Disciplina, força, leveza nos movimentos são algumas características de quem se dedica a um dos estilos mais clássicos de dança no mundo: o balé. Há quem diga que um bailarino ou bailarina pode alcançar a excelência no estilo somente se iniciar nos primeiros anos de vida. A psicanalista Valéria Honoi e a médica Alzenir Castelo, alunas da escola Madiana Romcy, vão de encontro a ideia de que fazer balé é só para pessoas mais jovens. Afinal, para elas, a paixão pela dança atravessa o tempo e se torna um “espetáculo” para a alma.
Honoi contou ao OPINIÃO CE que fazia balé desde os seis anos e teve que parar para estudar. “Eu fiz balé desde criança e tinha parado por muitos anos. Na minha idade, essa retomada para o balé foi um renascimento. Eu fico muito feliz de participar desse grupo mais adulto. A dança nunca vai excluir ninguém porque a dança é muito do corpo, da emoção e, principalmente, do desejo. Ou você deseja dançar, ou não. Então, qualquer época da vida é possível”.

Para Castelo, não é muito diferente. O estilo era um sonho e que, agora, pode ser realizado aos 60 anos. “O balé trabalha corpo e mente e, no momento da dança, a gente pode expressar, por meio do corpo, toda aquela emoção e alegria que a nota musical traz para a nossa mente. Além do exercício físico, também trabalhamos a alma. O balé na minha vida está inserido desde a infância, mas eu só pude começar a praticar aos 60 anos”, conta emocionada.
A HISTÓRIA DE MADIANA ROMCY
Desde os primeiros passos no mundo da dança, Madiana Romcy, hoje com 62 anos, sempre soube que seu destino estava intrinsecamente ligado à arte do balé. Sua jornada começou com a formação na renomada Escola do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, entre 1982 e 1986, agora conhecida como a Escola de Dança Maria Olenewa. Foi lá que Madiana aprimorou suas habilidades e desenvolveu sua paixão pela dança.
Hoje, com 37 anos de história, a Escola de Dança Madiana Romcy, que leva o nome da sua fundadora, é uma referência em Fortaleza. Mais de 1.000 alunos já passaram por suas salas de aula, cada um deles deixando sua marca única na trajetória de Madiana.
“O que mais me marca aqui são as trajetórias dos meus alunos. Ver que eles conseguiram entrar em outras companhias, sair do Brasil e de Fortaleza é emocionante. Vários dos meus alunos conseguiram deixar a escola e hoje são profissionais de dança bem-sucedidos. Tenho uma aluna que foi para a Europa e, de lá, ingressou no Balé do Cisne Negro, em São Paulo. Outras alunas minhas passaram pela escola do Bolshoi, em Joinville. Alguns saíram daqui e conseguiram entrar em companhias no Rio de Janeiro e em outros lugares do mundo”, detalhou ao OPINIÃO CE.

A missão de Madiana Romcy transcende a formação de dançarinos talentosos. Ela é uma firme defensora da democratização do balé em Fortaleza e no Brasil. Em um país onde a dança clássica muitas vezes é vista como elitista, Madiana se esforça para que o balé seja acessível a todos.
“Acredito que as pessoas precisam superar a ideia de que o balé é apenas para um grupo seleto. Aqui na Escola Madiana, oferecemos bolsas de estudo, e é difícil uma aluna perder a bolsa. A única forma de perdê-la é não passar de ano, e isso é raro porque avaliamos a capacidade da aluna antes de conceder a bolsa. Se ela não tem a elasticidade necessária ou não consegue subir na ponta, não oferecemos a bolsa”, acrescenta. No entanto, quase sempre as alunas bolsistas são melhores que as não-bolsistas.
PRECONCEITO E DEMOCRATIZAÇÃO
Fortaleza é conhecida como a terra do forró, mas Madiana Romcy está determinada a ampliar os horizontes da dança na cidade. Ela acredita que Fortaleza tem muito a oferecer em termos de dança folclórica e contemporânea, e sonha em ver a criação de uma companhia de dança diversificada que abrace todas as formas de expressão artística. “Em Fortaleza, ainda existe muito preconceito em relação ao balé. Tive um aluno cuja mãe o trazia para a aula escondido do pai. Ela tinha que esconder as roupas de balé e outros materiais. Quando o pai descobriu, o menino teve que sair. A mentalidade no Nordeste ainda é bastante fechada em relação ao balé”, critica.

Romcy vive o balé em sua vida 24 horas por dia, seja na fala, nos passos que dá para verificar como estão as aulas de suas alunas ou quando cumprimenta alguém. “É o que me motiva desde que acordo de manhã. É o ar que eu respiro. Tenho 62 anos, e não consigo imaginar minha vida sem o balé. Minha maior felicidade é ver uma criança ou adulto sorrindo, brincando e interagindo com outras pessoas aqui. E isso vale para todas as idades”, conclui.
