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Guerra na Palestina vira arma de embates políticos entre direita e esquerda

Foto: Mohammed Salem/Reuters

O conflito entre Israel e o Hamas tem despertado embates ideológicos em todo o mundo e, no Ceará, não é diferente. Políticos, pesquisadores e a população em geral têm emitido suas visões acerca das posições de ambos os lados na guerra que já dura mais de meio século. Se de um lado a direita cearense tem se posicionado acerca do conflito, em defesa de Israel, políticos da esquerda estão evitando emitir opiniões mais contundentes acerca dos últimos episódios envolvendo o conflito. Conforme especialistas ouvidos pelo OPINIÃO CE, o discurso religioso está no centro do debate.

Capitão Wagner, presidente do União Brasil no Estado, publicou em suas redes sociais que “precisamos orar pela paz de Israel”. Outro importante nome da direita cearense, o deputado estadual Carmelo Neto (PL) ligou a esquerda brasileira ao apoio do Hamas. “Enquanto a esquerda apoia um grupo terrorista que comete atrocidade como a decapitação de 40 bebês, estamos nas ruas de Fortaleza para defender a vida”, postou o parlamentar, durante a marcha pelo aborto. O governo israelense negou a informação.

“Cadê o ministro dos Direitos Humanos [Silvio Almeida] que não se pronuncia? Nós somos uma nação cristã e que não concordamos com isso que está acontecendo em Israel“, cobrou, na tribuna da Câmara dos Deputados, nesta semana, o deputado federal Dr.Jaziel (PL).

O senador cearense Eduardo Girão (Novo) foi outro que cobrou um posicionamento mais firme do governo brasileiro. “Fica um questionamento que, eu confesso, me constrange, assim como aos cidadãos de bem da nossa nação, uma nação pacífica, como é o Brasil, por não ver um ato mais firme deste Governo, nem dos seus ministros. E ninguém sabe onde anda o ministro dos Direitos Humanos do Brasil, ante essas atrocidades que todos nós estamos vendo, com famílias sequestradas, crianças, mulheres”, disse, em pronunciamento na segunda-feira (9), no Senado.

“Não se vê uma declaração firme contra essa barbárie que está acontecendo lá. E a gente fica na dúvida: poxa, é porque o grupo Hamas parabenizou o presidente Lula pela eleição no ano passado? É porque alguns deputados ligados ao PT, ao PSOL também, tiveram uma reação a uma iniciativa britânica, em 2021, com relação a sanções mais pesadas em cima desse grupo Hamas?“, questionou.

Na quarta (11), o ministro Silvio Almeida compartilhou em suas redes sociais apelo do presidente Lula para cessar o conflito entre Israel e Hamas. “Crianças jamais poderiam ser feitas de reféns, não importa em que lugar do mundo. É preciso que o Hamas liberte as crianças israelenses que foram sequestradas de suas famílias. É preciso que Israel cesse o bombardeio para que as crianças palestinas e suas mães deixem a Faixa de Gaza através da fronteira com o Egito. É preciso que haja um mínimo de humanidade na insanidade da guerra”, reforçou o titular. “É urgente uma intervenção humanitária internacional. É urgente um cessar fogo em defesa das crianças israelenses e palestinas”.

Ainda em pronunciamento nesta semana, Girão disse que “terrorismo é o que está sendo visto no Oriente Médio neste momento” e enfatizou que os atos de vandalismo ocorridos em Brasília, em 8 de janeiro deste ano, não se enquadram na categoria.

POLÍTICA E RELIGIÃO

Sobre o assunto, o OPINIÃO CE conversou com Emanuel Freitas da Silva, professor Adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Segundo ele, há dois pontos que explicam a aproximação da direita brasileira ao Estado de Israel. O primeiro diz respeito à religião. “Na última década houve uma aproximação de uma direita, que depois se tornaria uma extrema direita brasileira, que é evangélica, com um Israel a partir da ideia de um sionismo”.

“Procurando recapturar a ideia de Israel como ‘Terra Prometida’, prometida pelo próprio Deus no Antigo Testamento, em que, fazendo Israel reinar no centro das Nações, faz também os seguidores do Messias, do ‘rei Jesus’, governarem“.

Além disso, Silva ponta que Israel é governado por um chefe de extrema direita, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “[Ele] vai servindo de farol internacional para essa extrema direita pelo mundo afora, que aciona bem a ideia de Israel como raça destinada a governar e levar com ele para governar também os seguidores do Cristo”, explica.

Ainda de acordo com o professor, a extrema-direita do Brasil tem tentado relacionar um apoio do Governo Lula (PT) com os ataques do Hamas. “Assentada em declaração de outros episódios que não tem a ver com o de agora, de forma muito desonesta, ela [a extrema-direita] relaciona decisões, notas e declarações de membros do Governo em episódios anteriores, querendo dizer que o Governo apoia a ação terrorista do Hamas”.

NÃO POSICIONAMENTO DA ESQUERDA

Enquanto a direita cearense tem mostrado sua posição acerca dos últimos episódios, os políticos da esquerda se mantêm sem um posicionamento claro do conflito. Segundo o doutor em sociologia, há motivo para os líderes políticos desse espectro no Brasil não se manifestarem de forma apronta ao tema. “Esse medo de posicionar-se terminantemente contra o Hamas vem da ideia de que se assim fizesse estaria automaticamente sendo a favor das práticas territorialistas e segregadoras do Estado de Israel”. Conforme ele, a decisão auxilia na alimentação de uma ideia da opinião pública de que o Governo é favorável aos ataques do Hamas. “É um tanto quanto perigoso isso”.

Segundo Clayton Mendonça Cunha Filho, professor de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e mestre em Ciência Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro da Universidade Cândido Mendes (Ucam), parte da esquerda faz uma associação muito rasa do Hamas. “Parte da esquerda faz uma associação que a gente chama de campismo. Ou seja, quem está no meu campo é meu amigo, quem não está é meu inimigo, e o inimigo do meu inimigo é meu amigo”.

Uma parte dessa esquerda, por exemplo, idealiza o Hamas como um movimento de esquerda, anti-imperialista. Ele pode ter algumas atuações que você pode entender como anti-imperialistas por que ele está se contrapondo contra esse tal império, mas ele não é nada de esquerda, é um movimento fundamentalista religioso”.

Desde o início dos conflitos, o governo brasileiro tem sido cobrado por parlamentares da oposição para enquadrar o Hamas como grupo terrorista. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores emitiu um comunicado na quinta-feira (12) explicando o motivo pelo qual o País não está utilizando a classificação. Na nota, a pasta diz que segue o critério estabelecido pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU).

“O Conselho de Segurança mantém listas de indivíduos e entidades qualificados como terroristas, contra os quais se aplicam sanções. Estão incluídos o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, além de grupos menos conhecidos do grande público”, diz trecho do pronunciamento.

O texto também aponta que o Brasil “repudia o terrorismo em todas as suas formas e manifestações”.

Clayton afirma, no entanto, que “a pressa para uma necessidade declaratória sobre a natureza terrorista ou não de uma organização acaba servindo como uma resposta fácil e que depois serve para poder justificar e legitimar determinados abusos que possam vir a ser cometidos durante as ações de retaliação“. Como informou o professor, aliás, Gaza está “totalmente cercada“. Não tem energia, não tem mais água, e em breve não vai ter mais alimentos, o que coloca tudo em um estado mais grave“.

Para Emanuel Silva, a comunicação da administração de Lula precisa melhorar para mostrar que o Governo está atuando para ajudar os brasileiros presentes na região. “Quem está trazendo os brasileiros não é a FAB [Força Aérea Brasileira], é o Estado brasileiro. O Governo precisa melhorar a comunicação neste fato para não sair perdedor da batalha da opinião pública a isso”.

Dentre os grandes nomes da esquerda cearense, o ministro da Educação, Camilo Santana (PT), frisou a repatriação do Governo em trazer os brasileiros em Israel e na Palestina de volta ao Brasil. “O Brasil é o primeiro País a repatriar cidadãos e cidadãs da região de Israel e Palestina. Essa é a maior operação de repatriação já feita na história do nosso País. Nos próximos dias, outros voos transportarão mais centenas de brasileiros e brasileiras de volta para casa”, disse o ministro, na última quarta (11).

O CONFLITO

Emanuel também explica o que motivou o conflito. “Israel conseguiu construir o seu Estado, que é a Autoridade Israelense, mas resiste em reconhecer a Autoridade Palestina e a criação de um estado palestino dadas as disputas. O direito que Israel conseguiu, ele nega à Palestina”, aponta. “Israel fala de uma guerra para frear as empreitadas terroristas do Hamas. O Hamas não é um Estado, o Israel é. Israel sim faz guerra para atacar um inimigo externo, que está ameaçando a segurança da nação.

Para Clayton, a reação anunciada de Israel aos ataques do Hamas “beira o terrorismo de Estado e possíveis crimes de guerra“. “A declaração imediata do ministro de Defesa de Israel, que disse que a guerra é contra animais, declarações de que a geração de Gaza vai se lembrar do conflito para sempre, e o ultimato que deram agora de 24 horas para que mais de um milhão de pessoas evacuem da parte norte de Gaza por conta da iminente incursão por terra do exército israelense são coisas bastante complicadas”.