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Condomínios de luxo na Grande Fortaleza passam por ‘invasão de cassacos’

Foto: Reprodução/UFC/Emanuelle Pasa

O condomínio de luxo Acquaville Condomínio, localizado no Porto das Dunas, em Aquiraz, na Grande Fortaleza, vem sofrendo com a infestação dos gambá-de-orelha-branca, popularmente conhecido como “cassaco”. O animal é silvestre e comum na região, principalmente pelo residencial ficar localizado próximo à Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Pacoti.

“O Ratatouille [personagem da Pixar] ficou maluco. Foi para atrás do fogão. Vou deixar a casa para ele”. É assim que uma moradora do condomínio, reage em um vídeo ao qual o OPINIÃO CE teve acesso. Além disso, a moradora se assusta com a visita do animal na cozinha de seu apartamento, que já havia aparecido em outra ocasião, mas sem ter entrado em sua casa.

Outros moradores também relatam a ‘visita’ dos animais. A reportagem também ouviu relatos de aparecimento de ‘cassacos’ no condomínio Alphaville, no Eusébio.

Em entrevista ao OPINIÃO CE, o síndico do Acquaville, Coronel Castelo Branco, explicou que a presença de animais silvestres na área é frequente, por conta da proximidade com a APA, que é o habitat natural dos animais. “Vemos com certa frequência esses cassacos por aqui e sabemos que muitas vezes eles aparecem por estarem procurando comida. Como em algumas residências os moradores costumam colocar comida para seus pets na varanda, muitas vezes eles se aproveitam das sobras de rações de gatos e cachorros”.

Coronel destacou ainda que orienta os moradores a não deixarem portas abertas e evitarem deixar sobras de rações. Segundo ele, a junção dos dois fatores pode ter facilitado a entrada no apartamento de uma de suas condôminas.

“Quando aparece, tem uma equipe treinada pelo Corpo de Bombeiros, que nos ajuda nessa captura e soltura posterior dentro da mata, porém, muitas vezes, quando aparecem poucos, essa equipe é quem dá o suporte para gente capturar com segurança e soltar novamente na natureza”, explica.

Em nota enviada ao OPINIÃO CE, a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano de Aquiraz afirmou “que não tem competência para a retirada dos animais” e, no surgimento de novos casos, as pessoas devem “entrar em contato com um bombeiro profissional civil”.

CARACTERÍSTICAS

Segundo a Prefeitura Especial de Gestão Ambiental da Universidade Federal do Ceará (UFC), o gambá-de-orelha-branca, também conhecido como ‘timbu’, ‘cassaco’, ‘saruê’, ‘sariguê micurê’ e ‘mucura’, é uma espécie de gambá nativa de vários países da América do Sul, incluindo o Brasil. Eles são animais generalistas que podem viver em diferentes habitats e apresentar comportamento predominantemente terrestre ou arbóreo. Sua dieta inclui invertebrados, frutas e até vertebrados como pequenos pássaros, mamíferos, cobras e peixes.

O gambá-de-orelha-branca pesa de 0,45 a 1,3 quilogramas e possui pelo preto e cinza, com cabelos brancos cobrindo as orelhas e o rosto, além de cabelos escuros na longa cauda. Esses animais costumam mudar de habitat durante o período de reprodução, migrando para áreas úmidas, quando os filhotes começam a procurar comida por conta própria.

CUIDADOS

O biólogo, consultor ambiental e resgatista voluntário de cassacos, Marcelo Holderbaum, em entrevista ao OPINIÃO CE, frisou que os cassacos não são animais violentos. “Só vai realmente ter algum risco se as pessoas tentarem agredi-lo ou pegá-lo. No contato, ele não é um animal que tentará agredir. Em relação a doenças, eles são animais que não transmitem raiva, inclusive, eles têm uma certa imunidade à doença. Eles também não são vetores de leptospirose. O risco de doença para o ser humano é muito baixo”, explica.

Conforme o biólogo, em uma tentativa de ser capturado, o cassaco pode morder para se defender. “A mordida não é perigosa, porém, dói bastante. Em caso de mordida, o ideal é lavar com água corrente e antisséptico”.

Marcelo destaca que a região do Porto das Dunas, por ser uma APA e ter uma área bastante preservada, faz com que os animais permaneçam, mesmo que uma parte esteja urbanizada. “São animais muito adaptáveis e com alimentação bem variada, conseguindo resistir bem a essa urbanização. Como encontram alimentação fácil e não há muitos predadores, eles reproduzem com mais frequência, permanecendo nesse local, que para eles é tranquilo e tem comida fácil”. Marcelo lembra ainda que os cassacos são predadores de cobras, escorpiões e carrapatos. “Eles auxiliam no equilíbrio ambiental e, por isso, é importante tê-los por perto, principalmente pqra quem mora perto naquela região de mata no Aquiraz”.

Em caso de aparecimento na residência, Marcelo Holderbaum destaca dicas para agir da melhor forma e não assustar o animal.

“O ideal é apagar as luzes, se afastar e prender os animais domésticos. Se for uma fêmea e ela estiver com filhotes, ele fica mais lenta ou até mesmo não consegue fugir. Não há perigo para o animal doméstico. A recomendação é evitar deixar comida exposta em casa, seja ração de pet ou lixo. Seguindo esses passos, ele irá sair, porque ele não quer dormir dentro de casa, ele quer voltar para o seu lugar. Basta deixar o animal quieto, não mexer, que ele vai embora. Eles são bem ágeis e da forma como entraram, eles irão sair”.

O biólogo reitera que, em caso de cassacos machucados, a Polícia Ambiental deve ser acionada para fazer o resgaste da forma correta e destinar para entidades que irão cuidar e depois devolver o animal para a natureza.

“A população não precisa ter tanto medo quanto existe. As pessoas pensam ser rato, querem matar logo, tem nojo, mas na verdade, são animais que se limpam mais que os gatos, por meio das lambidas. Apesar de terem a fama de comerem lixo, são animais relativamente limpos, não são agressivos, eles na verdade apenas se defendem. Essa história de que são perigosos, que devem ser mortos, tudo isso é apenas mito”.

RESGATES

O Corpo de Bombeiros Militar do Ceará (CBMCE) registrou o resgate de 8.014 animais nos primeiros oito meses de 2023 em todo o Ceará. Segundo dados divulgados no último dia 4 de setembro, isso representa um aumento de 12% em relação ao mesmo período de 2022, quando foram resgatados 7.115 animais. Os resgates deste ano já superam os números de 2019 (3.926 resgates), 2020 (5.217) e 2021 (6.252). Em 2022, foram resgatados 9.641 animais. As espécies mais resgatadas pelos bombeiros militares são as cobras jiboias, seguidas por felinos, cães, iguanas e cassacos.

Conforme o CBMCE, a recomendação é sempre manter distância de animais silvestres e, em caso de necessidade, acionar o Corpo de Bombeiros através do número 193, que funciona 24 horas por dia, 7 dias por semana e a ligação é gratuita.