Começou na madrugada deste sábado, 23, a primavera no Hemisfério Sul. O fenômeno do equinócio de primavera, que marca a transição entre o inverno e estação, ocorreu precisamente às 3h50. Esta é a estação das flores e das mudanças climáticas típicas desse período. No entanto, no Ceará, as transições entre as estações são menos perceptíveis devido à sua proximidade com a linha do Equador. Entre os traços da estação no Estado, estão as floradas dos ipês-amarelos, que dão um colorido especial à capital cearense, e o ligeiro aumento na temperatura máxima, principalmente no início da tarde.
Em entrevista ao OPINIÃO CE, o agrônomo e doutor em Ciências Florestais pela Universidade Federal do Ceara (UFC), Lamartine Oliveira, explicou os motivos de os ipês florarem nesta época do ano.
“Quando chegamos nesta época do ano, a maioria das nossas espécies já aproveitou o período chuvoso, do início do ano, para acumular reserva hídrica. Essa reserva será gasta no segundo semestre, principalmente com a fase reprodutiva, onde o ápice, que é o mais visível para nós, é a floração”.
O agrônomo destaca que, neste período, ocorre o cruzamento das flores para, em seguida, vir a formação e enchimento do fruto, além da dispersão. “No geral, a dispersão vai estar ocorrendo no finalzinho de outubro e novembro, porque em dezembro já começa algumas chuvas, principalmente no final do mês, e início de janeiro, no máximo em fevereiro”, explica.

AUMENTO DA TEMPERATURA
Dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) apontam que, já no início deste mês de setembro, a temperatura máxima de Fortaleza tem ficado acima dos 31 °C. Em alguns dias, chegou a passar dos 33 °C, dois pontos acima do normal para o período, de 31 °C. Este é um traço comum desta época. No Estado, as chuvas definem a pré-estação (janeiro a dezembro), a estação das chuvas (fevereiro a maio) e a pós-estação (junho e julho). Já entre agosto e setembro, o Ceará é marcado pela época dos ventos fortes, enquanto o período conhecido como “B-R-O Bro” (setembro a novembro) traz maior incidência de radiação solar e aumento das temperaturas.
O aumento da temperatura também é observada em outras partes do Brasil. O país está em “nível laranja de alerta” para a onda de calor que se aproxima do Brasil. O Ceará deve ser afetado indiretamente durante o período, segundo o pesquisador da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme), Francisco Júnior. Nesta semana, o Ceará chegou a apresentar temperaturas de atpe 39°C, em Jaguaribe. Nesta sexta-feira, 22, os maiores registros foram em Barro (38.8°C), Jaguaribe (38.3°C) e Sobral (38.2°C).
Entre soluções disponíveis para aliviar os efeitos das altas temperaturas nas cidades, potencializadas durante a primavera, Lamartine Oliveira ressalta que as árvores são uma “super tecnologia pronta e viva”. “É super importante o plantio de árvores no meio urbano. Precisamos plantar mais árvores e é por isso que existe programas, como o da Prefeitura de Fortaleza, que incentiva o plantio de árvores na calçada, o programa Árvore na Minha Calçada”.
O doutor em Ciências Florestais destaca, ainda, que, antes de plantar, é necessário buscar mudas de qualidade e uma orientação técnica. “Existem vários locais em Fortaleza que fazem trabalho de doação de mudas, como na UFC, no Grupo de Extensão e Pesquisa em Silvicultura (GEPS), que eu coordeno, onde temos uma ação de orientação e de doação de mudas”. O projeto está no Centro de Ciências Agrárias da UFC, localizado no Campus do Pici.
TIPOS DE IPÊ
Os ipês mais comuns encontrados em Fortaleza são o rosa e o amarelo.
“O ipê-amarelo, popularmente conhecido como ipê caraúba ou ipê craibeira, é o mais comum, não só em Fortaleza, como no Brasil inteiro. Inclusive, ele foi eleito árvore símbolo de Fortaleza. Ele pode alcançar entre 5 e 20 metros de altura, dependendo das condições climáticas e das condições de solo. De folhas amarelas exuberantes, folha lanceolada, é uma espécie com potencial enorme para arborização urbana, por proporcionar uma boa sombra além da beleza de suas flores amarelas”.
Conforme Lamartine, outras espécies como o ipê-branco, rosa e o roxo, podem ser encontradas na Capital, além de variações dessas cores predominantes, seja em tons mais claros como misturados. “Temos cerca de 100 espécies de ipê no mundo inteiro. No Brasil, existem 40 tipos de ipê diferentes, de espécies de ipê diferentes, cerca de 18 a 20 espécies só ocorrem no Brasil e um deles ocorre muito no Nordeste, é muito característico do Norte-Nordeste, que é o ipê-craibeira, o amarelo”.

Entre as mudanças perceptíveis ocasionadas pela primavera em plantas espalhadas pela cidade ou cultivadas em espaços privados, o especialista frisou que a principal mudança e a mais visível é a floração, mas que junto dela ocorre o fenômeno do caducifólio, quando elas perdem folhas para priorizar essa fase reprodutiva de floração. “No caso do ipê, é uma vagem, que dentro dela tem diversas sementes que, curiosamente, vêm com asas, aladas, uma estratégia ecológica da espécie que facilita sua dispersão pela força dos ventos”, explica.
“É muito comum em Fortaleza encontrarmos com bastante facilidade, porque é predominantemente em Fortaleza, espécies exóticas e, que, algumas delas, são invasoras e trazem alguns problemas ambientais. As nossas espécies já são adaptadas ao nosso solo e ao nosso clima. Consequentemente, elas vão melhor na arborização urbana”. Como exemplo, o agrônomo cita as árvores quebrando calçadas. “A maioria das espécies de ipê, quando plantadas adequadamente, não quebram calçadas, diferente de espécies exóticas, como o Nim Indiano e o Flamboyan, que tem um potencial bem maior de danificar as calçadas”.
