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Defesa Civil isola prédio histórico no Crato após parte da estrutura desabar

Foto: Arquivo Pessoal Waldemar Arraes

Erguida há mais de dois séculos, o prédio da antiga Casa de Câmara e Cadeia de Crato, que abriga o Museu Histórico J. Figueiredo Filho e o Museu de Artes Vicente Leite, foi isolado pela Defesa Civil, na última terça-feira (5), após parte de uma parede no pavimento desabar. Fechado há cinco anos, a edificação se vê ameaçada de ruir pelo tempo e as chuvas dos últimos dias evidenciaram esta preocupação. Há cinco anos, o Município possui um projeto de restauração, mas que ainda não saiu do papel.

A construção da Casa de Câmara e Cadeia do Crato ocorreu ao longo do século XIX, tendo sido iniciada em 1816 e concluída em meados de 1883. O prédio, que é tombado a níveis estadual e municipal, abrigou as primeiras sedes da Câmara Municipal e da Prefeitura, no piso superior, enquanto no térreo funcionou a primeira cadeia pública de Crato.

O arquiteto Waldemar Farias explica que, dentre outras características peculiares, o edifício histórico do Crato se destaca por possuir, na área da cadeia, uma enxovia em formato de abóbada, feita em alvenaria de tijolo, onde se supõe que ficavam os presos mais perigosos. “Talvez seja a de maior dimensão em prédios como este”, destaca. Lá, chegou a funcionar simultaneamente, no início do século XX, o Fórum, a Prefeitura, a Câmara Municipal e a Cadeia Pública.

SITUAÇÃO

Como uma das poucas edificações de casas de câmara e cadeia de pé no Ceará, o museu já chegou a ficar quase uma década fechado por problemas em sua estrutura. O Museu de Artes, inclusive, completou 18 anos sem receber público, pois antes disso já tinha sido interditado. Em 2008, iniciou-se uma reforma que apresentou irregularidades, como a colocação de forro de gesso, que teve que ser retirado. Ao refazer a prestação de conta, a empresa contratada abandonou a obra.

“O prédio sofreu um lento processo de transformação para chegar ao aspecto arquitetônico em que hoje se encontra. Sempre tratada como depósito insalubre de seres humanos e quase sempre esquecida pelos governantes”, reforça Waldemar. O Crato vem registrando chuvas há oito dias consecutivos, agravando a situação, evidenciando rachaduras no prédio. “Esta situação tem que ser revertida. A gente espera que o edifício seja brevemente restaurado e revitalizado, pois o alerta à sociedade já foi dado pelas chuvas”, completa o arquiteto.

RESTAURAÇÃO

A Secretaria de Cultura de Crato, desde 2017, tenta conseguir a restauração da Casa de Câmara e Cadeia. O primeiro passo foi a elaboração de um projeto em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que estuda aquele espaço desde 1940. Com ele em mãos, iniciou a busca de recursos para sua restauração.

O atual titular da pasta, Amadeu de Freitas, explica que o projeto foi concluído e aprovado pela Secretaria de Cultura do Estado (Secult), responsável pelo tombamento do prédio. Contudo, desde outubro de 2021 até agora, foram feitas oito licitações e todas deram “deserta”, que é quando nenhuma empresa se inscreve no processo. “A gente vai lançar novamente. Até a próxima semana deve ser publicado. Estamos divulgando”, completou.

A gestão tem esbarrado na dificuldade de encontrar uma construtora especializada na restauração de prédios históricos. Por causa desse obstáculo, a Secretaria de Cultura de Crato conseguiu que a Coordenadoria de Patrimônio Cultural e Memória (COPAM) flexibilizasse essa exigência. “Se a empresa demonstrar que há um profissional, um engenheiro, no ramo e que já tenha experiência com prédio tombado, poderá participar”, reforçou Amadeu. O valor total investido é de cerca de R$ 1 milhão, que contempla a restauração e uma obra complementar de ampliação de outras salas.

Enquanto a restauração não começa, a pasta informou que está sendo feito um trabalho de manutenção. “A primeira medida foi isolar a calçada, evitar que machuque as pessoas. A segura é de contenção. Fizemos o retelhamento e colocamos uma lona para conter a água para evitar que chova na área que cedeu”, explica.

Waldemar reforça que a preservação de edifícios históricos tem um papel fundamental na conversação da identidade cultural e na compreensão da história de uma localidade. “As lembranças que chegam hoje, sejam elas mediante documentos, edifícios ou espaços urbanos, são formas concretas de se conhecer o passado. A preservação de edifícios e espaços urbanos antigos é importante, por ser a partir deles que se tem as referências de memória de uma comunidade”, finaliza.