Menu

Acolher e não julgar: o desafio de prevenir o suicídio entre os mais jovens

Conversar, acolher, sugerir um profissional e proteger. Por mais que as etapas citadas pareçam simples para quem vê de fora, ajudar uma pessoa com ideação suicida é muito mais complexo do que uma fórmula pronta e ordenada. No Ceará, dados da Secretaria de Saúde do Governo do Estado de 2022, mostram que a média mensal de suicídios é de 41 pessoas que tiram a própria vida. Somente entre janeiro e maio do ano passado, por exemplo, 171 homens e 36 mulheres cometeram suicídio, conforme o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) mantido pela Sesa. Os motivos que levaram pessoas a isso são inúmeros e envolvem problemáticas sociais diversas, como depressão, ansiedade, dívidas, traição, luto. Em crianças e adolescentes, os motivos são ainda mais preocupantes: pressão social, bullying e ansiedade estão entre as causas. 

Mas por onde começar e o que fazer ao ter um amigo ou parente que está passando por isso? Nesta última semana de setembro, O OPINIÃO CE reúne os principais passos do que fazer e como fazer a partir da ótica de dois especialistas na área e onde buscar ajuda não só neste mês, mas durante o ano todo em locais de referência e especializados em saúde mental em Fortaleza.

Perguntar e escutar o que a pessoa tem a dizer sem culpabilizá-la por isso. Não à toa, o Setembro Amarelo deste ano tem como lema “Se precisar, peça ajuda!”. Mais desafiador ainda quando o pedir ajuda não acontece entre crianças e adolescentes, preocupação crescente entre especialistas em 2023. O médico psiquiatra do Hospital Nosso Lar, Luiz Antônio, em entrevista exclusiva ao OPINIÃO CE, relata que esse é o maior desafio atualmente. 

Médico psiquiatra Dr. Luiz Antônio. Foto: Beatriz Boblitz

“Observamos um aumento tanto nas emergências clínicas quanto nas emergências psiquiátricas. Vemos muitos casos crescentes de tentativas e suicídios consumados nessa faixa etária. É uma população que realmente demanda mais cuidado, uma população que está sob maior risco, principalmente devido às redes sociais e às telas”, revela o psiquiatra. Procurada pela reportagem, a Sesa não informou os dados atualizados sobre suicídio no Ceará até o fechamento desta edição. 

A psicóloga comportamental, Felícia Santos, entende que o aumento das estatísticas de suicídio em jovens podem ser consideradas multifatoriais e complexas e se refere, primeiramente, aos problemas emocionais não diagnosticados ou não tratados. 

“Um número crescente de adolescentes e jovens enfrentam transtornos mentais como depressão com ideações suicida, ansiedade, bipolaridade, que podem ser potenciais gatilhos para o risco da prática do suicídio. Outra razão está ligada a pressão social e o estresse que os adolescentes e jovens de hoje vivenciam. Existem uma variedade de pressões tóxicas as quais eles são expostos diariamente”, explica.

Santos acrescenta que fatores como a pressão por excelência nos resultados acadêmicos, a pressão dos colegas, as questões de autoestima e autoaceitação, o excesso de exposição às redes sociais e a violência causada por diferentes formas de bullying estão diretamente relacionadas com as ideações suicidas desta faixa etária. 

O TABU E OS SINAIS DE ALERTA 

Um dos principais desafios é superar o estigma associado à temática abordada na campanha do Setembro Amarelo. Embora tenha tido progressos na sensibilização nos últimos anos, existem ainda muitos tabus e mitos que reforçam a relutância em discutir abertamente questões dessa natureza. 

Os sinais de alerta, as tentativas e o ato de suicídio existem e são estatísticas. Por isso, a rede de apoio do adolescente ou jovem, por exemplo, precisa está muito atenta a alguns sinais que podem passar despercebidos. 

“Devemos ficar atentos a mudanças drásticas e repentinas no comportamento. Isso pode incluir isolamento social, perda de interesse em atividades que costumavam ser agradáveis, alterações no sono ou no apetite, alto nível de irritabilidade e choros recorrentes sem um motivo relevante”, lista a psicóloga Felícia.

Ainda conforme a especialista, é importante observar se o adolescente ou jovem verbaliza sobre suicídio, mesmo que de forma indireta ou figurativa. “Frases do tipo ‘Eu não aguento mais’ ou ‘Eu preferiria estar morto’, ou ‘Eu queria dormir e não acordar mais’, são muito preocupantes e devem ser levadas a sério, pontuadas e aprofundadas imediatamente”, explicou.

“Fiquem atentos a sinais persistentes de depressão e ansiedade. Tais como, sentimentos de culpa, desamparo, apatia, tristeza profunda e crenças negativas a respeito de si”, alerta Santos. 

ACOLHIMENTO E EMPATIA

Outra grande dificuldade é garantir que as pessoas que precisam dessa ajuda tenham acesso a recursos e tratamentos adequados. Isso envolve, além da conscientização, um trabalho para garantir e facilitar o acesso dessas pessoas a serviços de saúde mental especializados e de qualidade. 

Para quem está passando por esses problemas ou para quem tem alguém passando por isso, é essencial ter em mente a importância da escuta empática e acolhedora. Ao ouvir a pessoa e entender suas necessidades e problemas, é possível orientá-la a buscar um profissional ou outra forma de ajuda, mostrando que o suicídio não é o melhor caminho ou solução. 

Na avaliação do psiquiatra Luiz Antônio, não é recomendável menosprezar a queixa da pessoa, dizendo ser “besteira” ou que “não faz sentido”.

“Isso pode ser muito prejudicial. Quando se trata de adolescentes e jovens é essencial escolhermos as palavras com cuidado e empatia. E o mais importante: não julgar”, aconselha.

Já a psicóloga elenca o que não dizer: frases a se evitar para pessoas com ideações.   “Isso é só uma fase, não precisa desse exagero”, “Você está sendo egoísta, querendo chamar atenção” e “Você não vai mesmo fazer isso, certo?” são exemplos de como não fazer.

“Há algumas sugestões de frases que devem ser repetidas e afirmadas quantas vezes forem necessárias. ‘Eu estou aqui para você’, ‘Você não está só, conte comigo’ e ‘Vamos procurar ajuda juntos’ podem ajudar muito a acalmar a pessoa com ideação”, explica Felícia.

Vale ressaltar que, ao lidar com ideação suicida, é indispensável buscar um profissional de saúde mental o mais rápido possível. Os especialistas também alertam, concomitantemente, que não se deve cair na armadilha da autossuficiência e da automedicação para tentar resolver a situação de forma rápida, ou pior, sozinho. 

“A automedicação é uma prática comum, mas também perigosa, pois cada medicamento tem seus efeitos colaterais. Somente um profissional pode orientar o paciente sobre a melhor medicação, se for o caso”, aconselha o psiquiatra Luiz Antônio. 

AMPLIAÇÃO DE REDE DE APOIO SE FAZ NECESSÁRIA

Quase metade das cidades cearenses não contam com Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), equipamentos cuja principal missão é garantir assistência e atendimento a pessoas que sofrem com problemas relacionados à saúde mental. Somente 97 municípios, de um total de 184, possuem CAPs. Os dados são do Ministério Público do Estado do Ceará. Confira a lista completa aqui.

“O que observamos é que a demanda é muito alta em comparação com o número reduzido de CAPS (Centros de Atenção Psicossocial) e estruturas físicas, assim como profissionais disponíveis. Isso faz com que alguns pacientes não recebam o acompanhamento adequado, aumentando ainda mais o risco. Talvez seja necessário investir mais nessa área e expandir as modalidades de atendimento”, sugere o médico psiquiatra do Hospital Nosso Lar.

REDES DE APOIO EM FORTALEZA

Foto: Kiko Silva/Prefeitura de Fortaleza

A Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Fortaleza tem atualmente 24 equipamentos, sendo 16 Centros de Atenção Psicossocial (seis gerais, três infantis e sete álcool e outras drogas), cinco unidades de acolhimento para dependentes químicos e três residências terapêuticas. Ao todo, a cidade conta com 240 profissionais que atuam na atenção psicossocial de Fortaleza, segundo dados da Prefeitura.

Os Caps são caracterizados como um dispositivo de cuidado intensivo no projeto terapêutico singular (PTS) para as situações de crises, realizando um trabalho específico junto à equipe interdisciplinar de saúde, para cada caso acolhido. A partir da avaliação realizada pela equipe multidisciplinar, o usuário é encaminhado para o tratamento adequado, que pode ser no próprio Caps, Unidades de Acolhimento ou leitos de desintoxicação. A média de atendimentos mensais nos equipamentos municipais é de 16,5 mil nos seis Caps Gerais, 8,5 mil nos sete Caps AD e 6,5 mil nos dois Caps Infantis.

Dos Caps, dois são 24h com leitos de acolhimento noturno para estabilização de crises psiquiátricas e de abstinência. Além disso, a Prefeitura dispõe de uma rede de apoio à internação com leitos infantojuvenil na Sociedade de Assistência e Proteção a Infância de Fortaleza (Sopai), leitos para desintoxicação na Santa Casa de Misericórdia e a parceria com o Hospital Mental Psiquiátrico do Estado.

O Hospital de Saúde Mental, por ser uma unidade de perfil terciário da rede pública do Estado do Ceará, ou seja, especializado no atendimento de casos psiquiátricos mais graves, atende pacientes com diversos transtornos que, se não forem tratados adequadamente, podem desenvolver uma gravidade ainda maior. 

Além de depressão e ansiedade, o HSM recebe, com frequência, pacientes com transtorno afetivo bipolar, esquizofrenia, dependência química, transtorno de personalidade, entre outros.

O equipamento dispõe, ainda, de dois hospitais-dia: o Elo de Vida, para pacientes com dependência química, e o Lugar de Vida, voltado para aqueles com transtornos mentais e com quadro de saúde estável. O HSM completa 60 anos em 2023.

No âmbito da parceria público-privada, com mais de 50 anos de atuação, há em Fortaleza, o Nosso Lar Hospital, que dispõe de 260 leitos de internação para tratamento de pacientes com transtornos mentais graves. Acompanhado disso, há uma equipe multidisciplinar que desenvolve planos terapêuticos individualizados e que contemplam atividades diversas e habilidades para tratar e lidar com as mais variadas situações no universo da saúde mental. 

O hospital atende pacientes de planos de saúde, particulares e do SUS. No total, já foram mais de 40 mil atendimentos ao longo dos anos. Há também o Instituto Bia Dote, criado em 2013, organização não governamental e sem fins lucrativos, de Fortaleza, que trabalha com a prevenção do suicídio e a valorização da vida. O projeto oferta atendimento psicológico gratuito; grupo terapêutica para os jovens; grupo de apoio às famílias sobreviventes de suicídio, dentre outras oficinas e atividades. 

No bairro Pirambu, em Fortaleza, o “Projeto 4 Varas: Terapia Comunitária Integrativa”, desenvolve terapia comunitária integrativa, uma inovação brasileira que faz parte da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde. 

No Bom Jardim, o Movimento Saúde Mental (MSM) também atua há 26 anos e já acolheu mais de 5 mil pessoas. As atividades desenvolvidas são no campo socioterapêutico e ofertam grupos de terapia comunitária; grupos de autoajuda para o resgate da autoestima; atendimentos psicológicos individuais; acompanhamento de crianças e adolescentes, dentre outras.