Com recursos avaliados em cerca de R$ 22 milhões, o Instituto Serrapilheira e fundações de Amparo à Pesquisa estaduais (FAPs) vão apoiar projetos de 32 jovens cientistas em todo o Brasil. No Ceará, por meio da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), a Universidade Federal do Ceará (UFC) teve três projetos selecionados.
Os professores Mauricio Poletti e Ramon Moreira Nunes, do Departamento de Matemática, e o professor Cleiton Eller, do Departamento de Biologia, foram aprovados na sexta chamada pública nacional de apoio à ciência do Instituto Serrapilheira.
Do Departamento de Matemática, foram selecionados os projetos intitulados “Como estimar funções L?”, sob coordenação do Prof. Ramon Nunes e financiamento de R$ 617 mil; e o “Quão típico é o caos?”, coordenado pelo Prof. Mauricio Poletti e com aporte de R$ 613 mil. Já o projeto aprovado do Departamento de Biologia, com financiamento em R$ 660 mil, foi “Os princípios evolutivos podem ser usados para prever a mortalidade de plantas durante a seca e explicar a coexistência de plantas em ambientes secos?”, coordenado pelo Prof. Cleiton Eller.
Na visão do Prof. Mauricio, projetos como os aprovados “permitem convidar professores expertos na área para realizar pesquisas em conjunto, contratar pós-doutorandos, realizar eventos internacionais na área em Fortaleza. Isto é essencial para fazer pesquisa em nível mundial. Projetos como esse ajudam a manter o Programa de Pós-Graduação em Matemática da UFC como um dos melhores do País, uma das pós-graduações em Matemática nota 7 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)”.
CAATINGA
O Prof. Cleiton Eller, da área de Ciências da Natureza, detalha que seu projeto tem como ideia central “entender como plantas individuais e comunidades vegetais morrem durante a seca e se esse processo de mortalidade pode ser explicado por um modelo baseado em princípios evolutivos. Esse modelo postula que plantas evoluíram de forma que seus processos fisiológicos, como fotossíntese e transpiração, sejam regulados da forma mais eficiente possível para evitar sua morte durante a seca”, explica.
De acordo com ele, o modelo será testado através de experimentos feitos em estufa na UFC e também com dados coletados em campo em diversos parques e unidades de conservação localizadas no domínio da caatinga.
O projeto obteve financiamento no valor de R$ 660 mil. O Prof. Cleiton Eller considera que os recursos serão importantes para o desenvolvimento da infraestrutura de pesquisa no Departamento de Biologia e também devem contribuir para a internacionalização da UFC, uma vez que estão sendo estabelecidas parcerias com grandes grupos de pesquisa internacionais. “Além disso, espero que esse projeto produza ciência de qualidade e ajude no reconhecimento da UFC como uma instituição que produz ciência de ponta”, acentua ele.
SERRAPILHEIRA
Segundo Cristina Caldas, diretora de Ciência do Instituto Serrapilheira, os projetos de pesquisa apoiados são “ousados e arriscados”. Cristina ressaltou, portanto, que os projetos podem não dar certo, e que o modelo de financiamento do programa permite o fracasso.
“Falar explicitamente que a gente está ok em financiar projetos que sejam superarriscados e tudo bem se eles não derem certo, para nós é uma parte importante do nosso financiamento. Porque a gente quer estimular os jovens brasileiros a tomar o risco”.
Nesse modelo de financiamento, o Instituto Serrapilheira entende que avanços na ciência foram feitos quando as pessoas se arriscaram. “Esses avanços incrementais são muito importantes, porque tudo tem que conviver junto: o apoio à ciência mais incremental, junto com apoio a projetos de risco”, completou.
PARCERIA
A diretora destacou a parceria com as FAPs, que permitiu, além de elevar o total de investimentos para apoio aos projetos selecionados, aumentar o número de pesquisadores contemplados da média de 10 a 12, nos editais anteriores, para os 32 atuais.
O montante disponibilizado pelo Serrapilheira nessa 6ª chamada é de R$ 9,1 milhões, dos quais R$ 3,2 milhões são destinados ao chamado bônus da diversidade, a ser investido na formação e integração de pessoas de grupos sub-representados nas equipes de pesquisa, ou historicamente excluídos da atividade científica, como negros, indígenas e mulheres, dependendo da área da pesquisa. Já o total oferecido pelas FAPs alcança cerca de R$ 13 milhões. A distribuição dos valores está sendo avaliada caso a caso com cada FAP estadual.
Para participar os candidatos devem ter vínculo permanente com alguma instituição de pesquisa no Brasil e concluído o doutorado entre 1º de janeiro de 2015 e 31 de dezembro de 2020. O prazo é estendido em até dois anos para mulheres com filhos. “Ele [o candidato] já tem que ser professor ou pesquisador. Ou seja, tem que ter aquele vínculo institucional que vai garantir um lugar ou espaço em que ele vai estruturar o grupo de pesquisa”, disse Cristina.
Segundo explicou a diretora do Serrapilheira, ser contratado em uma universidade brasileira não garante que a pessoa vai ter todas as condições necessárias para desenvolver a pesquisa que precisa.
“No caso dessa chamada, a gente olha para esse momento da trajetória acadêmica onde ele já conquistou uma posição. Mas a gente sabe que, em várias instituições no Brasil, a conquista da posição não basta para que ele tenha tudo que precisa para fazer o seu projeto de pesquisa. Essa chamada olha para esse momento da trajetória acadêmica do cientista”, afirmou.
RECURSOS
Cristina Caldas estimou que até o final de agosto, os cientistas selecionados poderão começar a acessar os recursos. Eles vão receber entre R$ 300 mil e R$ 800 mil no período de cinco anos, já incluído um bônus de R$ 100 mil, para investir em diversidade. O bônus pode ser utilizado para pagar bolsa, curso de inglês ou auxílio-moradia. Os cientistas podem, também, usar os recursos para equipar o laboratório, frequentar congressos internacionais, por exemplo.
