Anualmente, mais de 700 mil pessoas morrem em todo o mundo devido ao suicídio, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Em setembro, pautas ligadas à saúde mental ganham visibilidade na campanha ‘Setembro Amarelo’, que visa informar e conscientizar sobre o tema. Em entrevista ao OPINIÃO CE, a psicanalista Elaine de Tomy destaca a importância de falar sobre a prevenção de adoecimentos psíquicos e transtornos mentais, além da necessidade de questionar e refletir sobre nossas reações e emoções.
Conforme a psicanalista, é natural que as pessoas se perguntem se é possível prevenir adoecimentos psíquicos e transtornos mentais. Para isso, é necessário o autoconhecimento para perceber os sinais do próprio corpo, defende. “É muito importante se questionar, se perguntar em que ponto estou nesse momento? Como está a minha saúde mental? Essas perguntas vão indagar em vocês respostas que te auxiliarão a conhecer mais sobre si. Além disso, é importante a gente perceber qual estilo de vida estamos levando, pois isso dará muitos sinais e entendimentos sobre o nosso momento atual”, aponta.
A psicanalista destaca ainda que muitas pessoas acabam desenvolvendo baixa autoestima ou mesmo ansiedade por procrastinar, por deixar as coisas para depois e por não se planejar. “Por não ter um plano de vida, embora aconteçam imprevistos, às vezes acontecem coisas fora do nosso alcance, mas a gente deixar que as coisas ao nosso redor caminhem por conta própria, sem que a gente possa planejar, também é um fator que pode, lá na frente, trazer consequências para a nossa vida”. Elaine reitera ainda que o corpo emite sinalizadores que ajudam a indicar o momento de pedir ajuda.
“Identificou que você tem estabilidade emocional, irritabilidade, está tendo muitas insônias, não está se sentindo feliz com a sua vida, muitas vezes se questionando, se sentindo desamparado, sozinho ou triste, ou mesmo muito agitado? Isso já são um grande sinalizador de que você precisa buscar ajuda”.
PERFIL DOS PACIENTES
Quanto ao perfil dos pacientes afetados, Elaine afirma que os transtornos podem impactar qualquer pessoa, independentemente de idade, gênero ou classe social. “O perfil geralmente é de pessoas que têm traumas em relação ao passado, não falam sobre o que sentem, se calam, se fecham, se isolam. Isso aprisiona muito a pessoa, faz com que ela se sinta trancada em si e é justamente o que, muitas vezes, a terapia propõe, de você colocar pra fora as experiências que você já passou, as vivências que você já teve, poder ressignificar coisas do passado. Seu pensamento vai se tornar muito mais saudável quando você consegue se reorganizar”.
“É muito importante o autoperdão, se reconciliar com as pessoas faz parte da vida. Todo mundo, de alguma forma, precisa perdoar, se perdoar e perdoar alguém. Outro fator é levar uma vida sem uma educação emocional, vivendo de forma desregrada, com muitos vícios, como celular, séries, drogas, sem atividades físicas. Tudo isso é uma influência muito negativa que adoece muito as pessoas”, defende.
Elaine também aborda os impactos sociais da falta de tratamento, destacando que a instabilidade emocional, a irritabilidade e as mudanças de humor podem prejudicar relacionamentos e bem-estar geral. “Costumo dizer que a demora na identificação do problema, nos cuidados e na busca por um tratamento equivale a um adoecimento físico. Quando a gente não busca ajuda, quando a gente não trata o que já deu sinais, vai acrescentando outros tipos de transtornos. Isso vai te fazer se distanciar socialmente, ser uma pessoa mais irritada, ter mais alterações de humor e trazer infelicidade pra tua vida”.
IMPORTÂNCIA DO DEBATE
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, até 2030, a depressão será a doença mais comum do mundo. Felizmente, existem práticas simples e diárias que podem evitar cair nessa estimativa. “Tenha atividades físicas, atividades que possam dar sentido à vida, cultivar uma espiritualidade, pois somos corpo, mente e espírito. São esses três pilares que muitas vezes sustenta a pessoa e faz com que ela esteja bem consigo mesma”, defende. “Mas, se houver necessidade de ir a um psiquiatra, não tenha receio, não tenha medo. Às vezes, o medicamento ele ajudará a melhorar as crises que você tiver na vida. Além de ter um estilo de vida saudável, busque fazer terapia e ter um acompanhamento com um profissional que não vai te julgar, que ouvirá suas questões sendo especializado para te ouvir e ajudar. O importante é acreditar que sempre tem chances de sair desta condição”.
CONFIRA ALGUMAS DICAS PARA UMA VIDA MAIS SAUDÁVEL
- Tenha uma rotina com práticas saudáveis. Nosso cérebro adora rotina;
- Cuidar do corpo não “é moda”. Ir para academia ou andar de bicicleta, por exemplo, faz parte da busca por equilíbrio;
- Inclua na rotina momentos de espiritualidade, meditação, com atividades físicas regulares. Essas práticas são como um remédio para o nosso corpo;
- Converse “com seu interior”, enviando comandos para a mente consciente. A mente precisa da nossa voz, da nossa condução, da afirmação daquilo que precisa ser feito;
- Não se deixe abater pelo que as pessoas acham de você. Precisamos viver conforme nossos valores e aquilo que nos faz bem.
SETEMBRO AMARELO
A atual edição do Setembro Amarelo traz como lema ‘Se precisar, peça ajuda’. Durante todo o mês de setembro, são realizadas ações para conscientizar e estimular a prevenção do suicídio no país. Para o presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva, é necessário orientar a população para conseguir a prevenção efetiva do suicídio. “A morte por suicídio é uma emergência médica e pode ser evitada através do tratamento adequado do transtorno mental de base”, afirma.
No Brasil, entre 2010 e 2019, ocorreram 112.230 mil mortes por suicídio. Cerca de 14 mil casos são registrados por ano, em média 38 pessoas cometem suicídio por dia. A campanha “Setembro Amarelo” é realizada desde de 2014 no Brasil pela Associação Brasileira de Psiquiatria em parceria com o Conselho Federal de Medicina.
Texto de Yuri Lima e Anderson Alves.
