Neste sábado, 29, e domingo, 30, o Instituto Cultural Vale apresenta o espetáculo “Cão Sem Plumas”, da Companhia de Dança Deborah Colker, em Fortaleza. A performance acontecerá no Cineteatro São Luiz, às 18h e 19h, nos respectivos dias. Baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), a exibição é a primeira de temática explicitamente brasileira da autora.
Publicado em 1950, o poema acompanha o percurso do rio Capibaribe, que corta boa parte do estado de Pernambuco. Mostra a pobreza da população ribeirinha, o descaso das elites, a vida no mangue, de “força invencível e anônima”. A imagem do “cão sem plumas” serve para o rio e para as pessoas que vivem no seu entorno. Em entrevista ao OPINIÃO CE, questionada sobre como ocorreu a ligação entre poema e dança para a criação do espetáculo, Deborah afirma que as duas artes são irmãs.
“Têm diferenças, mas parecem filhas do mesmo pai e da mesma mãe, têm uma origem, uma ideia, uma linha de pensamento, de sentimento até, de afetos. Mesmo na árida poesia de João Cabral. A poesia do João Cabral nos faz ver uma palavra e, a partir dela, você se conecta por meio do pensamento, do sentido da palavra. Surge uma percepção de algo que não é apenas racional. A dança, para mim, tem que ter um sentido, mesmo que, como na poesia, em que as palavras dão piruetas, você crie também saltos no ar”, compartilha.
Na apresentação, a dança se mistura ao cinema. Cenas de um filme realizado por Deborah e pelo pernambucano Cláudio Assis – diretor de longas-metragens como Amarelo Manga, Febre do Rato e Big Jato – são projetadas no fundo do palco e dialogam com os corpos dos 14 bailarinos. As imagens foram registradas em novembro de 2016, quando coreógrafa, cineasta e toda a companhia viajaram durante 24 dias do limite entre sertão e agreste até Recife.

A jornada também foi documentada pelo fotógrafo Cafi, nascido em Pernambuco. Na trilha sonora original estão mais dois pernambucanos: Jorge Dü Peixe, da banda Nação Zumbi e um dos expoentes do movimento mangue beat, e Lirinha (cantor do Cordel do Fogo Encantado, poeta e ator), além do carioca Berna Ceppas, que acompanha Deborah desde o trabalho de estreia, Vulcão (1994). Outros antigos parceiros estão na cenografia e direção de arte (Gringo Cardia) e na iluminação (Jorginho de Carvalho). Os figurinos são de Claudia Kopke. A direção executiva é de João Elias, fundador da companhia.
Acerca do entrosamento da equipe e da forte presença de pernambucanos, Deborah ressalta a relação com Cláudio Assis e da importância do diretor para a obra. “Eu e o Cláudio Assis temos uma amizade antiga, somos irmãos, mas trabalhar é diferente. Cláudio tem uma cinematografia visceral. Não se importa em mostrar o feio, as vísceras, toda a realidade espessa. Eu sempre busquei a beleza, o questionamento dos espaços. O encontro dessas diferenças foi a junção que eu precisava para este projeto. Cláudio teve um papel fundamental na definição do que falar e de como falar”, detalha.
REFERÊNCIAS
Os bailarinos se cobrem de lama, alusão às paisagens que o poema descreve, e seus passos evocam os caranguejos. O animal que vive no mangue está nas ideias do geógrafo Josué de Castro (1908-1973), autor de Geografia da Fome e Homens e Caranguejos, e do cantor e compositor Chico Science (1966-1997), principal nome do mangue beat. O movimento mescla regional e universal, tradição e tecnologia. Como Deborah faz.
Para construir um bicho-homem, conceito que é base de toda a coreografia, a artista não se baseou apenas em manifestações que são fortes em Pernambuco, como maracatu e coco. Também se valeu de samba, jongo, kuduro e outras danças populares. Acerca das referências utilizadas, Deborah explica que a produção nasceu após uma residência artística em que a Companhia passou quase um mês em Pernambuco, visitando cidades e, principalmente, a paisagem do Sertão ao Litoral.
“Viajamos ao longo do Capibaribe. Nas cidades ribeirinhas, participamos de oficinas, saraus e atividades culturais. Além de dar veracidade ao espetáculo, essa vivência o tornou ainda mais intenso. Foi uma viagem muito reveladora. A gente esteve perto não só da geografia, mas das pessoas que vivem a realidade desse rio. Busquei também referências no geógrafo Josué de Castro, autor de ‘Geografia da fome’ e ‘Homens e caranguejos’, e em Chico Science”, relata.
Com estreia em 3 de junho de 2017, no Teatro Guararapes, em Recife, o espetáculo já foi apresentado em mais de 30 cidades brasileiras, tendo um público de mais de 150 mil pessoas. Internacionalmente, a apresentação já esteve nos Estados Unidos, França, Reino Unido, Alemanha e Uruguai. Em 2018, Cão Sem Plumas recebeu um dos mais importantes prêmios da dança mundial, o “Prix Benois de la Danse”, na categoria coreografia.
SERVIÇO
Espetáculo “Cão Sem Plumas”
- Quando: Dia 29/7 (sábado), às 19h; e Dia 30/7 (domingo), às 18h
- Local: Cineteatro São Luiz (Rua Major Facundo, 500 – Centro)
- Classificação indicativa: Livre
- Valores do ingresso: Plateia inferior – R$ 156,00 (inteira) e R$ 78,00 (meia); Plateia superior – R$ 128,00 (inteira) e R$ 64,00 (meia); Plateia social R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia)
- Vendas: Sympla – https://encurtador.com.br/MNR23
- Bilheterias do Cineteatro: terça a sexta, 9h30 às 18h e sábado, 9h30 às 17h. Domingos com atividades para público, o funcionamento é a partir de duas horas antes do horário de início do espetáculo.
