Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) avaliaram o efeito de uma nova substância em modelos animais e obtiveram bons resultados na luta contra a depressão persistente. Trata-se da DMT ou N,N dimetiltriptamina, uma molécula que possui um efeito psicoativo poderoso e mais seguro quando comparado ao de outras substâncias. O trabalho foi feito pelo pesquisador Cid Coelho Pinto, com orientação do Prof. David de Lucena e coorientação da Profª Danielle Macêdo.
Os cientistas induziram efeitos semelhantes à depressão em camundongos, utilizando administrações repetidas de corticosterona, o “hormônio do estresse” dos roedores, equivalente ao cortisol nos seres humanos. Divididos em grupos, os animais receberam doses diferentes da DMT. Um deles recebeu a quetamina, um anestésico que também tem se mostrado promissor no tratamento da depressão grave.
Os animais foram submetidos a quatro tipos de testes comportamentais, que avaliam sinais como luta pela vida, tempo de imobilidade, locomoção e memória, esta última analisada em um teste chamado Labirinto em Y, e comparados aos camundongos do grupo controle (que não receberam nada). Segundo os resultados, os que receberam DMT e quetamina conseguiram reverter os sintomas em três dos quatro testes. Mas, no labirinto, aqueles que receberam a dose completa da DMT conseguiram obter os melhores desempenhos.
Além de confirmar o efeito antidepressivo da DMT, apontado em estudos anteriores, a pesquisa feita na UFC trouxe uma novidade: a utilização de dose única. “O DMT tem se mostrado muito promissor. Os resultados confirmaram em dose única estudos anteriores que haviam sido feitos com várias doses”, destaca o pesquisador Cid Pinto. Tal ponto é importante quando se lembra que os efeitos dos antidepressivos atuais só começam a ser sentidos pela maioria dos pacientes após duas a quatro semanas de um tratamento normalmente de longo prazo.
Para Cid, no entanto, antes de se pensar em um novo fármaco, mais importante é compreender o funcionamento da molécula e de seus efeitos. “Ao mesmo tempo, é preciso que tudo seja feito com zelo muito grande porque o uso dessa substância hoje só é autorizado como elemento da religião”, destaca. O funcionamento e os efeitos da substância são justamente o que está sendo investigado em outras pesquisas da Universidade. Em parceria com o Prof. Cláudio Costa, a Profª Danielle Macêdo desenvolve uma pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Medicina Translacional, ainda em andamento, para avaliar os efeitos antidepressivos da DMT obtida a partir da jurema-preta.
A MOLÉCULA DO ESPÍRITO
A DMT tem sido objeto de investigação científica há algum tempo. Entre 1990 e 1995, o psiquiatra norte-americano Rick Strassman realizou a primeira pesquisa com psicoativos em humanos em mais de 20 anos nos Estados Unidos, desde a promulgação da lei das substâncias controladas. O trabalho deu origem ao livro “DMT, a molécula do espírito”, um estudo sobre o potencial clínico e de sua relação com experiências de expansão da consciência, sonhos e experiências de quase morte. Ao mesmo tempo, entre 1991 e 1996, pesquisadores sul-americanos iniciavam o Projeto Hoasca, no Acre, que avaliou os efeitos a longo prazo do chá em seres humanos.
De lá para cá, a pesquisa na área tem avançado rapidamente, especialmente aquelas com foco nas suas propriedades antidepressivas. No Brasil, entre 2010 e 2020, pesquisadores do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, ligados ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Translacional em Medicina (INCT-TM), realizaram estudos com humanos em que perceberam a redução dos sintomas depressivos nas primeiras horas de aplicação, com duração de 21 dias. No Instituto Cérebro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), outro grupo de cientistas testou os efeitos da DMT em depressão resistente a tratamento, também obtendo resultados promissores.

Na natureza, DMT está presente em vários vegetais e alguns animais. Seus efeitos psicoativos ganharam notoriedade a partir de infusões de plantas como a jurema e a chacrona, esta última utilizada em rituais sagrados milenares na região amazônica e por grupos religiosos urbanos na elaboração da ayahuasca. No Brasil, o uso do chá é autorizado apenas para finalidades religiosas.
CRESCIMENTO ACELERADO
Em 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) já estimava que mais de 280 milhões de pessoas viviam com um transtorno do tipo no mundo. Com a pandemia de covid-19, estima-se que o número tenha saltado 25%. O crescimento acelerado tem impulsionado a busca por novos antidepressivos, mais eficazes e com efeitos clínicos mais rápidos do que os atualmente existentes. Além disso, cerca de 30% dos pacientes com depressão não respondem a nenhum fármaco existente no mercado, a chamada depressão resistente ou refratária, o que mostra a necessidade de se procurar novas estratégias com efeito antidepressivo.
