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Pesquisador que liderou testes de vacina contra dengue no CE projeta disponibilização no SUS

O infectologista Ivo Castelo Branco Coelho, professor da Faculdade de Medicina da UFC, liderou os testes de ambas as vacinas no Ceará. Foto: Jr. Panela/UFC

As vacinas que combatem a dengue e a chikungunya deverão estar disponíveis para toda a população, ainda neste ano, através do Sistema Único de Saúde (SUS). Ambas foram desenvolvidas pelo Instituto Butantan. O médico infectologista Ivo Castelo Branco Coelho, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), liderou os testes de ambos os imunizantes no Estado. Ao longo do processo, a UFC foi uma das instituições envolvidas nos estudos das vacinas, através do Núcleo de Medicina Tropical, coordenado por Castelo Branco.

Ao todo,16 mil voluntários foram imunizados com a vacina contra a dengue em todo o Brasil. Do total, 1.300 foram imunizados na UFC. O investimento total foi de cerca de R$ 850 mil para a realização dos testes e para o acompanhamento dos voluntários.

De acordo com Ivo Castelo, responsável pelos testes no Ceará, ao longo do acompanhamento foram observados os efeitos colaterais dos voluntários. “Ao longo de cinco anos de acompanhamento, a gente observou se as pessoas tinham tido efeitos colaterais, se tinham gerado anticorpos, se tinham contraído dengue ou outras doenças. Fazíamos visitas periódicas e registramos tudo, se elas tinham tido febre, dor de cabeça, qualquer coisa. Eles também podiam entrar em contato com a gente 24 horas por dia, explica.

O professor assina um artigo científico publicado na semana passada no periódico internacional The New England Journal of Medicine, o qual confirma que a nova vacina do Butantan possui eficácia de 79,6%. O estudo revela também que a eficácia da vacina foi avaliada se a exposição prévia ou não aos vírus da dengue poderia mostrar algum problema. Em pessoas que já haviam contraído a doença antes do estudo, a proteção foi de 89,2%. Já entre aquelas que nunca tiveram dengue, a eficácia foi de 73,5%. Não foi observado nenhum caso grave ou com internação, nesse período.

A vacina tem ação contra os quatro tipos de dengue registrados e tem como um dos principais diferenciais o fato de ser aplicada em dose única. A UFC entrou em 2016 nos estudos, durante a chamada fase III, que é quando o imunizante é testado em diversas populações para observar como ele se comporta. Ao todo, foram 16.235 voluntários de 2 a 59 anos, avaliados por 16 centros de pesquisa de diferentes regiões do Brasil. A vacina foi administrada em 10.259 pessoas, e o restante recebeu placebo.

“Essa vacina tem diversas vantagens diante das já existentes. Primeiro, porque ela é de dose única. E garante uma imunidade de cerca de oitenta por cento. Além disso, ela é duradoura, até agora, com um acompanhamento de cinco anos. E mais: ela mostrou pouquíssimos efeitos colaterais”, comemora o pesquisador. “Até março, terminaremos o último grupo, que é formado por crianças, que foram as últimas a entrarem nos testes”, informou o professor.

Tanto a vacina da dengue quanto a da chikungunya estão em fase de aprovação pela Anvisa e serão produzidas pelo Instituto Butantan. Foto: Guilherme Braga/UFC

Atualmente, a vacina está em fase de aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e deve ser concluída em breve, devido à situação epidemiológica de aumento de casos das arboviroses.

Além da vacina da dengue, o professor vem trabalhando, na fase III, nos estudos da vacina contra a chikungunya, também transmitida pelo mesmo vetor, o mosquito Aedes aegypti. Os testes foram em adolescentes de 12 a 17 anos que residem em áreas endêmicas de Fortaleza. 

A vacina está sendo desenvolvida em uma parceria entre o Instituto Butantan e a empresa de biotecnologia franco-austríaca Valneva. A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, já aprovou, em novembro do ano passado, a aplicação do imunizante para pessoas maiores de 18 anos. Essa aprovação deve acelerar decisão semelhante por parte da Anvisa, no Brasil. Além da capital cearense, foram feitos testes em São Paulo (SP), São José do Rio Preto (SP), Salvador (BA), Belo Horizonte (MG), Laranjeiras (SE), Recife (PE), Manaus (AM), Campo Grande (MS) e Boa Vista (RR).

DENGUE NO BRASIL

A explosão de casos de dengue em diversas regiões do País neste início de 2024 fez com que pelo menos quatro unidades da federação decretassem situação de emergência em saúde pública. Acre, Minas Gerais e Goiás, além do Distrito Federal, já decretaram situação de emergência. Além dos estados, a cidade do Rio de Janeiro e Tangará da Serra, no Mato Grosso, decretaram situação de emergência na saúde pública por conta da epidemia de dengue.

Conforme informativo do Ministério da Saúde, nesta sexta-feira (9), 53 pessoas morreram em razão da dengue em todo o País neste ano. O número de casos prováveis da doença é de 395.103. Minas Gerais é o estado com o maior volume de casos. Somente em 2024, 136 mil pessoas foram contaminadas. Proporcionalmente ao número de habitantes, o Distrito Federal lidera o ranking, com 48.840 casos – ou seja: 1,733,7 casos para cada 100 mil pessoas.

UFC

A Universidade Federal do Ceará é um dos sete centros do País que estão realizando os testes. Ao todo, aproximadamente 760 voluntários no Brasil foram testados, sendo cerca de 150 deles testados no Núcleo de Medicina Tropical da UFC, coordenado pelo Prof. Ivo Castelo Branco Coelho. O professor foi convidado pelo Instituto Butantan para participar dos dois estudos em virtude dos trabalhos que já vinham sendo feitos pelo pesquisador há diversos anos com doenças tropicais. Um deles, inclusive, desenvolvido com uma equipe da Organização Mundial de Saúde (OMS), foi responsável pela mudança na classificação internacional da então chamada dengue hemorrágica, hoje denominada dengue grave.