Em vídeo tornado público nesta sexta-feira (9) pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) aparece em reunião orientando seus ministros a questionar as urnas e o papel do Poder Judiciário. Na ocasião, o ex-chefe do executivo pedia para que sua equipe ministerial disseminasse informações que colocassem os dois temas em dúvida. Também no momento, Bolsonaro pedia “providências” para se manter no poder. O vídeo foi gravado no dia 5 de julho de 2022, antes das Eleições Gerais, realizada em outubro do ano. A divulgação das imagens veio durante a investigação da “Operação Tempus Veritatis“, deflagrada pela Polícia Federal (PF) na última quinta-feira (8).
Demonstrando preocupação com uma possível vitória do então candidato e agora presidente Luís Inácio Lula da Silva (PT), Bolsonaro cobrou que seus ministros adotassem discursos de tom crítico a instituições como o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele diz ainda que buscaria apoio junto a embaixadores.
“Vamos esperar chegar 2023 e 2024 para se f…? [e depois se perguntar] ‘por que eu não tomei uma providência lá atrás?’”, questionou Bolsonaro. Na sequência, ele ordenou aos ministros que adotem sempre o seu mesmo discurso.
“PROVIDÊNCIAS” PARA SE MANTER NO PODER
Ao longo do vídeo, gravado em 5 de julho de 2022, Bolsonaro diz que deveriam ser tomadas “providências” para mantê-lo no poder. O ex-presidente cita, ainda, uma série de argumentos que deveriam ser reproduzidos por seus ministros. Segundo Bolsonaro, tal “providência” não envolver o uso de força. Dirigindo-se ao ex-ministro da Defesa, o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, ele acrescentou: “Não é dar tiro. ‘Ah, Paulo Sérgio, vamos botar as tropas nas ruas, tocar fogo e metralhar’. Não é isso. Daqui para frente, quero que todo ministro fale o que vou falar aqui. E se o ministro não quiser falar, vai ter que falar para mim por que ele não quer falar… Agora, se não tiver argumentos para me demover do que eu vou mostrar, não vou querer papo com este ministro. Está no lugar errado”.
“Nós sabemos que, se a gente reagir depois das eleições, vai ter um caos no Brasil. Vai virar uma grande guerrilha, uma fogueira, o Brasil. Agora, alguém tem dúvida de que a esquerda, como está indo, vai ganhar as eleições? Não adianta eu ter 80% dos votos. Eles vão ganhar as eleições”, diz o ex-presidente.
Mais adiante no vídeo, Bolsonaro diz saber que não ganhará “guerra de papel e caneta”, e cobra mais contundência nos discursos dos ministros, e diz que fará o mesmo junto a embaixadores. “A gente tem de ser mais contundente, como vou começar a ser com os embaixadores. Porque, se aparece o Lula com 51% no dia 2 de outubro, acabou. A gente deve reagir ou vai ser um caos. Vai pegar fogo no Brasil”, disse. Em outro momento, Bolsonaro informou sobre uma reunião que teria com “metade dos embaixadores” e que, na semana seguinte, falaria com “a outra metade”, bem como autoridades do Judiciário, para mostrar o que, segundo ele, “estaria acontecendo”.
CRÍTICAS AO STF
O ex-presidente, então, levanta suspeitas sobre a atuação dos ministros do STF Edson Fachin, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes. “Os caras estão preparando tudo para o Lula ganhar no primeiro turno, na fraude”.
“Alguém tem dúvida do que vai acontecer no dia 2 de outubro? Qual resultado que vai estar às 22h na televisão? Alguém tem dúvida disso? Aí a gente vai ter que entrar com um recurso no Supremo Tribunal Federal. Vai pra p… Ninguém quer virar a mesa, ninguém quer dar o golpe. Ninguém quer botar a tropa na rua, fechar isso, fechar aquilo. Mas nós estamos vendo o que está acontecendo. Vamos esperar o quê?”.
Ainda conforme o presidente, o Supremo é “um poder à parte”. “É um super-supremo. Ele decide tudo. Muitas vezes fora das quatro linhas. Não dá para a gente ganhar o jogo com o pessoal atirando tijolo da arquibancada em cima dos nossos jogadores, com juízes que a toda hora dão impedimento. É difícil a gente ganhar o jogo assim”.
A OPERAÇÃO
A Operação Tempus Veritatis foi deflagrada pela PF na última quinta para investigar uma suposta organização criminosa cuja atuação teria resultado na tentativa malsucedida de golpe de Estado no 8 de janeiro de 2023. Durante as investigações, foi encontrado um documento em que mostra argumentos para um estado de sítio no Brasil, na sala do ex-presidente na sede do PL, em Brasília-DF.
Na decisão apresentada pelo STF, o ministro e presidente do Supremo, Alexandre de Moraes, diz que a investigação da PF concluiu que a “organização criminosa” atuava em cinco eixos, e que um deles seria dedicado a atacar “as instituições [STF, TSE], o sistema eletrônico de votação e a higidez do processo eleitoral”.
“Na presente representação, a Polícia Federal enumera os núcleos de atuação do grupo criminoso, existentes e atuantes para operacionalizar medidas para desacreditar o processo eleitoral; planejar e executar o golpe de Estado e abolir o Estado Democrático de Direito, com a finalidade de manutenção e permanência de seu grupo no poder”, afirmou Moraes.
