílio.

Segundo o Sisar, a falta de abastecimento nas comunidades do Vale do Rosário se dá pela falta de energia elétrica em dois pontos: na captação da água, no Açude do Rosário, e na estação de tratamento. Isso ocorre devido a um débito de cerca de R$ 40 mil de uma associação comunitária vizinha. Contudo, a Prefeitura de Lavras da Mangabeira já solicitou à Enel a titularidade da dívida para que o sistema de abastecimento seja religado ainda neste primeiro semestre.

IMPACTOS

O engenheiro ambiental Marcos Vinícius Furtado acredita que a bacia do Rosário pode receber fontes poluidoras pontuais e difusas. A primeira, são aquelas que é possível visualizar em determinado ponto de onde está vindo, como o esgoto doméstico. Já a segunda, se trata de poluição difundida em todo o território, que pode ocorrer por conta da agricultura e da agropecuária, por exemplo, que utilizam agrotóxicos e atividades de desmatamento. “Tudo isso carreado na água vai levar tanto os nutrientes, que vem da agricultura, e nitrogênio e fósforo, que estão presentes no solo”, explica.

O lançamento de esgoto, por si só, traz uma carga grande de matéria orgânica, assim como fósforo e nitrogênio. Isso causa o processo de eutrofização, que se trata de uma modificação no ecossistema. “Quando você lança muita matéria orgânica naquele ambiente, você vai ter um ambiente propício para proliferação de bactérias. As bactérias vão crescer e consumir o oxigênio que está presente no corpo hídrico e é responsável por toda manutenção daquele ecossistema, ao passo que os nutrientes farão com que cresça a vegetação aquática”, detalha Marcos.

“Quando há uma interferência, como na poluição por esgoto, ele intensifica o processo que ocorreria ao longo de séculos ou milênios para décadas”, acrescenta o engenheiro ambiental. Hoje, o Açude do Rosário já possui uma abundância de vegetação macrófita sobre a superfície da água. “Muito provavelmente aquilo ali é um indicativo de um processo de eutrofização já avançado”, alerta Marcos.

Todo esse processo pode trazer prejuízos à fauna aquática, como mortalidade dos peixes, por exemplo. Contudo, a água também pode ficar com baixa qualidade e trazer riscos para o consumo humano. “O lançamento de efluente doméstico pode trazer um excesso de bactérias, uma abundância de patógenos”, observa o pesquisador. “Ao passo que eu vou ter uma água de pior qualidade, eu terei que também aumentar investimentos em processo de tratamento”, complementa.

Um detalhe importante, observado pelo pesquisador, é que todo corpo hídrico tem sua capacidade de recuperação, a autodepuração, sendo um processo de sucessão ecológica, onde o riacho pode se regenerar. “Porém, se eu fico constantemente colocando fontes de poluição naquele local, essa capacidade de autodepuração vai se perdendo e o corpo hídrico vai perdendo essa capacidade de autorregenerar”, conclui.

Estudos
A pedido da comunidade, o Laboratório de Limnologia e Aquicultura da Universidade Regional do Cariri (URCA) realizou estudos preliminares que não verificaram, visualmente ou por análise de água e sedimento, nenhuma característica ou resultados que apontassem para forte impacto ambiental no riacho do Rosário, nos quatro pontos de coleta os quais a equipe foi conduzida. As análises mostram um ambiente com perturbações, mas que não comprometem a vida aquática, informou por nota.

Procurada por nossa reportagem, a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) disse que “não opera o sistema de esgoto dessa localidade”. Já a Prefeitura de Lavras da Mangabeira recebeu o nosso contato por e-mail e telefone e informou que iria apurar a situação da estação de tratamento abandonada, mas acabou não retornando a solicitação do Opinião CE até a publicação desta matéria.