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Cientistas políticos analisam Pesquisa Atlas sobre as Eleições para a Prefeitura de Fortaleza

Prefeito de Fortaleza, José Sarto (PDT), e o presidente do Diretório Estadual do União Brasil, Capitão Wagner (União Brasil), aparecem na liderança das intenções de votos na pesquisa. Fotos: Natinho Rodrigues e Reprodução/Redes Sociais

Conforme levantamento realizado pela Atlas Intel sobre as eleições municipais de Fortaleza deste ano, o prefeito José Sarto (PDT) e o presidente do União Brasil no Ceará, Capitão Wagner lideram a disputa, em empate técnico. Ao OPINIÃO CE, os cientistas políticos Emanuel Freitas da Silva e José Cleyton Vasconcelos Monte analisaram o resultado.

Segundo Emanuel, mesmo com a liderança exposta de Sarto e Capitão Wagner, o levantamento diz mais respeito à quem a população conhece do que aos votos que serão computados na Eleição. “Isso [o cenário apresentado pela pesquisa] diz respeito aos dois mais conhecidos, o Sarto, que é o prefeito, e o Wagner, o candidato nas duas últimas eleições e o mais votado para governador em Fortaleza”, disse. “O que ela diz é assim: os eleitores esperam que esses dois sejam candidatos. Mais do que espera, eles sabem que esses dois serão candidatos”.

“À medida que os meses vão se passando, que as decisões partidárias forem se dando, a pesquisa tende a mudar, obviamente”, completou.

Acerca do resultado da pesquisa, o especialista apontou que a disputa na Prefeitura é, sobretudo, sobre uma questão: “o Sarto foi ou não um bom prefeito?”. Se não for considerado, segundo Emanuel, o eleitor tem a tendência de pensar “retrospectivamente”. Ou seja, recorrer ao último candidato que disputou contra o Sarto: Capitão Wagner. “Então, se eu não acho o Sarto bom, talvez a minha escolha pelo Wagner teria sido a mais acertada. Então ele lembra e, imediatamente, dá logo o voto para o Wagner”.

O prefeito José Sarto, apesar de aparecer na liderança da pesquisa, surge com uma rejeição de 45% dos entrevistados. Emanuel afirmou que há pesquisas que colocam o “regular” dentre os que aprovam a gestão, e outras colocam “regular” como aqueles que a desaprovam. “Então, entre esses regulares, tem aquele que diz assim: ‘ah, está ruim, mas poderia ser pior com a oposição’. Então daí essa aparente contradição entre os dois índices, de desaprovação da gestão e, ao mesmo tempo, de intenção de votos do prefeito”, explicou. De acordo com Cleyton Monte, a tendência é de que haja uma melhora da avaliação da gestão Sarto. “[A melhoria] já vem desde setembro, outubro do ano passado, a partir do anúncio de um programa de investimentos, da questão do passe livre, de uma série de programas que ele colocou em ação que foram melhorando a Gestão“, disse. 

“E é natural que, ao longo de 2024, a Gestão invista mais em comunicação. Ao investir mais em comunicação, ela vai ficar mais visível para a população. Esse número que foi apresentado acerca da intenção de voto do prefeito Sarto vai melhorar“, afirmou.

Como explicou Cleyton, há momentos em que a população aprova a Gestão, mesmo desaprovando o gestor. “De uma forma geral, a população tem uma visão de que a Gestão começou. Porque nos dois primeiros anos a ideia era de que não existia gestão (própria), de que era uma mera continuidade do Roberto Cláudio. Então existe uma ideia de que há uma gestão, mas não se aprova o gestor, a liderança de Sarto. Por isso, que a gente vê essa essa desaprovação”.

A desaprovação, contudo, já foi maior, observa o cientista político. “Lembro de pesquisas eleitorais de intenção e de avaliação de Gestão no começo do ano passado. (…) Dentro de uma perspectiva temporal, a avaliação do Sarto no começo do ano passado, 2023, e no final de 2022 era muito ruim, tanto é que isso impactou muito o resultado do Roberto Cláudio em 2022 [para o Governo do Estado]. Então mesmo esses dados de avaliação não sendo bons, ele ainda é bom se comparado ao que tinha antes“.

É um dado importante que coloca, definitivamente, o Sarto como uma figura competitiva. Até meados do ano passado, a avaliação dos atores políticos no cenário de Fortaleza era de que Sarto era carta fora do baralho. Essa pesquisa mostra que o Sarto está vivo. Tem um partido, tem apoio da Câmara e tem a máquina municipal, que é importante e tem poder de investimento. Então não é um prefeito amarrado, é um prefeito que tem recurso de investimento”.

Sobre Wagner, o especialista disse que uma “desidratação” das intenções de voto é esperada. “Porque o André Fernandes [PL] disputa voto com ele dentro de uma mesma fatia do eleitorado. A partir do momento que o André Fernandes for cada vez mais colocado como candidato, isso vai frear um pouco a intenção de voto do Capitão Wagner“. Ou seja, nos próximos meses, conforme o cientista político, o quadro vai mudar com melhoria de Sarto e queda de Capitão Wagner. “[Capitão Wagner] ainda está muito dentro daquela questão do ‘recall’ das últimas campanhas. Ele é uma figura que é lembrada e teve votações importantes nas últimas eleições”.

“RESULTADO DO EVANDRO É DEVIDO AO PT”

A pesquisa mostra dois cenários devido à indefinição do PT em relação ao seu candidato para o pleito. No partido, há a disputa entre cinco nomes: o presidente da Assembleia Legislativa do Ceará, Evandro Leitão (PT); os também deputados estaduais Larissa Gaspar (PT) e Guilherme Sampaio (PT); a deputada federal Luizianne Lins (PT); e o ex-deputado federal Artur Bruno (PT). Dentre os cinco pré-candidatos, Evandro e Luizianne são os mais propensos a disputar as eleições. Nos dois cenários, os dois aparecem em terceiro lugar na pesquisa. De acordo com Emanuel, os índices mostram que “o PT é uma terceira força na cidade de Fortaleza”.

“A pesquisa mostra que o PT é uma força eleitoral importante na cidade, que não é desprezível, tanto que o terceiro lugar, de uma pesquisa ou de outra, é do PT”, disse.

Segundo ele, em relação a Evandro, o percentual que o partido conquistou não é referente ao deputado. “Esse percentual não é do Evandro, esse percentual é do PT. Porque o Evandro ainda não é conhecido na cidade a ponto de pontuar assim, ele tá aí aparecendo como candidato do PT, para mostrar que o PT é uma força política importante na cidade apesar das três últimas derrotas nas Eleições Municipais”, afirmou. “Tem uma frente de construção do nome do Evandro como o nome do PT. O grande desafio vai ser esse: construir o nome do Evandro como o nome do PT”, continuou.

A ex-prefeita de Fortaleza, Luizianne Lins, aparece com uma rejeição de 46% dentre os entrevistados para o levantamento. Segundo Cleyton, há um “risco” quando se começa uma campanha com a rejeição alta. “As pessoas dizem que ‘tem como reverter uma rejeição’. Tem, mas, para você reverter, você tem que ter uma coligação grande e muitos recursos. Me parece que o Evandro Leitão tem maior poder de agregar, ele consegue trazer mais partidos, tem uma menor rejeição e, claro, vai entrar na disputa dentro do partido”.

O cientista político destaca esse embate interno. Apesar de Evandro ter se filiado em um evento que contou com a presença de “todos os grandes expoentes do partido”, Cleyton Monte explica que isso não significa que a Luzianne seja ‘carta fora do baralho’. “Ela tem força de vontade e militância, o PT ainda é um partido que tem relação com a militância, principalmente em Fortaleza. Se fosse em outra cidade, a gente poderia dizer que um acordo de cúpula resolveria, mas em Fortaleza tem que passar pela militância. E aí está o trunfo da Luizianne“.

INTENÇÃO DE VOTOS POR RECORTE SOCIOECONÔMICO

O levantamento traz ainda o índice de intenção de votos pelo recorte socioeconômico. Dentre os entrevistados que possuem renda familiar mensal de até R$ 2 mil, Wagner aparece com 42,7%. Da parcela que possui renda de R$ 2 mil a R$ 3 mil, a disputa está mais equilibrada, com 27% para o presidente do União Brasil Ceará e 25,8% para o prefeito Sarto. Dentre aqueles que possuem renda de R$ 3 mil a R$ 5 mil, Sarto vence com sobra, com 69,6%. Já para os que têm renda familiar mensal de R$ 5 mil a R$ 10 mil, Evandro aparece com 51,4% das intenções. Os entrevistados com renda acima de R$ 10 mil mostraram, em sua maioria (49,8%), que ainda não sabem em quem votarão.

De acordo com Emanuel, os resultados têm uma explicação: “Primeiro, o Evandro, que vamos dizer que aparece entre a ‘classe A’, é exatamente aquela classe que está mais a par dos assuntos da política, então é quem primeiro se interessa e se inteira daquilo que está acontecendo como movimentação política. É a classe mais escolarizada, portanto, é a classe que lê jornais e está a par das movimentações. É onde ele é mais conhecido, portanto, a preço de hoje, onde seria mais votado”. Cleyton completa, apontando que, apesar de Leitão ser o presidente da Alece, a visibiliade dele ainda está restrita aos bairros da elite da Capital, como Varjota, Papicu e Aldeota. “Eu acredito que o Evandro quer primeiro unificar o seu nome para depois buscar espaço. Mas ele ainda não dialoga com as periferias, que é onde está grande parte da população de Fortaleza”. Sobre os nichos dos outros dois candidatos, Emanuel continuou.

“As classes D e E, que é aquela onde o Wagner tem melhor desempenho, é aquela classe que mais sofre as consequências daquela pauta que, possivelmente, ele seria o ‘expert’, que é a falta de segurança. Então são os mais afetados pela onda de violência, pelo domínio das facções… Então, o Wagner é quem melhor responderia a esse eleitorado. E o eleitorado do Sarto, que poderia colocar classe B e C, é o eleitorado onde o Sarto continuou obras importantes do governo Roberto Cláudio. Havia essa crítica de só um lado da cidade ser contemplado pelo trabalho da Prefeitura durante o mandato do Roberto Cláudio e, em certa medida, o Sarto também continuou nisso”, completou.

Cleyton ressalta que Capitão Wagner pode encontrar no apoio da maior parcela da população o caminho para a sua eleição. “Ele está na maior parte da população. A população de Fortaleza é uma população majoritariamente que ganha até dois salários mínimos, é um nicho que é o maior grupo social eleitoral político. Como acrescentou o especialista, dos três principais candidatos apontados pela pesquisa, Evandro é o único que ainda não tem uma ‘bandeira’ que possa ser identificada. “O Sarto tem, porque está na Gestão, e o Capitão Wagner tem pelo histórico, Evandro ainda não tem essa bandeira”.

SEGURANÇA

Segundo a Pesquisa Atlas, a população de Fortaleza apontou a criminalidade como o principal problema da cidade, com 49,7%. A falta de segurança foi seguida por saúde, com 40,3%; educação, com 37,2%; e má gestão pública, com 31,9%. Conforme o cientista político, a questão da insegurança deve ser abordada por todos os candidatos. Na eleição passada, a candidatura do governo estadual foi a mesma candidatura do governo municipal, que era o Sarto. O Camilo apoiava o Sarto. Então esse discurso da segurança ficava entre Wagner e Sarto”, explicou. “Agora, você vai ter uma divisão: o Wagner, que tem a pauta da segurança, por exemplo; o PT, que vai estar capitaneado pelo Estado, talvez seja a candidatura que mais sofra críticas nesse campo; e a Prefeitura, com o Sarto candidato à reeleição, também tentando mostrar o que teria feito durante os quatro anos para minorar os problemas nessa área”.

“A pauta da insegurança já faz parte do dia a dia das Capitais, das grandes cidades, como é Fortaleza. O índice de criminalidade, de homicídio e de furto tem crescido assustadoramente, o que, com toda a certeza, será pauta da campanha eleitoral. Uns candidatos tentarão fugir, outros não”.

Como completou Emanuel, aliás, “não há mais como fugir da temática da segurança como uma temática do Governo do Estado”. Se isso ocorrer, de acordo com o especialista, quem mais sofreria com isso seria Evandro – se candidato -, já que teria o apoio do Governo. Segundo Cleyton, o candidato que afirmar que a segurança não é responsabilidade do prefeito, está “se afastando da população“. “A população quer uma resposta sobre a questão da criminalidade”.